Traduzir tragédia do Museu Nacional em beleza é desafio para fotógrafo

Conhecido por retratar o patrimônio histórico, Cristiano Mascaro fez ensaio dos escombros

Sala de exposições temporárias, no primeiro pavimento do Museu Histórico Nacional

Sala de exposições temporárias, no primeiro pavimento do Museu Histórico Nacional Cristiano Mascaro/Folhapress

Otavio Valle
São Paulo

Explorar a tênue linha onde se misturam tragédia e beleza foi o maior desafio imposto ao fotógrafo Cristiano Mascaro, 74, convidado pela Folha para registrar os escombros do Museu Nacional, no Rio, que há um ano foi consumido por um incêndio. Boa parte de suas instalações foi destruída, assim como a coleção que a instituição abrigava, de valor histórico e científico inestimável.

Dono de extensa obra, na qual registrou sistematicamente o patrimônio histórico nacional durante décadas, Mascaro desta vez usou sua câmera captar a destruição. “Foi estarrecedor ver a situação em que o museu está.”

“Raramente tenho a oportunidade de realizar um trabalho assim. Esse tipo de narrativa, que é comum ao fotojornalismo, é importante porque não podemos perder a dimensão desses desastres”, explica o fotógrafo, que começou a carreira no jornalismo.

Em 1968, ele fez parte da primeira equipe da revista Veja. “O fotojornalismo atua muito dentro desse antagonismo entre beleza e a tragédia. Mas o belo é muito amplo, e há beleza até na tragédia”, diz. 

Para o novo ensaio, feito em agosto, Mascaro teve acesso a algumas das áreas destruídas do Museu Nacional. “Há uma sensação de perda do que é irrecuperável. Senti muito pelo trabalho das pessoas que atuam lá. O prédio até pode ser reconstruído, mas a perda do conteúdo é o mais grave.” A expectativa é que o museu reabra ao público em 2022.

“O desafio da fotografia é enfrentar a realidade. Com a ela é possível levar às pessoas a dimensão da tragédia.”

Extrair a beleza de motivos trágicos, porém, nunca foi a praia de Mascaro, paulista de Catanduva e arquiteto de formação. Em 1974, após deixar a redação da Veja, o artista trouxe ao público a exposição “Paisagens Urbanas”, que definiu a alma de sua obra, que passou a ser uma referência da fotografia como ferramenta na discussão da utilização do espaço urbano. 

Durante as décadas seguintes, lançou mão do instantâneo para questionar a inserção dos personagens das cidades em suas paisagens. A obra do fotógrafo não trata apenas do registro do universo arquitetônico, mas como os habitantes dos ambientes urbanos se inserem nessa realidade. 

Depois de ganhar renome com suas paisagens urbanas, Mascaro passou a se dedicar a grandes projetos envolvendo patrimônio histórico. Em 2001, o artista fez a documentação de 28 centros históricos de cidades brasileiras para o Programa Monumenta, do Ministério da Cultura. Para o livro “Patrimônio Construído”, de 2002, o artista registrou 110 imóveis tombados do patrimônio histórico nacional, inclusive o museu carioca. 

O novo ensaio fez o fotógrafo recordar de uma situação análoga vivida quase duas décadas atrás: “Fui a Goiás, na cidade de Pirenópolis, registrar a igreja matriz de Nossa Senhora do Rosário. Dias depois de deixar a cidade, a igreja foi tomada e destruída por um incêndio”. 

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