Só 2% do Plano Safra vão para agricultura de baixo carbono, critica pesquisador Eduardo Assad

Orçamento do plano federal para adoção dessa prática precisa crescer, diz professor da FGV e ex-secretário de Mudanças Climáticas do Meio Ambiente

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Cristiane Fontes Marcelo Leite
Oxford e São Paulo

O engenheiro agrícola Eduardo Assad dedicou sua vida a estudar os impactos das mudanças climáticas na agropecuária. O setor, atrás das chamadas mudanças de uso da terra, classificação que inclui o desmatamento, é o principal responsável pelas emissões de gases de efeito estufa do Brasil e responde por aproximadamente 27% do total, segundo dados do Seeg (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa).

A agropecuária é hoje também um dos setores mais impactados pela crise climática. Em 2008, Assad foi um dos coordenadores do estudo pioneiro "Aquecimento Global e a Nova Geografia da Produção Agrícola no Brasil", que estimava perdas de R$ 7,4 bilhões nas safras de grãos do país em 2020.

Nesta entrevista à Folha, o engenheiro afirma que ele e os colegas erraram em relação ao que foi projetado. "Quando chegou em 2020, não foram R$ 7 bilhões: foram US$ 7 bilhões que a gente perdeu", diz. "O modelo foi bom, mostrou uma tendência, mas uma tendência ‘boazinha’."

Mulheres com camisetas cor de rosa colhem frutos
Mulheres do coletivo As Camponesas colhem frutas orgânicas no assentamento Florestan Fernandes, na cidade de Guaçuí (ES) - Bruno Miranda - 5.out.2021/Folhapress

Assad, que foi coordenador técnico de zoneamento agrícola de riscos climáticos no Ministério da Agricultura por quase 15 anos, participou ativamente da elaboração das políticas públicas para promover a agricultura de baixa emissão de carbono, também conhecida pela sigla ABC. Foi ainda secretário de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente em 2011.

Assad destaca como ainda é pequeno o investimento brasileiro na agricultura de baixo carbono. "Cinco bilhões para o Plano ABC são 2% do que vai para o crédito rural, não é nada", afirma.

Para Assad, o Brasil precisa também dar mais atenção e recursos para a agricultura familiar, além de preocupar-se mais com a diversificação da produção agrícola e com o fomento da bioeconomia.

"Mais de 50% dos produtores brasileiros, isso dá em torno de 3,9 milhões de agricultores, estão na linha da pobreza e respondem por 6% do valor bruto da produção. Menos de 0,01% dos produtores brasileiros, são 25 mil produtores, respondem por 52% do valor bruto da produção", afirma.

Retrato de homem
Eduardo Assad, engenheiro agrônomo - Demian Golovaty/Divulgação

O pesquisador critica também a minimização dos estragos causados pelas mudanças climáticas. "Num país que tem um problema sério com a sua dívida interna e com a sua produção, é preciso dizer quanto se perde."

Quanto a soluções, Assad observa que o setor financeiro, em grande parte, passou a ser envolver com práticas agrícolas mais sustentáveis — não porque seja "bonzinho", diz, mas porque segue uma tendência internacional.

No estudo "Aquecimento Global e a Nova Geografia da Produção Agrícola no Brasil", de 2008, você e a sua equipe de pesquisa estimaram perdas de R$ 7,4 bilhões nas safras de grãos em 2020 e de R$ 14 bilhões em 2070 para o Brasil devido aos impactos das mudanças climáticas. O que aconteceu em relação ao previsto para 2020? Esse foi um trabalho pioneiro porque a gente começou a testar modelos e verificar se as áreas de risco aumentariam ou não. Conseguimos ver que, reduzindo as áreas boas para plantio, o impacto poderia chegar a R$ 7 bilhões.

A gente errou. Quando chegou em 2020, não foram R$ 7 bilhões: foram US$ 7 bilhões que a gente perdeu. Um valor altíssimo, muito mais forte do que o modelo estava mostrando.

O modelo foi bom, mostrou uma tendência, mas uma tendência "boazinha".

Como e por quem esses prejuízos vêm sendo mapeados atualmente? Hoje são dois grupos que fazem esse monitoramento: instituições de pesquisa e a Conab [Companhia Nacional de Abastecimento]. A Conab solta uns números muito interessantes, são números oficiais, mas você chega e "mas não é isso que está acontecendo no campo…".

Em 2018 e 2019 a gente teve R$ 15 bilhões de perdas no Paraná. E a Conab não mostrou isso. Ela mostra alguns números de perda de produtividade. Na safra 2019/2020 essas perdas aumentaram, e os números começaram a aparecer.

Então quando você discute com o pessoal do agronegócio é "não, você não pode falar em dinheiro, tem que falar em perda física, quantos milhões de toneladas". Eu falo: num país que tem um problema sério com a sua dívida interna e com a sua produção, é preciso dizer quanto se perde. Se quiser que fale em perda física, a gente fala. Se quiser falar em perda financeira, a gente fala. Mas quando falam em ganhos, só falam do financeiro, não falam do físico.

