Canto das rãs da cidade é mais eficaz para atrair parceiras, afirma estudo

Bichos urbanos aumentaram volume e ritmo da canção de acasalamento em relação aos do campo

Gabriel Alves
São Paulo

​O canto da cidade é da rãzinha túngara (Physalaemus pustulosus), que, segundo um novo estudo, conquista mais parceiras com sua voz adaptada ao ambiente urbano do que suas colegas nascidas e crescidas no mato.

Os autores da pesquisa, da Universidade Vrije (Holanda) e do Instituto Smithsonian de Pesquisa Tropical (Panamá),  chegaram a essa conclusão após gravar a vocalização de acasalamento dos bichos na cidade e no campo e reproduzi-los em caixinhas de som. 

Resultado: as fêmeas, tanto da cidade quanto do mato, preferem a música urbana.

Os bichos da cidade teriam aprimorado a canção original, aumentando volume e ritmo, além de adicionar estalos ao fim de cada emissão, como um baterista virtuoso que adiciona mais notas ao seu solo para impressionar as fãs.

Isso não acontece no mato porque, ao mesmo tempo que poderiam atrair mais fêmeas, os estalos chamariam a atenção de predadores, como morcegos do gênero Trachops e mosquitos parasitas. 
Em outras palavras, com menos morcegos e mosquitos ao redor, os sapos da cidade ficaram livres para brilhar. Mas isso não significa que eles tenham perdido suas raízes. 

Rã inflada
Rãzinha Engystomops pustulosus (ou Physalaemus pustulosus), conhecida como túngara, cujos espécimes da cidade têm canto mais complexo e atraente para as fêmeas - Brian Gratwicke/Wikimedia Commons

Ao serem colocados no ambiente selvagem, anfíbios urbanos se ajustaram perfeitamente ao meio, reduzindo a complexidade de seu canto. No caso dos silvícolas levados para a cidade, não houve adaptação no sentido oposto.

“Fazendo uma espécie de profecia, caso um dia aconteça uma catástrofe e a região urbana volte a ser floresta, esses bichos da cidade estarão em condição muito melhor do que os outros, vão se sobrepor aos demais e a evolução tenderia a favorecê-los”, diz Carlos Jared, pesquisador do Instituto Butantan especialista em répteis e anfíbios.

Para o cientista, a pesquisa panamenha, de metodologia simples, tem impacto grande no entendimento sobre a urbanização das espécies. “É um trabalho que inverte a cabeça. Qualquer um apostaria que o bicho urbano não se adaptaria de novo à floresta.”

Apesar de terem um corpo menor, os bichos da cidade possivelmente têm, graças à competição pela atenção das fêmeas, maior capacidade pulmonar e maior saco vocal, além de terem ganhado algumas alterações em suas cordas vocais, o que explicaria sua performance nos testes.

Os autores especulam que as rãs urbanas teriam sofrido forte seleção para correr os diferentes riscos da cidade e resolver problemas de forma engenhosa, tornando-as mais atraentes, além de mais flexíveis e menos avessas ao perigo —quase uma versão anfíbia de MacGyver.

“O fator mais importante para essa seleção na cidade parece ser a ausência de predadores, que tendem a ser as primeiras espécies que desaparecem em locais poluídos ou onde a mata é fragmentada. Isso sugere que os machos urbanos superariam os machos da floresta em ambientes degradados”, escrevem os autores do estudo, que saiu na revista Nature Ecology and Evolution.

Se a lista de animais extintos por ação do Homo sapiens é gigantesca, algumas espécies se deram bem na história. Entre os que se adaptaram à vida nas cidades estão gambás, pombos, ratos, capivaras, além de diversos insetos, como baratas e o Aedes aegypti.

No livro “Darwin Comes to Town” (Darwin vem à cidade, em tradução livre), o pesquisador Menno Schilthuizen, do Centro de Biodiversidade Naturalis (Holanda) apresenta casos de alterações no comportamento de animais que passaram a viver em cidades, como de mosquitos que se tornaram ativos o ano inteiro, pássaros que passaram a ter cantos mais agudos e até peixes-gatos invasores que incluíram pombas no cardápio.

Os comportamentos nem sempre são fáceis de prever. Jared conta uma história de quando estava na Bahia com a também pesquisadora Marta Antoniazzi, sua esposa, em busca de cecílias (animais que vivem enterrados no solo, também são conhecidos como cobras-cegas e que, apesar do nome, são anfíbios) em meio a plantações de cacau.

“Os guias nos levaram para uma região onde não faziam uso de agrotóxico e que, por isso, até vendia o cacau para empresas multinacionais. Contratamos dois mateiros e ficamos por lá dez dias. Não encontramos nenhum bicho. Voltamos para a região onde tinha agrotóxico e encontramos mais de 20 num dia só! Eles estavam vivendo ali numa boa”, relata o pesquisador. 

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