Políticas estaduais influem na alta do desmatamento, dizem especialistas

Segundo Inpe, alta foi de 29,5% em 12 meses

Manaus

Além das críticas à política ambiental do governo Jair Bolsonaro (PSL), o aumento do desmatamento, registrado pelo sistema de monitoramento Prodes em cinco dos nove estados da Amazônia Legal, também coloca em xeque as estratégias desses governadores, segundo especialistas.

“O estado do Pará contribuiu com quase 40% do desmatamento de 2018/9. Com o afrouxamento das leis ambientais e a priorização de projetos de infraestrutura, a tendência é que a região se torne ainda mais um polo de disputa por terras e fornecedora de matérias-primas”, diz a ecóloga Ima Vieira, pesquisadora do Museu Goeldi, sediado em Belém.

“As expectativas sobre futuras melhorias de infraestrutura e escassez de terra são levadas em conta nas transações do mercado de terras, e provavelmente isso deve estar ligado ao desmatamento no estado e na região”, avalia.

Em julho, o governador Helder Barbalho (MDB-PA) promulgou uma nova Lei de Terras, que, na avaliação de especialistas e do Ministério Público Federal, abre espaço para a legalização de grilagem e do desmatamento ilegal. As terras públicas paraenses somam 21,4 milhões de hectares, área pouco maior do que o Paraná.

“Não é preciso desmatar mais na Amazônia nem no estado do Pará para produzir grãos, carne, dendê, o que for. Mas a visão que predomina é a de que aqui é uma fronteira agrícola pra onde deve se expandir o agronegócio e a mineração e que pode vir arrebentando com tudo.”

O Pará perdeu 3.862 km2 de floresta entre agosto do ano passado e julho deste ano, aumento de 41% em relação ao ano anterior. A área desmatada em 12 meses equivale a três municípios do Rio de Janeiro. 

Mato Grosso

Para a diretora adjunta do Instituto Centro de Vida (ICV), Alice Thuault, de Mato Grosso, o aumento de 13% do desmatamento faz com que o estado chegue ao quinto ano consecutivo com taxa acima de 1.480 km2. Ela compara com 2012, quando a área desmatada foi de 757km².

“Mato Grosso perdeu áreas de floresta que superam a extensão do município de São Paulo. Sabendo que cerca de 90% é ilegal, esse cenário demonstra o enorme desafio que é do combate ao desmatamento no estado”, diz. 
 
“Esse resultado negativo aumenta ainda mais a pressão para que o novo sistema de monitoramento implementado em Mato Grosso neste ano e o reforço da fiscalização a partir daí possam zerar o desmatamento ilegal da forma como o estado se comprometeu em 2015.”

Em agosto, o governador Mauro Mendes (DEM) colocou em funcionamento a Plataforma de Monitoramento com Imagens de Satélite Planet, após contratação de uma empresa privada. 

O impacto só poderá ser medido no Prodes 2020. No entanto sistema semelhante, que também está sob estudo pelo governo Jair Bolsonaro, já opera no Pará, onde a taxa de desmatamento cresce há dois anos consecutivos.

Especialistas afirmam que o gargalo do combate ao desmatamento não está na detecção mais precisa, e sim na falta de pessoal para fiscalização em campo e na impunidade de desmatadores ilegais e de grileiros.

No Amazonas, o aumento do desmatamento alcançou 36% entre agosto do ano passado e julho deste ano. O principal foco está no sul, onde o chamado “arco do desmatamento” avança a partir de Rondônia. Com 1.421 km2, foi o terceiro estado em área perdida, atrás de Pará e Mato Grosso.

No Acre, onde a área desmatada subiu pelo segundo ano consecutivo, o crescimento em 2019 foi de 55% _percentual apenas inferior à de RR, de 216%.

“O aumento no Acre foi esperado, dados os focos de calor e o contexto político”, afirma o pesquisador Foster Brown, da Universidade Federal do Acre (Ufac). 

Considerado uma das novas frentes de desmatamento, o Acre perdeu 688 km2, área equivalente a dois municípios de Belo Horizonte. Após ser governado pelo PT por duas décadas, o estado é comandado por Gladson Cameli (PP), que trabalha para expandir o agronegócio no estado.

Durante discurso em 31 de maio, Cameli orientou fazendeiros a não pagar multa ambiental. “Se o Imac (Instituto do Meio Ambiente do Acre) estiver multando alguém, me avisa (…). Me avisem e não paguem nenhuma multa, porque quem está mandando agora sou eu”.

O estado campeão em aumento no desmatamento é Roraima, que, localizado no hemisfério Norte, tem um regime de chuvas diferente da maior da Amazônia. O período seco, propício à derrubada, é no início do ano.

O percentual  de aumento no estado mais setentrional do país foi de 217%, com uma área perdida de 617 km2, taxa próxima à do Acre. 

Por outro lado, quatro estados da Amazônia Legal registraram redução no desmatamento: Amapá, Rondônia, Tocantins e Maranhão.

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