Laura Carvalho

Professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, autora de "Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico".

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Laura Carvalho

Água dura em pedra mole

Desaceleração global chega em meio a um quadro pouco promissor para a base da pirâmide

Diante da escalada das tensões comerciais entre Estados Unidos e China e dos impactos da reversão dos fluxos globais de capitais sobre as economias emergentes, o relatório da OCDE divulgado nesta quarta-feira (21) reduziu as expectativas de crescimento para a economia mundial de 3,7% para 3,5% em 2019.

Após a queda brusca no preço de ações de tecnologia nos mercados americanos na terça (20), analistas mais pessimistas chegaram a fazer previsões de uma nova crise global. 

Operador na Bolsa de NY, que passa por sucessivas quedas
Operador na Bolsa de NY, que passa por sucessivas quedas - Drew Angerer - 20.nov.18/Getty Images/AFP

Em artigo publicado no jornal Financial Times nesta quarta-feira, intitulado “The hidden costs of macroeconomic moderation”, Martin Sandbu alertou para uma característica importante das flutuações econômicas: enquanto períodos de aquecimento do mercado de trabalho costumam beneficiar mais os trabalhadores mais jovens e com menor grau de escolaridade, as fases de desaceleração e crise atingem desproporcionalmente esses trabalhadores, que acabam sendo demitidos primeiro e recontratados por último.

Nos dados apresentados por Sandbu para os Estados Unidos e o Reino Unido, vê-se nitidamente que a proporção de jovens no total de desempregados aumenta muito durante as recessões e volta a cair durante as fases de expansão da economia. Segundo o analista, o mesmo comportamento é observado para a proporção de trabalhadores sem diploma de ensino médio.

O custo das flutuações econômicas seria, portanto, assimétrico: “Trabalhadores jovens e mais vulneráveis sofrem muito mais com elas [as flutuações] do que um trabalhador médio”, conclui Sandbu. 

Para além dos efeitos nefastos do ponto de vista da justiça social, o analista lembra que a experiência do desemprego muito cedo pode impactar de forma permanente a produtividade desses trabalhadores, elevando os custos de longo prazo da crise para toda a economia.

No Brasil, os dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios) sugerem que, desde o quarto trimestre de 2014, o nível de desocupação —percentual de pessoas que se declaram desocupadas em relação ao total de pessoas em idade para trabalhar— aumentou mais do que a média entre os trabalhadores com ensino fundamental completo (de 4,1% para 7,7%) e entre aqueles com ensino médio incompleto (de 6,4% para 12,1% no mesmo período).

No recorte por idade, o nível de desocupação cresceu desproporcionalmente entre trabalhadores na faixa de 18 a 24 anos:  subiu de 9,5% para 17,8%, ante um aumento de 4% para 7,3% no total da população.

Quando se considera apenas o universo de trabalhadores que estão na força de trabalho —e não mais todos aqueles em idade para trabalhar—, a taxa de desocupação parece ter crescido ainda mais entre os sem instrução e os com ensino fundamental incompleto, bem como na faixa de idade entre 14 e 17 anos.

Segundo as estimativas divulgadas em setembro em um levantamento da FGV Social, dirigido por Marcelo Neri, a crise dos últimos quatro anos elevou a desigualdade de renda a uma velocidade 50% maior do que o ritmo de redução de desigualdade que observamos desde o início dos anos 2000.

Como apontou Neri, “a própria desigualdade aprofunda a recessão, já que os pobres consomem uma parcela maior da renda”. 

A desaceleração da economia mundial chega, portanto, em meio a um quadro pouco promissor para a economia doméstica e, sobretudo, para a base da pirâmide.

A ausência de propostas do governo eleito para um crescimento econômico inclusivo pode adiar ainda mais, para a maioria dos brasileiros, a restauração do padrão de vida que tinham antes da crise.


 


 


 


 


 

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