Lorena Hakak

Doutora em economia e professora da FGV. Atua como presidente da GeFam (Sociedade de Economia da Família e do Gênero)

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Descrição de chapéu Todas Chuvas no Sul

Infância comprometida para além das águas no Rio Grande do Sul

É imperativo que políticas de investimento em saúde e educação sejam priorizadas no desastre natural

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Os recentes acontecimentos no Rio Grande do Sul trouxeram à tona a devastação causada por intensas chuvas e enchentes, afetando quase todo o estado desde o final de abril. Estes desastres naturais não só deixam um rastro de destruição e desolação, mas também resultam em perdas que se acumulam de forma exponencial. Muitas vezes acontecem de supetão, sem aviso prévio, e a perda inesperada nos desorienta, nos tira do eixo, especialmente quando perdemos entes queridos.

Até o momento não temos a dimensão total das perdas, não só das vidas que se foram, mas também dos bens materiais e da infraestrutura. O volume dessas perdas é tão grande que fica difícil pensar por onde recomeçar. Além disso, quais são as consequências de um evento dessa magnitude na vida dos cidadãos num prazo mais longo? Há repercussões sobre emprego, saúde, moradia, educação, e violência, inclusive sexual. Eu trago uma discussão nessa coluna de algumas entre tantas das possíveis consequências das enchentes baseadas em pesquisa científica.

Existe evidência da relação entre desastres naturais e aumento da violência interpessoal. Foi noticiado na mídia que mulheres e crianças foram vítimas de abuso dentro de abrigos. A desorganização social criada pela calamidade proporciona uma janela de oportunidade para agressores, exacerbando a violência doméstica, que pode continuar mesmo dentro dos abrigos. Num período de calamidade, essas vítimas podem enfrentar barreiras adicionais para deixar o ambiente violento no qual vivem, especialmente quando dependem da família para apoio financeiro ou para se qualificar para outros tipos de assistência após o desastre. O próprio auxílio financeiro concedido pelo governo, se entregue a somente um membro da família, por exemplo, ao homem, pode afetar a autonomia da mulher dentro do domicílio.

Crianças afetadas pelas enchentes no Rio Grande do Sul brincam em espaço lúdico dentro do abrigo montado no Colégio Estadual Júlio de Castilhos, em Porto Alegre - Gabriel Schlickmann - 9.mai.2024/Folhapress

Praticamente todos os moradores das áreas atingidas pelas enchentes foram afetados. Porém, mulheres, crianças, idosos e pessoas mais vulneráveis sentem os efeitos dos desastres, em geral, de forma mais intensa. Um estudo sobre as consequências de enchentes que aconteceram na Alemanha em 2013 mostra que o custo econômico dos estragos atinge as famílias de forma desigual, especialmente em relação à renda, aumentando a desigualdade entre famílias. Famílias que têm crianças ou um aposentado como chefe de família são as mais afetadas.

As crianças, inclusive, podem ser atingidas pelos desastres desde o útero. O estudo The impact of early life shocks on human capital formation: Evidence from El Niño floods in Ecuador sobre os efeitos das enchentes causadas pelo El Niño no Equador (1997-1998) mostra que as consequências podem não ser aparentes no momento do evento, mas podem persistir ao longo do tempo. O momento da gestação no qual a criança foi exposta ao evento pode ter diferentes impactos sobre ela. A exposição dentro do útero, especialmente no 3° trimestre ou no primeiro ano de vida, traz efeitos negativos para a altura dessas crianças, entre cinco e sete anos depois. Crianças expostas ao evento por três meses no útero têm uma probabilidade de 5.4 pontos percentuais a mais de desenvolver anemia sete anos depois. Adicionalmente, a autora desse estudo encontra efeitos negativos no desenvolvimento cognitivo das crianças, especialmente as atingidas no 1° trimestre, entre cinco e sete anos depois.

Faz pouco mais de dois anos que saímos da epidemia da Covid. Um choque negativo como as enchentes têm seu poder de destruição amplificado, já que afetam a renda familiar, a nutrição materna, o estresse e a saúde. As crianças já enfrentaram prejuízos durante a pandemia, especialmente no que diz respeito ao aprendizado. Num desastre natural dessa magnitude, como que ocorre no Rio Grande do Sul, é imperativo que políticas de investimento em saúde e educação sejam priorizadas, com foco em famílias desfavorecidas, mulheres grávidas e crianças, para mitigar os efeitos duradouros. Os efeitos do desastre podem não ser imediatos, mas, se não forem abordados adequadamente, podem afetar negativamente as crianças ao longo de suas vidas, inclusive em sua futura atuação no mercado de trabalho. A literatura empírica sobre desastres naturais pode ajudar os gestores nesse momento difícil de decidir as prioridades entre as prioridades.

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