Cientistas criticam possível uso de órgãos de prisioneiros em transplantes na China

Autores de estudo pedem a retratação de mais de 400 artigos científicos identificados em revisão

São Paulo

Pesquisadores pediram a retratação imediata de mais de 400 estudos científicos sobre transplante, alegando que os órgãos foram obtidos de forma antiética de prisioneiros executados na China.

Em artigo na revista BMJ Open, cientistas australianos criticaram a comunidade científica da área de transplantes por falhar em implementar padrões éticos e impedir a publicação de pesquisas que usem órgãos de prisioneiros executados.

Wendy Rogers, professora de ética clínica da Macquarie University in Sydney, e coautores destacaram uma falta de vigilância significativa e a falha em garantir padrões éticos de parte dos revisores, editores e publicadores dos estudos.

Os pesquisadores examinaram estudos publicados em revistas científicas com revisão por pares e em inglês sobre transplantes de coração, fígado e pulmão na China entre 2000 e 2017. Os 445 estudos identificados envolviam 85.477 transplantes, mas 412 (92,5%) não afirmavam se os órgãos haviam sido obtidos de prisioneiros executados, e 439 (99%) não afirmavam se os doadores haviam consentido com o transplante.

Entre os estudos que afirmavam que nenhum órgão de prisioneiros havia sido usado na pesquisa, 19 envolveram 2.688 transplantes antes de 2010, quando a China não tinha um programa de doação voluntária de órgãos.

Por outro lado, 324 estudos (73%) diziam ter recebido aprovação de uma entidade oficial.

Os autores notam que, na pesquisa de transplantes, o processo de revisão ética protege também os que recebem um órgão, não só os doadores.

A China é um dos poucos países onde o uso de órgãos de prisioneiros foi sancionado pelo governo. Em 2006, membros do governo chinês afirmaram pela primeira vez em público que a maioria dos órgãos transplantados vinha de prisioneiros executados.

Em 2007 o país baniu o comércio de órgãos, e uma lei de 2011 reforçava a necessidade do consentimento.

Segundo o artigo no BMJ, em 2015 a China anunciou que pararia de retirar órgãos de prisioneiros no corredor da morte, mas o uso continua sendo tecnicamente legal se o “consentimento” é obtido.

O estudo lembra que a comunidade internacional condena a prática, mas referenda essas pesquisas ao permitir ou facilitar a publicação delas. Os autores chamam a prática de inaceitável, recomendam uma moratória em todos os estudos relevantes e pedem que mais revisões desse tipo sejam feitas, especialmente de estudos escritos em chinês.

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