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Sem política nem polêmica, 'Seinfeld', aos 30, mantém sua graça e influência

Quarteto nova-iorquino mesquinho enriqueceu seu criador e influenciou gerações de humoristas

Luciana Coelho
São Paulo

Não havia Elaine Benes nem Cosmo Kramer quando o primeiro dos 173 episódios de “Seinfeld” foi ao ar nos Estados Unidos, há 30 anos, na noite de uma quarta. Em 5 de julho de 1989, o vizinho tantã que o ator Michael Richards imortalizou existia, mas se chamava Kessler. 

O nome seria mudado só no episódio seguinte, exibido em 31 de maio de 1990, após a rede de TV aberta NBC embarcar na ideia de dois comediantes ainda pouco conhecidos fora do circuito nova-iorquino de stand-up, Jerry Seinfeld e Larry David (o primeiro somava algumas aparições em programas de humor alheios).

​​Julia Louis-Dreyfus, a melhor atriz cômica do quarteto da série e a mais bem-sucedida após o protagonista-autor, também só apareceria no primeiro episódio, de 1990 (o piloto é considerado o “zero”), como a ultraliberada ex-namorada de Jerry, até hoje um símbolo e um alento para feministas e mulheres em geral. 

A personagem feminina no piloto, batizado de “Crônicas de Seinfeld”, era a mal-humorada garçonete Claire (Lee Garlington), que não vingou.

E o restaurante favorito de Jerry e seu amigo George Costanza ​—sim, já estava lá o sociopata folgado vivido por Jason Alexander— era chamado de Pete’s, não de Monk’s. A fachada, hoje um ponto de selfies em Manhattan, era outra. Spoiler: dentro, o local, que se chama Tom’s, e o menu são diferentes —sem “big salad”.

Como acontece uma vez a cada geração, a comédia de TV seria então afetada para sempre (20 anos antes fora o seminal “Monty Python Flying Circus”, 20 anos depois seria o pseudonoticiário satírico de Jon Stewart a sacudir a cena). 

Desde 1998, quando o último episódio foi exibido para uma audiência histórica de 76 milhões de espectadores, não são poucos os filhotes dramatúrgicos de Seinfeld. Nem é pequena sua influência sobre comediantes de diferentes gerações e plataformas. 

Aos 65 hoje, Jerry Seinfeld aparece nas principais listas de artistas ricos, dono de um patrimônio que há três anos foi estimado em US$ 860 milhões (quase R$ 3,5 bilhões).

Com Larry David, que inspirou o personagem George e depois pôs seu alter ego na telinha em “Segura a 
Onda”, Seinfeld criou uma série “sobre o nada”, sem compromisso de tratar de temas familiares, políticos ou qualquer coisa além de situações corriqueiras.

Tudo sempre observado do ponto de vista assumidamente mesquinho e individualista dos quatro protagonistas. Assim, situações antes limitadas a monólogos de stand-up ganharam cara e cenário.

A ideia rompeu clichês e se conectou imediatamente com o público. Não que não houvesse personagens torpes na TV; os anti-heróis mais rabugentos, porém, vez ou outra traziam uma lição de moral.

Jamais “Seinfeld”, cuja órbita sempre compreendeu coisas como comer um sanduíche que caiu no lixo, roubar vaga de carro, estragar a festa alheia, criticar a aparência de bebês, furar fila, matar a noiva porque a cola do convite de casamento era barata e tóxica, enganar chefes, enganar ex, passar a perna em geral.

Ainda circulam por aí expressões como “soup nazi”, do episódio inspirado em um personagem real que exige de seus fregueses um protocolo quase militar para pedir sopa em seu restaurante, e “Festivus”, a celebração criada para competir com as festas natalinas que louvava um mastro.

Ter optado por temas banais e desviado da política e da polêmica (não sem receber críticas por isso) fez com que a série resistisse com sua graça intacta por essas três décadas.

Mas se “Seinfeld” permeou com destreza 30 anos de cultura pop, o mesmo não pode ser dito de seu elenco.

Seinfeld segue pilotando a boa “Comedians in Cars Getting Coffee”, agora na Netflix, em que entrevista colegas exatamente na situação que o título sugere. Julia Louis-Dreyfus acaba de encerrar “Veep”, em que se firmou como a melhor comediante em exercício.

Os outros dois não tiveram tal sucesso. 

Michael Richards fracassou com o próprio programa em 2000 e fazia pontas e stand-ups sem relevo até cair em desgraça após ofender com injúrias raciais um espectador de um de seus shows, em 2006. 

A marca do racismo não o abandonou, e hoje, aos 70, o ator que era o mais conhecido quando “Seinfeld” estreou é só a nostalgia de Kramer.

Alexander, com mais quilos e menos cabelos aos 60, continua bastante ativo com papéis menores, dublagens e participações especiais, mas nada que beire o antigo sucesso.

Nos próximos meses, o quarteto de amigos mesquinhos será homenageado com  uma exposição interativa em Nova York, onde fãs poderão ver objetos de cena e figurino (camisa bufante, lembram dela?) de um tempo em que a TV era menos pretensiosa.

Os Filhotes da série

'Segura a Onda', de Larry David (2000-11; 2017-19), na HBO

‘Chappelle’s Show’, de Neal Brennan e Dave Chappelle (2003-06)

‘Louie’, de Louis C. K. (2010-15), na HBO

‘Comedians in Cars Getting Coffee’, de Jerry Seinfeld (2012-19), na Netflix

‘Inside Amy Schumer’, de Amy Schumer e Daniel Powell (2013-16), no Comedy Central

‘Broad City’, de Ilana Glazer e Abbi Jacobson (2014-19), no Comedy Central

‘Master of None’, de Aziz Ansari (2015-17), na Netflix

‘Haters Back Off’, de Colleen Badger (2016-17), na Netflix

‘Better Things’, de Pamela Adlon e Louis C. K. (2016-20), na Fox Premium

‘Fleabag, de Phoebe Waller-Bridge (2016-19), na Amazon Video

 
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