Antes de chegar à Lua, mulheres precisam romper preconceito na Terra

O programa Apollo foi feito por homens para homens, mas a Nasa pode aprender com seus fracassos para enviar mulheres ao espaço

Mary Robinette Kowal
Nova York | The New York Times

Enquanto celebramos o 50º aniversário da alunissagem da missão Apollo 11, a Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (Nasa) dos Estados Unidos dá início do programa Artemis, cujo objetivo é "levar astronautas à Lua até 2024, com a primeira visita de uma mulher e o retorno dos homens".

Embora os astronautas dos dois gêneros tenham desafio enormes pela frente, a mulher enfrentará obstáculos adicionais, simplesmente porque tudo na exploração espacial carrega o legado do projeto Apollo, criado por homens para homens.

Talvez não deliberadamente para homens, mas as mulheres só foram admitidas no programa de astronautas da Nasa no final dos anos 1970; a primeira mulher americana a voar ao espaço foi Sally Ride, em 1983.

Até ali, o programa espacial havia sido construído em torno de corpos masculinos.

Se não reconhecermos a parcialidade de gêneros no começo do programa espacial, torna-se difícil deixá-la no passado. Uma das coisas mais atraentes com relação à Nasa é sua abordagem voltada para o futuro. Na cultura da organização, o fracasso não é punido; suas lições são vistas como valiosas para a salvação de vidas e recursos no futuro. Como disse Borbak Ferdowsi, engenheiro de sistemas no Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, "nossos melhores erros são aqueles com os quais podemos aprender".

Quais são as lições a extrair do fracasso da Nasa em levar mulheres ao espaço na era da Apollo?

A mais recente delas emergiu em abril, quando a Nasa tinha marcado uma caminhada espacial na estação internacional que seria realizada por duas astronautas mulheres. A agência teve de alterar a missão porque só dispunha de um traje espacial do tamanho certo para as duas mulheres.

Isso não representa uma crítica à Nasa de 2019. Mas demonstra uma cadeia que começa com o programa Apollo e conduz às opções atuais de contratação de pessoal.

 

Os trajes espaciais, conhecidos como unidades de mobilidade extraveicular, foram projetados mais de 40 anos atrás, com base em designs da era da Apollo, em um momento em que todos os astronautas eram homens. Apenas quatro dos 18 trajes originais ainda podem ser usados em missões fora da nave, e os quatro estão na estação espacial.

A Nasa inicialmente planejava produzir os trajes no tamanho PP, pequeno, médio, grande e extragrande. Por motivos orçamentários, os modelos PP, pequeno e extragrande foram cancelados. No entanto, muitos dos astronautas homens não cabiam no modelo grande, de modo que o extragrande foi recriado. Mas os tamanhos menores não o foram.

Cady Coleman, astronauta que voou duas missões no ônibus espacial e viajou à estação internacional, tem 1,63 metro de altura e continua a ser a pessoa mais baixa a se qualificar para uma missão de caminhada espacial. Quando ela estava treinando no Laboratório de Flutuação Neutra da Nasa, ela teve de improvisar um forro interno para o traje espacial.

Sem o forro, uma pessoa menor teria uma bolha de ar dentro do traje e isso a faria girar dentro da piscina do laboratório, como se tivesse uma bola de praia amarrada ao estômago. No espaço, isso não seria problema, me disse Coleman. "Mas o laboratório era o lugar em que as pessoas decidiam se o candidato está apto para uma caminhada espacial", ela disse.

E quanto a queixas? Bem, ninguém havia tido aquele problema até então. Como resultado, essa parcialidade de gênero se tornou um erro cuja lição não aprendemos, porque as astronautas mulheres aprenderam a criar alternativas.

Dentro do traje espacial, os astronautas usam uma camada de roupa que propicia refrigeração líquida e ventilação. É como um macacão longo recoberto por metros de tubos. Homens e mulheres usam o mesmo estilo de roupa apesar das diferenças em seus padrões de transpiração. Homens transpiram mais do que mulheres de formas físicas semelhantes, e suas áreas de maior transpiração ficam em porções diferentes do corpo. Em outras palavras, quando o assunto são roupas de controle de temperatura, as necessidades dos homens e das mulheres são diferentes.

Já sabemos disso com relação às temperaturas dos escritórios, mas elas são estabelecidas em favor dos homens, o que força as mulheres a usar casacos no trabalho.

A Nasa costumava se vangloriar de que o ônibus espacial era um ambiente que permitia trabalhar de mangas curtas, mas se você assistir ao documentário "The Dream is Alive" produzido pelas tripulações dos ônibus espaciais em 1985 perceberá os chinelos de lã grossa nos pés de Kathryn Sullivan.

