Estátua de Einstein e museu querem que Sobral não se esqueça do eclipse de 1919

Museu do Eclipse será reaberto no dia 29; há 100 anos, igrejas abriram suas portas para os temerosos

Marcel Rizzo
Sobral (CE)

A foto mais curtida nas redes sociais de Ivo Gomes (PDT), prefeito de Sobral, é a que ele está sentado ao lado de Albert Einstein. 

A estátua do famoso físico foi encomendada pela prefeitura da cidade para comemorar os cem anos do eclipse que mudou a história da ciência e que aflorou os ânimos na cidade de pouco mais de 200 mil habitantes no sertão do Ceará. 

Ainda assim, nos comentários da publicação, há quem questione Gomes, irmão de Ciro Gomes, sobre o motivo de homenagear alguém que nunca pisou em Sobral. “Por que não uma estátua de Belchior?”, perguntou um seguidor se referindo ao músico sobralense morto em 2017. 

“Estamos tentando fazer com que o eclipse e o que ele representou tenham um sentido na cabeça das pessoas, as razões, as consequências, seu impacto. Realizamos ações para popularizar o eclipse”, disse Gomes à Folha.

Estátua sobre uma pedra do físico Albert Einstein, recém-inaugurada na margem esquerda do rio Acaraú, em Sobral (CE)
Estátua sobre uma pedra do físico Albert Einstein, recém-inaugurada na margem esquerda do rio Acaraú, em Sobral (CE) - Marcel Rizzo/Folhapress

A tarefa não é fácil. Desde 29 de maio de 2018, um ano antes da comemoração do centenário, a prefeitura decretou o ano municipal da ciência em Sobral. Boa parte dos eventos era voltada à comunidade científica, mas na programação havia palestras abertas ao público para que mais pessoas pudessem se familiarizar com a complicada teoria da relatividade e o evento que colocou a cidade no mapa mundial da ciência. 

“Na educação estamos desenvolvendo um novo currículo de ciência, fazendo novos laboratórios. A ideia é fazer com que a escola se aproprie um pouco disso, que os alunos entendam o fato histórico também como parte da ciência”, disse Gomes. 

Sobral não passou cem anos à margem do eclipse e do que aconteceu naquele 29 de maio de 1919. Nos anos 1970, um monumento discreto foi instalado na praça do Patrocínio, que cem anos atrás era um descampado onde parte dos equipamentos do experimento para comprovar a teoria de Einstein foi instalado. Em 1999, na comemoração dos 80 anos do evento, o Museu do Eclipse foi inaugurado na mesma praça no centro da cidade e mais recentemente, quatro anos atrás, um planetário foi construído ao lado.

“Percebi um interesse maior no museu no último ano, principalmente dos moradores de Sobral. Nossos visitantes em geral são estudantes em excursões de colégios”, disse o físico e professor Emerson Ferreira de Almeida, diretor técnico científico do museu e do planetário.

Para os cem anos do eclipse o museu passou por uma reforma. A intenção é que a reinauguração seja exatamente em 29 de maio, quando alguns eventos ocorrerão na cidade, como a Ópera Mundial da Ciência, organizada por grupos ligados à ciência e à música pelo mundo. Os atos ocorrerão em quatro países simultaneamente, incluindo a a Ilha do Príncipe, na África, outro ponto do planeta usado para a experiência em 1919. 

Sobral tinha cerca de 10 mil habitantes em 1919. Foi escolhida para ser parte do experimento porque fazia parte de uma região com boa visibilidade do céu e porque tinha uma infraestrutura melhor do que outras cidades da região Nordeste e Norte devido à linha férrea que ligava a cidade ao porto de Camocim, no litoral cearense. 

O eclipse assustou a população e as igrejas abriram as portas na manhã de 29 de maio para receber aqueles que temiam o pior. Os corajosos foram orientados a quebrar vidros escuros de garrafas para tentar olhar para o sol com mais segurança, segundo relatos de textos da época, de imprensa ou dos estudiosos que estão no Museu do Eclipse.

Hoje, Sobral é a quinta maior cidade do Ceará, e as histórias do eclipse se perderam com os mais velhos que foram morrendo. Por isso, causa estranheza a estátua de Albert Einstein no meio de um dos centros de convivência mais frequentados do município, conhecido como margem esquerda do rio Acaraú. A decisão de colocar a estátua ali, e não na praça do Patrocínio ao lado do museu, ocorreu na tentativa de espalhar a história pela cidade.

Quem chega ao local, uma espécie de praça à beira do rio, se depara com a biblioteca municipal e com o Museu Madi, de arte moderna. É preciso virar a esquerda e andar uns 200 metros para encontrar Einstein.

A estátua, moldada em argila e fundida em bronze, pesa 130 kg e é do mesmo material utilizado na do poeta Carlos Drummond de Andrade, na praia de Copacabana, no Rio. O físico está acomodado sentado em uma pedra, com o rio ao fundo. O modelo usado foi uma das mais famosas fotos de Einstein, tirada em Long Island, nos EUA em 1939.

Em uma manhã de uma sexta-feira do início de maio, o casal Francisco e Janice Oliveira começou a rir quando desceu da bicicleta para subir uma escada próxima à estátua. “O olhar dele parece que te segue”, disse Francisco, que não sabia de quem era a estátua. “Nunca ouvi falar do eclipse”, admitiu o morador de Sobral de 59 anos ao ouvir a história.

Da mesma forma, pescadores tentavam a sorte próximo a Einstein, mas ignoravam sua presença. Naquela manhã o físico ficou só e ninguém sentou a seu lado para tirar uma selfie —há espaço na pedra para uma pessoa se posicionar ao lado da estátua. A alguns metros, dois guardas municipais faziam a segurança do monumento, já que casos de vandalismo em estátuas de bronze são, infelizmente, comuns no Brasil.

Aos poucos a estátua começa a ficar conhecida. Uma busca rápida nas redes sociais e se acha várias fotos de moradores e turistas abraçando Einstein. E aos que reclamaram sobre Belchior o prefeito avisou que já encomendou também uma estátua do músico. Só não se sabe se ele será vizinho do físico.

 
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