Descrição de chapéu Homem na Lua, 50

Por necessidade e acaso, ida à Lua forçou avanço da fotografia

Câmeras Hasselblad foram criadas para a missão; 12 delas foram deixadas em solo lunar

Otavio Valle
São Paulo

Uma das pautas da agenda terraplanista é que a corrida espacial faz parte de um grande enredo conspiratório. A chegada do homem à Lua, ocorrida há 50 anos, não passaria de pura armação. Mais uma peça do conluio que pretende provar que a Terra é esférica. 

Loucura ou não, pesquisa realizada pelo Datafolha revelou que 7% dos brasileiros acreditam que a Terra é plana como um disco de pizza e que 26% não creem que os astronautas norte-americanos Buzz Aldrin e Neil Armstrong tenham um dia pisado em solo lunar. 

No bojo dos argumentos daqueles contrários à corrida espacial estaria uma reivindicação de que as fotografias divulgadas pela Nasa foram simplesmente manipuladas. Seriam uma espécie de imagens avós das frequentes montagens que ilustram as fake news repassadas em redes sociais.

 

A verdade é que a qualidade das imagens tomadas pelos astronautas que conduziram a Apollo 11 é surpreendente. Tanto as fotografias feitas por Buzz e Armstrong, que pisaram na Lua, como as imagens de Michael Collins, que permaneceu no espaço, dentro do módulo de comando, são de grande definição e acuracidade. Isso só foi possível graças ao equipamentos de primeira linha utilizados: as câmeras desenvolvidas em parceria com a fábrica sueca Hasselblad —munidas de lentes Carl Zeiss— e as películas criadas especialmente pela Kodak. 

A corrida espacial também teve envolveu a disputa para obter o melhor da fotografia analógica. Câmeras, lentes e filmes foram desenvolvidos não apenas para aguentar as condições extremas de frio e calor previstas, mas também como instrumentos eficientes para superar obstáculos ópticos e de manuseio na ausência de forças gravitacionais. Ao mesmo tempo, não havia na década de 1960 uma tecnologia que permitisse a manipulação de imagens, tão corriqueira hoje em dia, quando é possível produzir o envelhecimento de uma pessoa, numa fotografia, com apenas alguns cliques no aparelho celular. 

Cinquenta anos atrás, a manipulação de imagens captadas numa estrutura física, como o negativo, era rudimentar. Pode-se verificar isso facilmente assistindo às grandes produções hollywoodianas do período.

Nem os orçamentos gigantescos para o desenvolvimento de efeitos especiais podiam garantir a realidade captada através das câmeras Hasselblad pilotadas por Aldrin, Armstrong e Collins.

É curioso lembrar que no início da corrida espacial as fotos eram preocupação secundária da Nasa. Ocupada com o desenvolvimento das missões, a agência deixou em algum momento do processo que o astronauta Walter Schirra indicasse o equipamento a ser utilizado por ele durante a missão Mercury-Atlas 8, quando Schirra ficaria em órbita da Terra. 

Foi dessa maneira, completamente fortuita, que a Hasselblad entrou na corrida das missões lunares. Walter Schirra, que era um fotógrafo entusiasta, recebeu indicações de alguns amigos fotógrafos das revistas Time e a National Geographic para utilizar a câmera sueca Hasselblad 500C. Ele comprou um modelo numa loja de Houston, que custou em torno de US$ 500. A qualidade do equipamento atraiu os técnicos da agência espacial, que compraram mais um exemplar e realizaram as adaptações necessárias para a câmera participar da missão espacial em outubro de 1962. Tão logo divulgadas, as imagens chamaram a atenção da própria Hasselblad, que passou a cooperar com Nasa e desenvolveu as máquinas utilizadas nas missões Apollo. 

Astronaura Neil Armstrong usa traje com câmera presa na altura do peito durante treinamento para a missão Apollo 11
Astronaura Neil Armstrong usa traje com câmera presa na altura do peito durante treinamento para a missão Apollo 11 - Nasa/Reuters

Para registrar o primeiros passos do homem na Lua, no dia 20 de julho de 1969, foram utilizadas duas câmeras. Uma delas era Hasselblad Data (HDC), equipada com uma lente grande-angular Zeiss Biogon 60mm/5,6. O filme desenvolvido especialmente pela Kodak trazia uma película ultrafina que permitiu um cartucho com 200 cliques ao contrário das habituais magazines de 12 chapas vendidas comercialmente. 

Também foi para a Lua a Hasselblad Electric (HEC), equipada com uma lente Zeiss Planar 80mm/2,8, usada para registrar o pouso de dentro do módulo lunar. Segundo a fabricante sueca, a câmera HDC foi projetada para suportar as condições extremas da superfície do satélite. Recebeu pintura na cor prata para enfrentar as temperaturas acima de 120°C ao sol e até -65°C na sombra. As câmeras tiveram o obturador e outros controles adaptados para facilitar o manuseio usando as grossas luvas de proteção do traje lunar. Os astronautas receberam instruções de como configurar as exposições para uma variedade de cenários e aprenderam como mirar a câmera no nível do peito, onde ela estava presa ao traje espacial. Para isso, a Hasselblad Data (HDC) ainda tinha um visor diferente do convencional. 

Na grande parte das imagens da missão, apenas Buzz Aldrin é fotografado. Como Neil Armstrong é quem estava com a câmera, ele quase não teve registros. Já pensou ir à Lua e não ter uma foto sua sequer para mostrar aos amigos? Impensável nestes tempos de selfie. Felizmente, Buzz pegou a câmera rapidamente e garantiu um registro do colega Armstrong. O comandante também aparece no reflexo da viseira do capacete de Buzz, em uma das mais icônicas imagens da missão.

Após o uso, as câmeras foram içadas ao módulo lunar e os cartuchos, retirados. Elas jamais voltariam à Terra. Para otimizar o espaço no módulo lunar, que receberia quilos de pedras e minerais do satélite, as Hasselblad foram deixadas na Lua junto do resto de material utilizado nas pesquisas, tornando-se parte do lixo espacial. Da missão Apollo 11 até a última do programa, a Apollo 17, foram deixadas 12 câmeras em solo lunar. 

Em 2014, um leilão em Viena anunciou uma câmera que teria sido utilizada na missão Apollo 15, em 1971—há controvérsias se ela é legítima e se foi mesmo ao espaço. Mas o que sabemos é que há 12 Hasselblads na Lua.

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