Cristovão Tezza

Ficcionista e crítico literário, autor de “O Filho Eterno” e “A Tirania do Amor”.

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Cristovão Tezza

Dois contistas brasileiros

Ótimos livros quebram qualquer preconceito eventual que se tenha contra o gênero

Ilustração
Vânia Medeiros/Folhapress

Sinto inveja dos contistas. Para mim, é mais fácil escrever um romance de 200 páginas que um conto de duas. Só consegui me tornar contista quando inventei uma personagem fixa, o que me poupa o sofrimento de criar um novo ser a cada conto, que será abandonado para sempre na história seguinte.

Já se tentou explicar em fórmulas narrativas a diferença entre um conto, uma novela e um romance, mas o leitor, que não precisa de teoria, sabe exatamente o que é uma coisa ou outra assim que começa a ler; quando termina logo, é um conto. O critério do tamanho prossegue invencível.

Para entender o gênero, criei arbitrariamente um ponto mínimo de partida, que considero o menor conto do mundo, uma síntese mortal de Dalton Trevisan (da coletânea "234", ed. Record): "Nunca me senti tão só, querida, como na tua companhia".

Temos aí dois personagens, um diálogo implícito e uma intriga tensa que parece vir de longe e não acabar com o conto. Bem, por ser um gênero curto, o conto é também, por parecer fácil, uma perigosa porta aberta em que cabe tudo de cambulhada.

O gosto é livre; mas me agrada compreender o conto como um ramo concentrado do espírito da prosa, que exige menos a proximidade poética e mais a distância do narrador, cuja voz organizadora fica no lado de fora do texto, se vocês me entendem.

Desde Machado, que colocou o gênero entre nós num patamar muito alto já no seu primeiro instante, a aparente facilidade do conto vem destroçando vocações.

Além disso, há a maldição dos editores, refletindo uma suposta indiferença dos leitores: dizem que "conto não vende". Essa é uma questão comercial, não literária. Porque acabo de ler dois ótimos livros de contos que quebram qualquer preconceito eventual que se tenha contra o gênero.

Os contos de "A Cidade Dorme", de Luiz Ruffato (Companhia das Letras), que já havia demonstrado ser um mestre da história curta no excelente "Flores Artificiais", formam uma espécie de painel do "Brasil profundo", a gigantesca classe média pobre que luta para sobreviver, espremida em todo canto do país entre os sonhos e a violência.

O traço documental, poderoso na tradição brasileira, aqui se enriquece especialmente pela força da imaginação e da linguagem.

No belo conto "As Vantagens da Morte", o irmão morto visita o irmão vivo num encontro tenso que é um retrato de família e de país.

Em toda frase, sente-se o ouvido afinado da linguagem coloquial que transborda nossa cultura pelo arcaísmo de signos singelos —"Mas eu não queria ser torneiro-mecânico, queria mesmo era ser bancário do Banco do Brasil, que nem o marido da minha professora, dona Aurora".

O atávico país rural, com o seu inesgotável atraso, e sem nenhum culto do exotismo, explode em todos os poros da cidade moderna.

Em "A Alegria", um pesadelo sem fim de um vilarejo de coronéis é narrado com a pompa do beletrismo acadêmico ("o bálsamo da escuridão sossegara o peito do detento de tosse acatarrada"), num irônico estranhamento.

As marcas da expressão popular brasileira, do futebol ao trabalho escravo, da tortura policial à música brega, dos sonhos alternativos às injeções na veia, vão se emendando no nosso impenetrável cordão de isolamento.

Já nos dez contos de "Reserva Natural", de Rodrigo Lacerda (Companhia das Letras), que se estruturam classicamente como "intrigas", na melhor herança machadiana, o mesmo Brasil se desdobra em planos individuais; e o signo forte de "reserva natural" perde seu limite geográfico para ganhar a tensão da condição humana.

O excepcional "Santuário da Lagoinha" ilustra essa guerra: a mulher grávida se vê na contingência de estender ou não a mão para salvar o marido imprevidente.

O "natural" como valor didático-ecológico choca-se nos contos com um certo biologismo naturalista, que é uma tradição subterrânea brasileira, aqui temperada pelo refinamento do humor.

A tensão do sexo adapta-se mal às contingências sociais, como se pressente numa discreta sessão de massagem em "Energia", em que se contrapõem os mundos separados de mãe e filha. E o registro científico (nos contos "Polinização", ou "Metástase") parece relembrar a cada linha os limites naturais do nosso orgulhoso sentimento de livre-arbítrio.

Como diz o narrador do conto "Sempre assim", "é tudo uma engrenagem muito maior".

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