Retrato falado de primo extinto do ser humano é feito a partir de modificações do DNA

Denisovanos têm se revelado importantes para entender o surgimento da humanidade moderna na Era do Gelo

Reinaldo José Lopes
São Carlos (SP)

Para ter um vislumbre da aparência dos mais misteriosos primos extintos do ser humano, os denisovanos, cientistas israelenses montaram uma espécie de retrato falado com base em sutis modificações do DNA.

O resultado do esforço é um rosto de ar decididamente “primitivo”, que lembra um pouco os neandertais, mas também tem uma série de características próprias. Para uma espécie que até hoje é conhecida apenas com base em cacos fósseis — pedaços de um dedo, dentes e uma mandíbula —, trata-se de um avanço importante, que pode ajudar os cientistas a identificar outros exemplares de denisovanos no futuro.

Embora sejam bem menos conhecidos que os neandertais da Europa e do Oriente Médio, os denisovanos têm se revelado tão importantes quanto eles para entender o surgimento da humanidade moderna na Era do Gelo. A linhagem que desembocou neles se separou da que deu origem à nossa há cerca de meio milhão de anos, divergindo, logo depois, da que originou os neandertais.

Retrato de uma jovem denisovana baseada em perfil reconstruído com sutis modificações do DNA
Retrato de uma jovem denisovana baseada em perfil reconstruído com sutis modificações do DNA - Maayan Harel

Seguindo no rumo leste, os denisovanos parecem ter ocupado regiões amplas da Ásia, como a Sibéria – é nessa região que fica a caverna de Denisova, de onde vieram os poucos fósseis que emprestaram seu nome à espécie.

Com o advento recente das técnicas de obtenção e “leitura” de DNA antigo, geneticistas e paleoantropólogos uniram forças para tentar decifrar o genoma dos denisovanos, extraído dos ossinhos da caverna siberiana.

Isso levou, por exemplo, à revelação de que a espécie misteriosa e os primeiros humanos modernos que chegaram à Ásia devem ter tido um breve “namoro”. As marcas do acasalamento entre as espécies estão no DNA de grupos como os aborígines australianos, os melanésios, os polinésios, os indígenas das Américas e certos grupos asiáticos, cujo genoma pode ter até 6% de contribuição denisovana.

Apesar desse fato surpreendente, e da leitura de boa parte do genoma da espécie, ainda não era possível usar esses dados para dar uma cara aos denisovanos. O grande problema é que a grande maioria das diferenças de DNA entre nós e eles correspondem a regiões do genoma cuja função é incerta – ou que talvez não tenham função alguma.

É aí que entra o novo trabalho, liderado por Liran Carmel, da Universidade Hebraica de Jerusalém. Eles descobriram como identificar, no DNA antigo, pequenas alterações químicas que estão associadas à maneira como certas regiões do genoma são “ligadas” ou “desligadas”.

​Esse tipo de mudança é conhecida como metilação (porque, nesses casos, acopla-se ao DNA o grupo químico metil, formado por um átomo de carbono e três de hidrogênio). Em geral, funciona como um carimbo de “favor não usar”: a célula deixa de levar em conta a informação contida nos trechos de DNA que sofreram metilação.

 

Acontece que isso acaba tendo impacto nas características do organismo, especialmente quando a metilação ocorre em locais do genoma que controlam a função de um ou mais genes — como os que controlam o tamanho e a forma dos ossos, digamos.

Carmel e seus colegas mapearam esses padrões de metilação nos genomas de denisovanos, neandertais, humanos modernos e chimpanzés. Depois, cruzaram esses dados com informações sobre trechos do genoma das pessoas de hoje que sabidamente interferem no desenvolvimento dos ossos. E, para checar se essas informações realmente eram úteis, tentaram inferir como seria o esqueleto de espécies bem conhecidas – neandertais e chimpanzés – com base nos padrões de metilação.

Deu certo: o processo conseguia prever as características gerais do esqueleto das duas espécies com cerca de 85% de precisão, o que significava que valia a pena tentar o procedimento com os dados dos denisovanos.

O resultado é a reconstrução proposta por eles. Os denisovanos do retrato falado genômico possuem rostos alongados e uma pelve larga, tal como os neandertais. Por outro lado, alguns dos traços são exclusivos da espécie, como uma arcada dentária de dimensões maiores e um crânio bem largo, cujos laterais parecem ter se expandido.

A estimativa parece estar bem calibrada porque, na verdade, os dados sobre a única mandíbula denisovana descoberta até hoje só vieram a público quando o estudo dos israelenses já estava pronto – e eles batem, em larga medida, com a proposta deles. E alguns crânios misteriosos da China, com cerca de 100 mil anos de idade, também correspondem com bastante precisão ao retrato falado, o que pode significar que são mesmo de denisovanos.

“Nosso trabalho mostra que, no futuro, poderia até ser possível usar a técnica para estudar diferenças morfológicas entre os sexos no caso de parentes extintos do homem”, disse Carmel à Folha. “Mas, para isso, vamos precisar de mais amostras de ambos os sexos.”

O estudo está na revista científica Cell.

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