Como o poder público tem respondido às perdas geradas pela crise climática? E quem assume os custos desses prejuízos atualmente? Discuti isso algum tempo atrás no Ministério do Planejamento e a resposta que ouvi de alguns economistas foi: "‘Peanuts, isso é ‘peanuts, porque se a gente financia R$ 250 bilhões para o crédito rural, R$ 10 bilhões não são nada". A minha resposta foi um pouco irônica: então você me avisa quanto a gente tem que perder para eu começar a ficar preocupado. Você tem as perdas, mostra onde está o problema, mostra a causa e a consequência. E o que é mais grave: a gente sabe a solução. E isso não está sendo adotado.

O que pode trazer um certo alívio é que a gente já tem práticas de manejo e conservação do solo que foram adotadas como política pública no governo e que podem minimizar essas perdas, como é o caso da já conhecida agricultura de baixa emissão de carbono. As pessoas que adotaram as tecnologias da agricultura de baixa emissão de carbono perderam 15% da safra em um momento grave de seca. Os que não usaram perderam 25%. Isso nós estamos monitorando.

Como o Brasil tem avançado na implementação de uma agricultura de baixo carbono (ABC)? O que deveria ser revisto no Plano ABC, estabelecido em 2010, pelo governo federal, para adaptação às mudanças climáticas e adoção de agricultura de baixa emissão de carbono? No início, colocaram R$ 400 milhões. Depois, vendo a importância, o ganho político e ambiental que se tinha com isso, esse orçamento subiu para R$ 2 bilhões.

Já no final do governo Temer e no início do governo Bolsonaro, existiu uma pressão enorme para fechar esse negócio, aí o terceiro escalão do ministério entendeu que aquilo era bom e que a pressão ambiental em cima do Brasil era muito grande, e a gente mostrando insistentemente que um dos grandes feitos da mitigação seria reduzir as emissões com agricultura de baixo carbono.

O orçamento do [Plano] ABC dobrou e foi para R$ 5 bilhões. Cinco bilhões para o ABC são 2% do que vai para o crédito rural, não é nada.

Mais recentemente começou uma revisão ampla do plano e saiu então o ABC+. Fica ainda um buraco muito grande que começa a ser discutido com mais peso: e a agricultura familiar? São 4 milhões de agricultores que estão fora desse financiamento. Não podemos deixar isso acontecer.

Eduardo Delgado Assad, pesquisador da Embrapa e professor de mestrado em agronegocio da FGV-G Vagro, durante seminario, no hotel Renaissance
Eduardo Assad em seminário sobre mudanças climáticas, em São Paulo, em maio de 2014 - Nilani Goettems - 8.mai.2014/Valor/Agência O Globo

A agenda de adaptação avançou na comunidade internacional, mas retrocedeu no Brasil neste governo. O que é urgente no nosso país nessa matéria? Adaptação da infraestrutura urbana? Ou no agronegócio? A adaptação nas áreas urbanas é algo importantíssimo, porque é onde temos mais de 80% da população. Qualquer coisa que aconteça com chuvas mais intensas, nós vamos ter problemas.

O Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) já mostrou isso várias vezes. E, ao que me consta, a gente só tem uma cidade que tem o seu plano de contingência completo, que é Santos (SP).

A implementação do [Plano] ABC ficou em cima de mitigação e esse foi um dos poucos argumentos que o Brasil levou para Glasgow, que a agricultura brasileira pode reduzir as emissões. Mas o que a agricultura pode fazer para adaptação?

Pode incentivar, por exemplo, sistemas agroflorestais, sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta. Esses sistemas reduzem a temperatura, reduzem a velocidade do vento, aumentam a capacidade do solo de reter água e promovem redução de erosão que reduz as enchentes nas áreas urbanas. Enfim, está tudo interligado.

Mulher, de costas, usa chapéu diante de árvores e palmeiras
Sistema agroflorestal em sítio da agricultora Maria Silva de Morais na zona rural de Lago do Junco, no Maranhão - Lalo de Almeida - 12.nov.2021/Folhapress

Qual o caminho para valorizar e fomentar a economia da floresta em oposição ao atual modelo de expansão e produção de commodities agrícolas? É uma coisa difícil, porque hoje se o produtor de soja perder 50% da safra ainda está ganhando o equivalente ao que ganhou no ano passado. Por conta da produtividade? Não. Foi por conta do preço do dólar.

Uma coisa dessas é uma loucura. Outra coisa que chama a atenção são os grupos desses produtores de commodities, arraigados nesse sistema de compra e exportação do material primário. Isso vem lá do pau-brasil… Não tem sentido manter um negócio desses. Esse povo está começando a ver que é preciso fazer sistemas integrados, porque se não as válvulas de escape vão se fechando.

É esse tipo de embate que nós estamos tendo. De um lado um conservadorismo muito grande e, do outro lado, um grupo que está começando a avançar, a crescer nessa discussão e está ganhando espaço.

O que sabemos do uso dos R$ 250 bilhões que são investidos na agropecuária pelo Plano Safra? Como os recursos são desembolsados? Os recursos são desembolsados para custeio, para o cara plantar a safra dele, também para investimento, e ele vai entrando numa série de linhas de crédito, para máquinas, armazém, adubo. Esse caminho é conhecido há muito tempo.

