Cristovão Tezza

Ficcionista e crítico literário, autor de “O Filho Eterno” e “A Tirania do Amor”.

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Cristovão Tezza

Em busca de um narrador

Dois escritores jovens e experientes testam limites da literatura que dominam

Ilustração
Vânia Medeiros/Folhapress

Nas saborosas “Confissões de um Jovem Romancista”, escritas por Umberto Eco (ed. Record; trad. de Clóvis Marques) nos seus jovens 77 anos (mas romancista há apenas 28 anos, ressalva ele), o autor do improvável best-seller “O Nome da Rosa” diz que se considera “um acadêmico por profissão e um romancista apenas amador”.

Digo “improvável” porque o célebre romance de 1980 se tornou um dos livros mais vendidos do mundo apesar da profusão de citações em latim, da reverência acadêmica e de um certo olhar iluminista sobre a Idade Média, tudo exigindo um razoável investimento da inteligência do leitor. 

O que, pouco depois, deixaria de ser a norma, quando a literatura de massa jogou-se preferencialmente nas cordas da fantasia mística e do irracionalismo dominante.

A relação declarada de Eco entre o acadêmico (entendido como um professor de universidade, com uma carreira oficial e regular) e o ficcionista é uma combinação típica que se tornou forte dos anos 1970 em diante. 

Especialmente entre nós, ela determinou o ideário estético de prestígio, em boa parte a partir do renascimento europeu dos estudos do clássico “formalismo russo”, que revolucionou a teoria literária nas primeiras décadas do século 20. 

O próprio Eco foi um soldado fiel dos diagramas semióticos aplicados à narrativa, que à época soavam como o mapa do tesouro do sentido final da arte. 

O mesmo acontece hoje, mas em outra direção: agora, por influência da poderosa emergência das correntes político-teóricas derivadas dos chamados estudos culturais identitários, a instância acadêmica determina a faixa do ideário ideológico aceitável, que passa oficialmente a ser a régua de valor. 

Não há nada de especialmente errado nisso: desde Platão, instituições culturais costumam ser entidades conservadoras do que descobrem ou inventam, ainda que a criação artística, por natureza, viva preferencialmente em outro departamento.

Lembro que, nos anos 1970, se alguém sugerisse cursos de escrita criativa para formação de escritores, eu soltava o verbo contra o absurdo, brandindo minhas bandeiras: o orgulho da própria performance, a crença na verdade da minha voz interior, a liberdade inegociável de criação, o horror instintivo ao sistema e ao Estado —em suma, o culto do desajuste era o meu mantra. 

Felizmente era um desajuste mais de emoções do que de cabeça, imagino, ou não estaria aqui hoje: como quase todo mundo, fui me transformando com o tempo.

Lembrei desse fio da memória ao ler numa semana dois livros díspares de autores quase que obscenamente jovens para o padrão natural da literatura, uma arte de alma vetusta: ambos têm menos de 30 anos.

O primeiro é “De Espaços Abandonados”, de Luisa Geisler (ed. Alfaguara), que conta a história de uma jovem à procura da mãe bipolar, desaparecida. Aos fragmentos, acompanhamos um grupo de brasileiros e brasileiras sobrevivendo em subempregos na Irlanda contemporânea.

São flashes de uma oralidade vivíssima, compostos sob a arquitetura de um programa literário (Resolva os seus problemas de escrita!): apresentam-se 366 perguntas alegrinhas (“Você gostaria de ser famoso?”, “Você tem uma estação do ano favorita?”, “Você acredita em boatos?”), com respostas narrativas autônomas, frequentemente densas, sem relação visível com as questões. 

O segundo é “Identidades”, de Felipe Franco Munhoz (ed. Nós), uma recriação singular do mito de Fausto que se estrutura como uma peça de teatro, fundamentalmente poética (mas sem traços de “prosa poética”, o que teria sido letal), com um notável rigor formal que, precioso, abrange um grande leque de registros da escrita, de notas de rodapé a pautas musicais, e uma pletora de referências tanto da alta literatura como da cultura de massa.

O que há neles em comum? Parece uma pergunta do livro de Luisa Geisler, que tento responder: são dois escritores experientes testando os limites da literatura que dominam; ambos são cabeças temática, linguística e formalmente globalizadas; não vivem mais sob a memória dos anos 1970, que marcou a geração anterior; os cacoetes pós-modernos ainda pesam, mas já soam como resíduos digitais, sob uma inquietação emocional nova e estranha, que é levada a sério; finalmente, não há um “narrador”, mas o leitor pressente que, nos dois casos, a linguagem está à procura dele e de algum centro de valor, este eixo intencionalmente não relativo que, por instinto, faz a literatura.

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