Cristovão Tezza

Ficcionista e crítico literário, autor de “O Filho Eterno” e “A Tirania do Amor”.

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Cristovão Tezza

O espectro de Trótski

Revolucionário tornou-se ídolo de uma pletora rebelde, difusa e fragmentada

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Assisti ao seriado russo “Trótski” (Netflix), sobre o líder que teve uma participação crucial na Revolução de 1917. Em oito capítulos, a série sintetiza a vida de Leon Trótski (1879-1940), numa moldura narrativa que dá a Ramón Mercader (o assassino que, a mando de Stálin, aproximou-se dele no exílio no México para matá-lo) o peso ficcional de uma “voz da consciência”. Estimulado pela discussão imaginária entre eles, e já reduzido a uma sombra do que foi, Trótski revê seus fantasmas e nêmesis existenciais em flashbacks.

Filho de um judeu iletrado que enriqueceu como fazendeiro, ele surgiu no panorama russo como um livre atirador da abundante e explosiva esquerda revolucionária que proliferou na virada do século 20. Retórico irresistível, e maior orador da Rússia no seu tempo, quando escrever panfletos e convocar diretamente as massas tinha o poder eletrizante que lembra nossas redes de internet, Trótski só se tornou bolchevista de fato na reta de chegada do movimento liderado por Lênin.

Em seguida, comandante do Exército Vermelho, tornou-se o chefe militar implacável que conseguiu derrotar os “brancos” na brutal guerra civil que se seguiu. Quando Lênin morreu, em 1924, Trótski assomava como a mais popular liderança dos soviéticos, mas Stálin já controlava os cordões do poder. Em poucos anos, Trótski entra em desgraça e é exilado; no seu martírio político, passa pela Turquia, França, Noruega e finalmente México, quando é assassinado por Mercader.

Adaptações da vida real são recriações de risco; o realismo implícito da imagem cinematográfica é quase sempre empático, rápido e seletivo demais para permitir uma margem de reflexão enquanto nos envolvemos, mas isso está no DNA da linguagem do cinema. Eu gostei do seriado; tirante algumas figuras que me pareceram demasiado esquemáticas, e principalmente o onirismo fulgurante da conversa com Mercader (na realidade, uma figura anódina e intelectualmente medíocre), os fatos estão ali, mas em estado bruto e sintético, por assim dizer.

Ilustração de Vânia Medeiros
Ilustração de Vânia Medeiros - Vânia Medeiros/Folhapress

Para separar o joio dos fatos do trigo da ficção, mergulhei num calhamaço maravilhoso: “Trótski - uma biografia”, de Robert Service (Editora Record; tradução de Vera Ribeiro), um fino historiador britânico, também autor de uma biografia de Lênin e uma história do comunismo.

A complexa figura que emerge da obra coincide em boa medida com o retrato quase sempre frio (ou “mefistofélico”, como às vezes se dizia dele) que transparece no seriado. É surpreendente que o intelectual sofisticado e estilista de gênio (no seu tempo, diz Service, “apenas Churchill se equiparava a ele”) tenha sido também o militar que não hesitava em ordenar fuzilamentos sumários.

Dono de uma coragem pessoal que beirava a loucura, ao mesmo tempo tinha uma incrível vaidade aristocrática; era um posudo de pince-nez, sempre bem vestido em meio ao povo, que gostava de manter distância do mínimo traço de afeto. Perdia o amigo mas não o sarcasmo; polemista obsessivo, movia-se com um sentimento invencível de superioridade em meio aos grupos sectários de teóricos, brancaleones, líderes sérios e delinquentes políticos.

Por uma sequência caótica de acasos (a estupidez carola de Nicolau 2º, o massacre da Primeira Guerra, a incompetência de Kerenski, a eclosão de revoltas populares, o espírito do tempo e mais as pulsões da inefável alma russa afogada em seus demônios), súbito venceram-se as indecisões, deu-se um golpe no frágil Parlamento e tomou-se o poder, contrariando todas as teses clássicas do milenarismo marxista.
Naquele instante, o poder na mão era apenas um fio roto — e o improvável Trótski, que fazia inimigos por onde passava, teve um papel fundamental para torná-lo definitivo e consolidar a URSS.

O curioso é que o comando supremo da Revolução passou encilhado diante dele, duas ou três vezes, e ele recusou-o, já satisfeito com a grandeza ingênua de seu verbo infalível. Vendo daqui, é fácil dizer que Trótski morreu em 1940 sem entender nada; em meio à barbárie nazista de Hitler e o Terror de Stálin, ainda sonhava com uma revolução totalitária, permanente e sem fronteiras.

Morria o último herói político do século 19, tornando-se ídolo de uma pletora rebelde, difusa e fragmentada de esquerda. O “espectro” que rondava a Europa, que abre o célebre manifesto de Marx e Engels, talvez não fosse exatamente o comunismo, mas o Romantismo, esta hipnótica caixa de Pandora que formatou o mundo moderno. O que é outra longa história.

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