Sapo-bode de SP é extremamente fiel às suas duas 'esposas', revela estudo

É o primeiro caso registrado de uma espécie de anfíbio a adotar esse tipo de arranjo marital; bicho também protege os ovos e os girinos

São Carlos (SP)

Os machos de sapo-bode (Thoropa taophora), moradores da mata atlântica do litoral paulista, são pais dedicados, protetores e extremamente fiéis… às suas duas “esposas”.

A estranha vida familiar do bicho acaba de ser descrita em artigo na revista especializada Science Advances por pesquisadores do Brasil e dos EUA. Trata-se do primeiro caso registrado de uma espécie de anfíbio a adotar esse tipo de arranjo marital, no qual um macho e duas fêmeas permanecem unidos por longos períodos, em geral sem acasalar com outros animais.

Ilustração do sapo-bode e suas duas esposas
Ilustração Luciano Veronezi

Para demonstrar que cada macho de fato tinha uma “relação estável” com suas duas parceiras, os pesquisadores recorreram a testes de paternidade dos girinos, não muito diferentes das análises de DNA que se popularizaram em programas de TV sensacionalistas.

E, de fato, verificaram que os filhotes costumam se desenvolver junto com seus meio-irmãos. Em média, 85% dos girinos são filhos da “esposa dominante”, enquanto os demais 15% foram gerados pelo macho com a “esposa secundária”. Em alguns casos, há ainda uma terceira fêmea que fica rodeando o trio e também pode acabar acasalando com o macho, mas o mais comum é que ela seja, na verdade, uma ladra de ovos, na qual o dono do ninho precisa ficar de olho para proteger sua prole, já que o comportamento canibal é relativamente comum na espécie.

O estilo de vida peculiar do T. taophora provavelmente explica seus hábitos pouco ortodoxos de acasalamento. A espécie é saxícola, ou seja, habita exclusivamente afloramentos de pedra úmida no meio da floresta, alguns dos quais bem perto de praias em municípios como Ubatuba e São Sebastião, onde o novo estudo foi feito.

Nessas rochas, onde volta e meia há pequenas “minas” d’água, os bichos botam seus ovos e tomam conta de seus filhotes. “Os girinos são semiterrestres. Como nesses ambientes só existe uma fina lâmina d’água, eles nem chegar a ficar mergulhados nela”, conta Fábio Perin de Sá, pesquisador da Unicamp que é o primeiro autor da pesquisa, realizada durante seu doutorado na Unesp de Rio Claro.

Ao disputar os espaços adequados da rocha para depositar os ovos e criar os girinos, e também para defender a prole de ataques canibais, os membros da espécie teriam desenvolvido o sistema de parcerias fiéis, segundo a hipótese dos pesquisadores. O processo tem diversos paralelos com outras espécies que também favorecem os relacionamentos de longo prazo e nas quais ambos os sexos investem no chamado cuidado parental (ou seja, a proteção aos filhotes). Acredita-se que algo similar tenha impulsionado a alta frequência da monogamia entre humanos, por exemplo (exemplo relativamente raro entre mamíferos de pais que também contribuem para os cuidados com a cria).

Além de proteger os ovos e os girinos, os machos “bígamos” volta e meia também precisam se atracar com competidores do mesmo sexo. Se necessário, saltam sobre eles, dão-lhes chutes ou os agarram para atacá-los com espinhos presentes nos dedos equivalentes ao polegar humano.

Como o habitat dos animais no litoral paulista tem umidade e calor suficiente para permitir sua reprodução praticamente o ano todo, os pesquisadores não conseguiram verificar se a fidelidade do trio “casado” dura a vida inteira (até porque não há certeza sobre a duração da vida dos bichos). “O que podemos afirmar é que esse período estendido de fidelidade dura pelo menos dez meses”, diz Sá.

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