Vale a pena lembrar da década de 1950, quando parecia que mulheres poderiam ser incluídas nos estágios iniciais do programa espacial.

Naquela época, antes que os Estados Unidos tivessem a capacidade de colocar qualquer pessoa no espaço, o médico Randolph Lovelace buscou determinar como as mulheres se sairiam na condição de viajantes espaciais. Ele havia criado os testes médicos para os astronautas do projeto Mercury, e submeteu 19 mulheres à primeira rodada da avaliação, mais tarde. Delas, 13 foram aprovadas. Na verdade, ao testar as primeiras "trainees como damas astronautas", Lovelace descobriu que mulheres talvez fossem mais adaptáveis que os homens às viagens espaciais.

Por serem menores, o peso total de carga seria menor. Elas têm saúde cardiovascular melhor e consomem menos oxigênio. E toleram forças gravitacionais mais altas, além de terem superado os homens em testes de isolamento e estresse. (Uma das participantes tinha oito filhos, e é fácil imaginá-la contemplando os testes e tentando determinar quando é que as coisas ficariam mesmo difíceis.)

A despeito disso tudo, os testes foram interrompidos. O grupo de mulheres, que viria a ser conhecido como Mercury 13, mais tarde recorreu ao Congresso para tentar reverter a decisão, mas àquela altura os Estados Unidos já estavam envolvidos na corrida lunar. Colocar uma mulher no espaço era visto como distração, em parte porque a União Soviética já havia enviado a primeira mulher ao espaço, Valentina Tereshkova, e a missão havia sido desdenhada como um simples golpe de publicidade.

Como escreveu um astronauta da Nasa em resposta à carta de uma menina interessada em se tornar astronauta, "não temos planos atuais de empregar mulheres em voos espaciais, por conta do grau de treinamento científico e de voo, e das características físicas requeridas".

Para o projeto Mercury, os astronautas precisavam de um mínimo de 1,5 mil horas de voo, e qualificação como pilotos de provas. O critério bastava para eliminar as mulheres pilotos, porque as únicas escolas que qualificavam pilotos de provas eram as das forças armadas, e na época elas não admitiam mulheres.

O fato é que durante a Segunda Guerra Mundial, a Women Airforce Service Pilots respondia pelo treinamento de mulheres como pilotos e pela pilotagem de aviões de reboque de alvos, bem como pela entrega e teste de aviões às unidades ativas. Em muitos casos, essas mulheres registravam mais horas de voo que seus colegas homens. Mas não tinham certificados de escolas para pilotos de provas.

Kari Love, ex-projetista de trajes espaciais, certa vez me disse que "embora possamos contemplar o passado e compreender por que as mulheres eram vistas como supérfluas pelo setor aeroespacial, até então, corremos o sério de que a situação se reproduza quando ingressarmos na era do voos espaciais comerciais".

Sem planejamento racional, o projeto da espaçonave e da plataforma lunar para as missões Artemis reproduzirá decisões de design tomadas na era Apollo, quando os astronautas eram todos homens.

O intervalo entre os degraus de uma escada é estabelecido pela distância ideal para um homem médio. As furadeiras elétricas têm cabos dimensionados para mãos masculinas. A distância entre os assentos e os painéis de controle da Dragon Crew, da SpaceX, está sendo testada e otimizada para uma tripulação integralmente masculina.

E há as questões que não podemos responder simplesmente por falta de dados suficientes. De 1961, quando Yuri Gagarin se tornou o primeiro homem no espaço, para cá, mais de 500 pessoas foram ao espaço, apenas 64 das quais mulheres. Sabemos que os astronautas recebem mais radiação no espaço. Estudos conduzidos na Terra mostram que a radiação pode afetar mulheres em ritmo até 10 vezes mais intenso que aos homens. Como isso funcionaria no espaço?

Ao considerarmos o programa Apollo e o futuro programa Artemis, é importante examinar as parcialidades de gênero do primeiro programa espacial e determinar as lições aprendidas. Se queremos levar a primeira mulher à Lua, temos de garantir que ela tenha ferramentas projetadas levando-a em consideração. Eliminar o legado da parcialidade de gênero é só um pequeno passo.

Mary Robinette Kowal, ganhadora do prêmio Hugo de ficção científica, é autora da série "The Glamourist Histories", "Ghost Talkers" e de "Lady Astronaut". Seus trabalhos já foram publicados nas revistas Uncanny, Cosmos e Asimov’s.

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