'Fleabag' usa humor ácido e ousadia sexual para retratar geração da selfie

Sacada é que a série expõe nosso lado pior sem pesar

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"Fleabag" é descendente direta de "Seinfeld", mas não por causa de Seinfeld, e sim de Elaine Benes. A mulher sem nenhuma amarra social que a londrina Phoebe Waller-Bridge interpreta, criada para uma peça de teatro, só pode falar tanto de sexo e ser tão egoísta porque a nova-iorquina despudorada existiu antes dela.

Há outras referências no trabalho fenomenal de Waller-Bridge. Sua cumplicidade com o espectador, com confissões e comentários diretos para a câmera, vem dos palcos e também de séries como "The Office" (criada no Reino Unido antes de ganhar a mais conhecida versão americana).

"Seinfeld" e "The Office" são dois marcos em sarcasmo que beira a crueldade, e a comediante britânica os absorveu bem para criar sua personagem sem nome --sem nome para que todos nos reconheçamos um pouco em suas desventuras e infortúnios.

Phoebe Waller-Bridge em cena de 'Fleabag' - Divulgação

Em episódios de 23 minutos, um refresco em meio a tantas produções intermináveis, se desenrola o dia a dia de uma mulher de seus 30 anos, dona de um café prestes a falir, com uma compulsão sexual tremenda e um sentimento de culpa ligado ao quase-suicídio da melhor amiga.

A família é desestruturada e cheia de amor, como sói em séries do gênero. É formada por pai, madrasta, irmã -- a madrasta, também madrinha da personagem, é interpretada por Olivia Colman, dona de um Oscar por seu papel de rainha em "A Favorita" (2018). E Colman, com seu timing perfeito e um cinismo perene na cara, faz diferença ao interpretar a antagonista megera que inferniza a enteada-afilhada.

Claro que, na melhor tradição das séries nas quais ninguém presta, a protagonista reúne uma vasta lista de defeitos que só se perdoa porque o texto é engraçado demais e porque não há como não admitir algum grau de identificação com um ou com outro deles.

Waller-Bridge, que neste mês completa 34 anos e tem um episódio de "Star Wars" no currículo (ela é a robô L3-37 em "Han Solo", 2018), é também a roteirista e confiou em seu ritmo cômico, entremeando caretas e observações ferinas a uma ternura inesperada, para compor a personagem.

No fundo, sua protagonista é uma meninona, o que os psicólogos anglófonos chamam de "kiddult", o adulto que nunca amadurece, tão comum em tempos em que crises econômicas retardam a responsabilidade sobre os próprios boletos. É por isso que é tão difícil não gostar dela e, ao mesmo tempo, não desprezá-la.

Sua dificuldade em se entregar a compromissos e relacionamentos —sejam de amizade, familiares, afetivo-sexuais ou mesmo como tutora de um porquinho-da-índia— reflete essa condição prevalente em tempos de atenção picotada e individualismo.

A sacada é que "Fleabag" expõe nosso lado pior sem pesar, sem tirar o sono nem oferecer maiores julgamentos.

De certa forma, se opõe à onda de séries atuais que evocam medos e pesadelos. Não porque se esquive de fazê-lo, e sim porque o faz mostrando que esses são uma parte indissociável de nós com a qual temos de aprender a conviver.

As duas temporadas de 'Fleabag' estão disponíveis na Amazon Video

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