Cristovão Tezza

Ficcionista e crítico literário, autor de “O Filho Eterno” e “A Tirania do Amor”.

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Cristovão Tezza

John Berger e os anos 1970

O inquieto escritor inglês ilustrou o triunfo (por pontos) de Rousseau sobre Marx

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Em seus 90 anos de vida, o escritor inglês John Berger (1926-2017) sintetizou como poucos as inquietações filosóficas, existenciais, políticas e artísticas que marcaram a segunda metade do século 20, particularmente a turbulenta passagem dos anos 1960 e 1970.

Berger, um artista conhecido na Europa, é pouco lido no Brasil. Dele resenhei aqui na Folha, anos atrás, a coletânea de contos “Terra Nua” (Rocco), e já conhecia “Modos de Ver”, um conjunto de ensaios sobre pintura e olhar escritos a partir de quatro programas da BBC (“Ways of Seeing”, disponíveis no YouTube) que, em 1972, fizeram de Berger uma celebridade.

Pois passei o tranquilo Carnaval curitibano fazendo uma viagem ao passado e lendo uma boa biografia que acaba de sair, “A Writer of Our Time - The Life and Work of John Berger”, do americano Joshua Sperling, ed. Verso (em português, Um escritor do nosso tempo - a vida e a obra de John Berger).

Vânia Medeiros/Folhapress
Vânia Medeiros/Folhapress

Como lembra Sperling, Berger pagou algum preço pela dispersão de seus múltiplos interesses e talentos, e pela fusão, típica da época, entre arte e política. A polarização da Europa no fim da Segunda Guerra determinou o império do engajamento: sob a sombra da Guerra Fria, poucos escapavam do paredão ideológico. 

Berger começou pelas artes plásticas, como pintor, atividade que abandonou em pouco tempo, tornando-se um importante crítico de arte.

Nesse primeiro momento, ainda escoteiro da esquerda ortodoxa, foi um fiel soldado do “realismo social”, contra a abstração e a suposta alienação do modernismo.

Em 1956, a invasão da Hungria por forças russas, sufocando uma revolta popular (como se já não bastasse a memória do terror de Stálin) rompeu enfim a atávica dependência partidária de boa parte da esquerda. É o fim de dois mitos: o da União Soviética e o do “Povo”. 

O instinto revolucionário canaliza-se em outras direções, numa década de grande prosperidade das classes médias europeias (com reflexos no mundo inteiro), por força do capitalismo disciplinado pelas políticas de bem-estar social. 

E a ampliação do alcance de novas tecnologias (rádio, cinema, televisão) começava a mudar radicalmente os modos de representação cultural, política e artística.

“O final dos anos 1950 foi uma rampa de saída”, diz Sperling. Berger entra nos anos 1960 montado numa moto e rodando pela Europa. Clássico “pé na estrada”, fez um pouco de tudo, de visita a museus a discursos em marchas de protesto. 

O antigo crítico do modernismo agora amava Jackson Pollock e via no cubismo uma revolução do olhar semelhante à do Renascimento.

Em 1967, publicou com o fotógrafo Jean Mohr “A Fortunate Man: The Story of a Country Doctor” (algo como Um homem feliz: a história de um médico rural, inédito no Brasil), um livro que, fundindo linguagens, combina texto e fotografia ao retratar a vida de um médico de um vilarejo da Inglaterra. Pela novidade da narrativa gráfica, a obra teve ótima recepção.

É um período de parcerias: com o cineasta suíço Alain Tanner, participa do roteiro e da direção de três filmes.

Acabo de assistir a um deles, “A Salamandra”, de 1971, que é uma cápsula do tempo, uma relíquia maravilhosa.

O que aquela juventude queria? Há um espírito inconsequente e otimista de liberdade, a atração pelo gesto gratuito, o prazer da falta de sentido e o graal do sexo livre e sem culpa que se insinua no horizonte (ainda machista: os homens filosofam, e as mulheres tiram a roupa). 

Ideologicamente, Jimi Hendrix tenta se acertar com Lênin. A síntese da década estava nos grafites dos muros: “Agora tenho uma TV, uma geladeira, um fusca. Mas minha vida é uma droga. Abaixo os patrões!”.
Em 1972, publicou o romance “G” (Rocco; trad. de Roberto Grey), narrativa fragmentária de um Don Juan sem rumo, que ganhou o Booker Prize. 

Na cerimônia de entrega, Berger desancou o prêmio e a corporação Booker-McConnel que o financiava e doou a metade para os Panteras Negras. Pouco depois, refugiou-se numa pequena aldeia dos Alpes franceses, onde ficaria até o final da vida, convivendo com camponeses e entregando-se à mitologia da autenticidade rural. 

Das três saídas típicas da crise dos anos 1970 (aderir à luta política direta, o que podia incluir a trágica da luta armada; mergulhar no sentido místico da vida, em busca de transcendência espiritual; ou apenas relaxar e entrar no “sistema”), o inadaptado Berger acabou por ilustrar, no vaivém performático de uma vida inteira, o recorrente triunfo (por pontos) de Rousseau sobre Marx.

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