Descrição de chapéu Saiu no NP jornalismo

Há 25 anos, boato da múmia gay rodou o mundo e chegou ao Notícias Populares

Encontrado em 1991, corpo de 5.300 anos foi alvo de disputa

Cristiano Cipriano Pombo
São Paulo

Uma das maiores fake news da história da ciência completa 25 anos.

Isso porque em março de 1993 uma notícia surpreendeu. Na época, foi divulgado que o corpo da múmia chamada de "Homem de Gelo" tinha esperma no ânus.

Encontrado pelo casal alemão Erika e Helmut Simon em setembro de 1991, na fronteira entre Áustria e Itália, a múmia estava em ótimo estado de conservação. Mas o silêncio dos cientistas da Universidade de Innsbruck abriu margem para especulações.

A maior delas é que o "Homem de Gelo" teria esperma armazenado no ânus, o que abriria hipótese de ser gay. Esse boato foi replicado por revistas voltadas ao público homossexual e até constrangeu os cientistas.

Capa do Notícias Populares de 22 de fevereiro de 1993 em que fala da múmia
Capa do Notícias Populares de 22 de fevereiro de 1993 em que fala da múmia - Folhapress

Isso porque grandes e conceituadas revistas, entre elas a Nature, criticaram a demora na apresentação de conclusões ou descobertas sobre a múmia, considerada o "achado" mais significativo para estudar a origem do ser humano por ter 5.300 anos.

"Isso é ridículo", afirmou  Werner Platzer,  um dos coordenadores dos trabalhos com a múmia em Innsbruck.

Sabia-se à época da descoberta que a múmia não tinha pênis nem ânus. Acreditava-se que essa região do corpo tinha sido destruída pelo tempo no gelo.

Mas o boato sobre o sêmen, publicado no Notícias Populares com o título "Homem guardou esperma no ânus por 4.600 anos", não foi o único.

A revista alemã "Der Spiegel" publicou que todo tipo de história estava surgindo na Europa sobre o "Homem de Gelo", que foi batizado depois de Oetzi (italiano)/Ötzi (austríaco), pelo jornalista Karl Wendll, já que foi achado perto do vale de Otz. Dois exemplos foram um depoimento de um jornalista alemão dizendo que o corpo deveria ser uma fraude, de tão bem conservado que estava, e uma mulher que se dizia a reencarnação da múmia.

A história do sêmen chegou a ser publicada por dois jornais austríacos e um suíço, além de ser distribuída por um serviço de notícias nos EUA.

Para piorar a situação, além da crítica pela lentidão e pelo tratamento dado à múmia desde a retirada do gelo feito pela revista Nature, Itália e Áustria entraram em litígio, numa disputa envolvendo museus, universidades e cientistas. A primeira queda de braço deu ganho a Universidade de Innsbruck, que analisaria a múmia por três anos.

Contudo, após seis anos de disputa entre pesquisadores, foi decidido que Oetzi era propriedade italiana, e não austríaca. Um fator decisivo foi a localização da múmia, a 92 metros da fronteira suíça, na Val Senales, nos Alpes. 

Na Itália desde janeiro de 1998, com base nas informações que se tinha de altura (cerca de 1,60 m), peso (cerca de 50 kg) e idade (entre 35 e 45 anos), Oetzi foi "reconstruído" pelos holandeses Adrie Kennis e Alfons Kennis e exposto no Museu Arqueológico de Bolzano, em fevereiro de 2011.

Ao longo dos anos, mais informações foram reveladas, como as marcas na pele, as roupas que protegiam o corpo, detalhes da posição em que foi encontrado (e que não é o que local da morte e de onde foram encontrados seus objetos) e, principalmente, a potencial causa de morte: uma flechada que levou na altura do ombro esquerdo.

Mas outra notícia que parece lenda volta a rondar a múmia: alguns que têm contato com ela morrem logo depois. Exemplo: o próprio descobridor da múmia, Hulmut Simon, morreu congelado após voltar ao local do achado. Depois, ocorreram mais três mortes ligadas ao corpo de Oetzi.
 

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