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Curso de férias melhora, em dez dias, habilidades matemáticas de alunos

Estudantes do 5º ano do ensino fundamental de escolas públicas de Cotia evoluiram o equivalente a 1,3 ano de escolaridade na disciplina

São Paulo

Alunos do 5º ano do ensino fundamental de escolas públicas que participaram de um curso de férias de matemática realizaram a façanha de, em dez dias, evoluir em média o equivalente a 1,3 ano de escolaridade na disciplina.

O projeto aconteceu em janeiro deste ano, e a análise dos resultados só recentemente foi divulgada pelos realizadores do curso, do Instituto Sidarta, com apoio do Itaú Social, e suporte de pesquisadores da Universidade de Stanford, onde foi desenvolvida a abordagem utilizada, batizada de Mentalidades Matemáticas.

A ideia era que os estudantes transformassem sua relação com a matemática, por meio de atividades mais visuais, desmistificação do erro no processo e construção colaborativa do conhecimento.

Em um experimento parecido conduzido em 2015 na Califórnia (EUA) com alunos do 6º e 7º ano ao longo de 18 dias, houve o equivalente a 2,7 anos de avanço na escolaridade regular em matemática. A abordagem também já foi testada em outros estados dos Estados Unidos e na Escócia.

Tanto no caso americano quanto no brasileiro, o desempenho foi avaliado pelo Mars (Mathematics Assessment Resource Service), uma avaliação padronizada de matemática.

A versão brasileira do curso de férias contou com estudantes de duas instituições da rede municipal de Cotia, a Escola Municipal Prefeito Ivo Mario Isaac Pires e o Centro Educacional Unificado de Cotia. A média de resultados dos estudantes locais subiu de 6,8 para 8,4 (de um total de 33 pontos possíveis).

Nas questões, os alunos tinham que, além de dar a resposta, demonstrar o raciocínio desenvolvido. Para evitar vieses, a correção foi feita por professores que não participaram do curso de férias.

Nessa avaliação, as meninas foram ainda melhor que os meninos, com uma uma nota média 2,55 pontos maior.

Uma dessas alunas é Jakeline dos Santos, de 11 anos. “Eu não ia muito bem em matemática, não conhecia muitas formas de resolver os exercícios. Hoje eu gosto muito de português e matemática; antes era só de português.”

A aluna diz ainda que agora cogita, no futuro, seguir em uma profissão na qual a matemática seja importante.

Há hipóteses para explicar a superioridade do desempenho feminino na avaliação.

Segundo Jack Dieckmann, pesquisador de Stanford que coordenou o trabalho no Brasil, uma possibilidade é que, como o currículo ensinado envolvia altos níveis de colaboração e comunicação, ele oferecia condições para que as meninas participassem mais ativamente.

“Quando pesquisadores perguntam a meninas sobre suas experiências e desejo de continuar a estudar matemática na universidade, muitas tendem a preferir outras áreas que façam sentido para elas, nas quais as ideias estejam mais conectadas do que geralmente se apresentam na matemática. E isso é verdade mesmo para aquelas com alto desempenho em matemática”, afirma o pesquisador.

“Por outro lado, quando a mesma questão é feita para meninos, eles parecem ter uma tolerância maior para instruções desconectadas de memorização mais mecânica.”

“Depois do curso ela perdeu um pouco do medo. A primeira coisa que ela chegou falando em casa é que tinha descoberto que errar faz parte do processo. E aí passou a melhorar”, conta Natália Gonzaga, mãe de Jakeline.

Por causa da pandemia, Jakeline e os demais estudantes tiveram poucas chances de botar em prática os aprendizados. “Ela não conseguiu nem fazer uma prova”, conta a mãe.

A professora Indira Vânia da Silva, 43, foi uma das instrutoras do curso em Cotia. Para ela, a imersão na abordagem Mentalidades Matemáticas foi uma chance de quebrar estigmas.

“Na minha época, as crianças eram rotuladas por não saberem matemática. Eu mesma tinha muitos traumas. Quanto mais pudermos tirar esse ranço da matemática, menos essas crianças vão sofrer.”

Segundo ela, a iniciativa tem uma espécie de poder transformador. “Ela atende a todos, potencializa os saberes dos alunos, os agrega e os conecta. Como as atividades têm ‘piso baixo’ e ‘teto alto’, elas servem tanto para crianças com dificuldades quanto para aquelas que têm altas habilidades.”

“É preciso que os professores tenham experiências profundas com uma matemática que é conectada, criativa e visual”, afirma Dieckmann.

“Nós temos exemplos de modelos efetivos de desenvolvimento de professores que mostram que, quando eles têm um equilíbrio entre teoria e aplicação e um caminho para refletir e refinar a prática, eles realmente estão preparados para ensinar a matemática do século 21.”

Os resultados da pesquisa mostram ainda que os alunos avançaram não somente no conteúdo matemáticos propriamente dito, mas também nas atitudes perante a disciplina.

“A matemática deixou de gerar ansiedade e tornou-se algo desafiante que instiga a curiosidade e que desenvolve o raciocínio lógico. Esse é um resultado muito bom, pois, apesar de o curso ter durado apenas dez dias, a mudança de atitude e de desempenho dos alunos mostra que ela é aplicável e replicável para o contexto brasileiro”, afirma Ya Jen Chang, presidente do Instituto Sidarta, responsável pelo Mentalidades Matemáticas no Brasil.

Segundo Dieckmann, é preciso cultivar e direcionar a iniciativa de forma que ela faça sentido para o contexto brasileiro, e implementá-la numa amostra maior de escolas. “Nós vamos continuar no suporte dessas iniciativas, mas o trabalho mais empolgante só está começando”, diz o pesquisador de Stanford.

“O mito de que a matemática é para poucos e que é preciso ter um dom já causa impactos negativos no Brasil há gerações. A boa notícia é que hoje podemos romper com essas crenças, que vêm causando prejuízos imensuráveis para o desenvolvimento de nosso país”, diz Chang.

“Que tal fazermos as pazes com a matemática e pararmos de nos justificar com ‘sou de humanas, não de exatas’? Somos todos seres matemáticos”, conclui.

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