O que ninguém diz é que essas grandes holdings, grandes produtoras de soja, por exemplo, compram 60% da safra com a intenção de plantio. Então o sujeito diz que vai plantar 1.000 hectares e quando ele diz que vai plantar com o dinheiro público, 60%, ou 600 hectares, já estão comprados. O [programa de governo] Proagro cobre 60% das perdas para o pequeno agricultor e 60% do custeio. E essas grandes holdings compram 60% da safra no plantio.

Tem um número do Ministério da Agricultura que mostra mais ou menos o seguinte: mais de 50% dos produtores brasileiros, isso dá em torno de 3,9 milhões de agricultores, estão na linha da pobreza e respondem por 6% do valor bruto da produção. Menos de 0,01% dos produtores brasileiros, são 25 mil produtores, respondem por 52% do valor bruto da produção.

Enquanto um recebe R$ 250 bilhões para crédito, os outros que estão na linha da pobreza recebem R$ 30 bilhões. Tem alguma coisa errada aí, né?

O que falta para o Brasil investir no uso e na recuperação de milhares de pastagens degradadas e qual seria o ganho climático disso? Estamos falando de 60 milhões de hectares de pastos degradados. Imagine se a gente estabelecer uma política de recuperação de 60 milhões de hectares. Ninguém tem isso no mundo.

Fazer a conversão desses 60 milhões de pastos degradados, que têm uma produtividade muito baixa e incentivar esse pessoal a fazer a integração lavoura-pecuária. Não tem que mudar a estrutura da indústria nem de nada e em um ano você já começa a ter retorno.

Você pega um hectare de pasto ruim, no ano seguinte você já vai ter pasto e, que seja, soja, milho, pasto. E aí, ao invés de ter 3 toneladas de soja, você vai ter 3 de soja mais 8 de milho e um acréscimo de 7 arrobas de boi por hectare/ano. A recuperação desses 60 milhões de hectares com esse objetivo de produção já teria um impacto muito grande na remoção de gases de efeito estufa.

Diante do avanço não só do desmatamento, mas também da grilagem de terras e dos conflitos fundiários, alguns pesquisadores como Philip Fearnside [cientista americano conhecido por seu trabalho no Inpa, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia] demandam que importadores de commodities agrícolas barrem as importações de produtos de áreas sem regulação fundiária. O que acha dessa proposta? Eu sempre defendi que desmatamento ilegal é cadeia. Desmatou tem que ir para a cadeia, não tem conversa, é lei. Eu acho que o Philip Fearnside está certo.

Nós temos que colocar essas barreiras para pôr um pouco de ordem na bagunça que é a estrutura fundiária da Amazônia. Vamos dar um tempo para a Amazônia, dar uma moratória para a Amazônia, para que a gente respire e bote ordem naquilo.

Alguma coisa vai acontecer depois dessas eleições, porque não depende da gente, depende do comprador. E a Europa já deixou claro, e a China já está fazendo sinais muito claros, apesar de ter uma política dúbia.

Vamos dar um tiro no pé… Temos que partir para uma política bioeconômica, onde são os produtos que estão ali que podem ser potencializados.

O que o setor financeiro deveria priorizar para excluir o desmatamento e outros impactos socioambientais dos seus portfólios? O setor financeiro, exceto os bancos oficiais, tem se colocado com muita clareza nesse negócio depois de anos, anos e anos falando. Então eles estão buscando, sim, a carne verde, a agricultura sustentável, apesar de o conceito que eles têm de agricultura sustentável não ser essas coisas todas, mas eles estão buscando a informação para trabalhar com os seus grupos, os grupos internos deles.

Eu acredito que o setor financeiro vai dar uma mão grande aí para a gente no futuro. São bonzinhos? Não, não são bonzinhos, mas estão alinhados com o discurso internacional.

Em um momento em que 30 bancos mundiais se aliam [compromisso apresentado na COP26, conferência realizada em novembro de 2021, em Glasgow] para buscar uma solução para esse negócio da mudança climática, do aquecimento global, da sustentabilidade, o Brasil não pode ficar de fora.


RAIO-X

Eduardo Assad, 64

Formado em engenharia agrícola na Universidade Federal de Viçosa, com mestrado e doutorado em hidrologia e matemática na Universidade de Montpellier (França). Foi pesquisador da Embrapa por 35 anos, coordenador técnico nacional de zoneamento agrícola de riscos climáticos do Ministério da Agricultura (de 1996 a 2010), membro do comitê científico do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas e secretário de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (2011). Atualmente é pesquisador associado do Cepagri (Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e professor do mestrado em agronegócio da FGV (Fundação Getulio Vargas).


ENTENDA A SÉRIE

Planeta em Transe é uma série de reportagens e entrevistas com novos atores e especialistas sobre mudanças climáticas no Brasil e no mundo. Essa cobertura especial acompanha ainda as respostas à crise do clima nas eleições de 2022 e na COP27 (conferência da ONU em novembro, no Egito). O projeto tem o apoio da Open Society Foundations.

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