Anna Virginia Balloussier

Repórter especial, escreve sobre religião, política, eleições e direitos humanos. Autora dos livros "O Púlpito" e "Talvez Ela não Precise de Mim"

Salvar artigos

Recurso exclusivo para assinantes

assine ou faça login

Anna Virginia Balloussier

A estratégia de Trump: convencê-lo de que o louco é você

Crédito: Alex Brandon - 28.jan.2016/Associated Press
Donald Trump fala ao telefone em seu gabinete na Casa Branca

Não, você não está louco. Ainda que Donald Trump queira convencê-lo do contrário.

Na Trumplândia, onde jornalistas são "os humanos mais desonestos da Terra", pouco adianta mostrar vídeos do novo presidente dos EUA afirmando isto ou aquilo. "Errado! Notícias falsas! Triste!", eis sua trinca favorita para rebater a informação que o desagrada.

Em 2016, o dicionário Oxford elegeu "pós-verdade" como a palavra do ano. Agora é o termo "gas lighting" que ganha força para tipificar um fenômeno paralelo na era Trump.

O nome vem da peça britânica "Gas Light" (1938), depois adaptada para o filme que no Brasil se chamou "À Meia Luz". Na trama, Ingrid Bergman sofre tortura psicológica do marido, que a todo momento questiona sua sanidade. Um dos artifícios: enfraquecer as lâmpadas a gás da casa e agir como se a luz bamba fosse fruto da imaginação da mulher.

"Gas lighting", portanto, virou sinônimo do abuso emocional infligido para convencer a vítima de que o problema é ela. Exemplo: numa briga, o homem afirma que a mulher "só pode estar de TPM".

Ao borrar a realidade, a versão do abusador vira o novo normal. Algo parecido ocorre no conto "A Roupa Nova do Imperador": se todos garantem ver o traje do monarca, então é claro que ele existe.

Quando diz que sempre foi "totalmente contra a guerra do Iraque" (errado!) ou que viu na TV "milhares" de muçulmanos em Nova Jersey comemorarem os ataques de 11 de Setembro (notícias falsas!), o presidente parece viver em seu próprio "mundo invertido" —uma espécie de mundo real às avessas fabulado pela série de TV "Stranger Things" (triste!).

A coisa mais estranha, contudo, não é persuadir tanta gente a acreditar em seus "fatos alternativos" —expressão que uma correligionária adotou para se referir a dados distorcidos (eufemismo para mentira deslavada) divulgados pelo time presidencial.

Ainda mais ardiloso é manipular a opinião pública, pintando-se de perseguido por uma mídia já desmoralizada após ignorar vários sinais e apostar na derrota de Trump.

A imprensa pode publicar mil vezes fotos aéreas da posse do presidente, que mostram uma plateia esburacada feito queijo suíço. Ele continuará repetindo que sua cerimônia foi incrível, a melhor, a maior de todas. Ao negar o óbvio sem qualquer tipo de contraprova, e ainda assim sair vitorioso, Trump encarna o "gaslighter-em-chefe" da nação, diz a articulista da CNN Frida Ghitis.

Ao resenhar "Poder - Uma Nova Análise Social" (1938), de Bertrand Russell, George Orwell escreveu: "Afundamos a tal nível que a reafirmação do óbvio é o primeiro dever dos homens inteligentes". Oito décadas depois, o autor de "1984" parece coisa de doido.

ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER foi correspondente da Folha em Nova York.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.