Descrição de chapéu The New York Times

China anuncia que vai reduzir quantidade de itens plásticos descartáveis no país

Chineses produzem menos resíduos per capita do que americanos, mas 75% dos plásticos não têm descarte adequado

Chris Buckley
Pequim | The New York Times

Os aterros sanitários estão lotados. Campos e rios estão cobertos, e é possível vê-los pendendo das árvores e formando flotilhas de detritos no mar. O uso de sacos, recipiente e talheres de plástico pelos chineses se tornou um dos problemas ambientais mais persistentes e complicados do país.

Por isso, o governo chinês adotou medidas para reduzir drasticamente a quantidade de itens plásticos descartáveis, que muitas vezes se tornam um risco e uma causa de poluição literal e visual no país, mesmo em áreas rurais distantes e nos oceanos.

Entre as novas regras há proibições à importação de lixo plástico e a adoção de sacolas biodegradáveis nas grandes cidades do país, até o final do ano. Outras fontes de lixo plástico serão proibidas em Pequim, Xangai e nas províncias costeiras prósperas do país a partir do final de 2022, e a regra vai se estender a todo o território chinês em 2025.

Trabalhadores chineses separam garrafas de plástico em centro de descarte em Pequim
Trabalhadores chineses separam garrafas de plástico em centro de descarte em Pequim - AFP

Esforços anteriores para reduzir o uso de sacos plásticos fracassaram na China, mas o governo indicou que, desta vez, tratará o problema de maneira mais séria e sistemática.

“O consumo de produtos plásticos, especialmente itens de uso único, vem crescendo constantemente”, afirma a explicação que acompanha um grupo de novas regras divulgadas no domingo pelo Ministério do Meio Ambiente e pela principal agência chinesa de planejamento industrial. “É preciso haver um planejamento mais abrangente e vigoroso, e um lançamento sistemático de medidas de combate à poluição por plástico”.

O plano provavelmente será recebido de forma positiva por muitos chineses, que se preocupam cada vez mais com a poluição do ar, água, solo e ambientes naturais. Mas pode ser difícil convencer uma sociedade acostumada à conveniência do varejo online e dos mensageiros que entregam comida e pacotes embrulhados em plástico sobre as virtudes da mudança.

Embora os chineses em geral gerem menos resíduos plásticos per capita do que os americanos, quase três quartos dos resíduos plásticos chineses terminam em aterros sanitário mal gerenciados ou a céu aberto.

Ativistas ambientais chineses receberam com agrado o esforço para reduzir o uso de plástico, ainda que alguns tenham declarado que o plano não era nem severo e nem detalhado o bastante. Outros questionaram a capacidade do governo para desenvolver e promover substitutos para plásticos que não são biodegradáveis e persistem por décadas, e até mesmo séculos, no solo, nas vias aquáticas e nos oceanos.

Dada a severidade dos problemas de poluição na China, é preciso mais urgência, disse Chen Liwen, fundadora da China Zero Waste Villages, que promove a reciclagem em áreas rurais.

“É certamente melhor que nada”, ela disse, acrescentando que “para produtos descartáveis — sacos plásticos ou muitos utensílios de alimentação descartáveis —, o plástico deveria ser proibido de vez”.

Tang Damin, ativista da Greenpeace no leste da Ásia, disse, via email, que embora “Pequim esteja tratando o problema com seriedade e pressionando pelo uso de recipientes reutilizáveis como solução correta”, a política seria muito mais efetiva se houvesse incentivos como depósitos restituíveis quando da devolução das embalagens.

O governo chinês parece pensar que as companhias e os consumidores precisam de tempo para se acostumar à ideia de uma vida na qual haverá muito menos plástico descartável.

Mesmo as economias mais prósperas avançaram com cautela para a proibição de sacos plásticos. No ano passado, o estado de Nova York aprovou uma proibição à maior parte dos sacos plásticos descartáveis que deve entrar em vigor em 1º de março, o que faz dele o segundo estado a adotar essa proibição, depois da Califórnia.

O plano da China para deixar para trás o uso de recipientes plásticos descartáveis dispõe três fases até 2025. As restrições começarão a ser aplicadas em grandes cidades como Pequim e Xangai, depois passarão a ser aplicadas a cidades menores, e por fim chegarão às aldeias.

Pelo final do ano, dizem as normas, a China proibirá o uso de talheres plásticos descartáveis. Lojas, restaurantes e os mercados das grandes cidades terão de suspender o uso de sacos plásticos não biodegradáveis, no mesmo prazo, e os restaurantes e vendedores de refeições de todo o país terão de suspender o uso de canudos feitos de plástico não biodegradável.

O setor chinês de entrega de pacotes terá mais tempo para se ajustar. Pelo final de 2022, mensageiros em Pequim, Xangai e nas províncias costeiras prósperas terão de deixar de usar embalagens, fitas adesivas e sacos feitos de plástico não biodegradável. Pelo final de 2025, o alcance da medida se estenderá a todo o país.

“Os efeitos da mudança nas regras podem não se tornar visíveis de imediato”, disse William Liu, consultor sênior da Wood Mackenzie em Xangai; a empresa assessora clientes empresariais sobre o setor de produtos químicos e o de energia, e negócios relacionados.

“Mas no futuro”, ele afirmou em email, “quando a proibição se estender a mais cidades e os materiais alternativos tiverem ganhado mais impulso, o consumo de polietileno pela China será afetado”.

Um obstáculo considerável —dado o tamanho do mercado chinês, a onipresença do plástico e o volume de resíduos descartados — são os recipientes plásticos de comida usados pela maioria dos restaurantes, e raramente reutilizados.

Produtos vendidos via internet por meio do Alibaba, JD.com, Meituan e outros serviços chineses de comércio eletrônico muitas vezes chegam embrulhados em diversas camadas de plástico, em um aparente reflexo do medo dos vendedores de que os compradores rejeitem entregas sujas ou com embalagens danificadas. Os serviços de entrega de encomendas chineses usaram quase 25 bilhões de sacos plásticos para entregas em 2018, de acordo com uma estimativa setorial mencionada pelo Diário dos Trabalhadores e outros veículos noticiosos chineses.

“O nível de proteção ambiental e reciclagem só vai melhorar se toda a cadeia de suprimento acompanhar”, disse Zheng Yixing, fundador da Helihuo Environmental Technology Company, de Pequim, que promove a reciclagem comercial.

O governo anunciou que consideraria criar uma lista negra de empresas que violem as restrições quanto às embalagens plásticas. A cooperação das grandes empresas de varejo online será crucial, disse Tang.

“A entrega de comida e o comércio eletrônico causaram uma disparada no uso chinês de plástico não reutilizável e criaram uma cultura de usar e jogar fora”, ele disse. “É hora de a Alibaba, JD.com e Meituan deixarem de hesitar, e de que assumam seu papel para combater a crise do plástico’.

Wen Jing, 28, que trabalha no setor financeiro em Pequim, disse que recebia bem as restrições propostas, mesmo que causem inconveniência.

“Há produtos plásticos demais na vida, e eles estão poluindo o ambiente”, ela disse em entrevista. “Mas creio que as coisas todas tenham de ser organizadas de forma a que haja substitutos”.

Ela estava saindo de um supermercado, e carregava suas compras em um saco plástico. “Costumo trazer minha sacola”, ela disse.

Tradução de Paulo Migliacci

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