Marcelo Leite

Jornalista de ciência e ambiente, autor de “Psiconautas - Viagens com a Ciência Psicodélica Brasileira” (ed. Fósforo)

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Descrição de chapéu desmatamento

Banda ogra do agronegócio sustenta cruzada antiamazônia

No supermercado e na urna, você decide futuro das florestas tropicais

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Viajantes no interior dos estados americanos de Washington, Oregon e Califórnia, neste fim de verão, não se preocupam com a previsão do tempo —a possibilidade de chuva é quase zero. Ficam é de olho nos registros de fogo, pois duas dúzias de incêndios florestais se propagam pelas florestas temperadas de coníferas.

Diferentemente do Brasil e de outros países com florestas tropicais, nesse caso a responsabilidade direta da atividade agrícola pelas chamas é desprezível. O ressecamento da mata e os ventos que as insuflam se agravam com o aquecimento global, do qual todos somos culpados, a começar pelo diesel dos descomunais SUVs dos turistas americanos e os trailers que arrastam.

Outros 500, no Brasil, são as queimadas intimamente ligadas ao desmatamento, em particular na Amazônia. Aqui, a banda ogra do agronegócio está por trás dos atuais recordes de fogo e fumaça que tornam o uso da terra em maior fonte nacional de gases do efeito estufa.

Área incendiada em Apuí, no sul do estado do Amazonas, que é a fronteira da expansão da agricultura na Amazônia
Área incendiada em Apuí, no sul do estado do Amazonas, que é a fronteira da expansão da agricultura na Amazônia - Lalo de Almeida - 24.ago.20/Folhapress

Os mais de 33 mil focos de incêndio registrados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) no Brasil em agosto, grande parte na Amazônia, representaram avanço de 7% sobre o mesmo mês do ano passado. A área calcinada ultrapassou 24 mil km2, com crescimento de 30% sobre 2021, ficando atrás só de 2010, ano de seca ímpar, e 2019, primeiro ano de Bolsonaro.

Queimadas não são sinônimo de desmatamento recente, embora sempre ligadas a derrubadas anteriores. Usa-se fogo também para limpar pastos (que um dia foram florestas) e queimar detritos acumulados noutras temporadas. Incêndios florestais como os do noroeste dos EUA não ocorrem na Amazônia, uma floresta úmida.

Com a dinâmica presente de desmatamento na região, contudo, não se descarta que a floresta amazônica caminhe nessa direção. Quase 20% da cobertura do bioma já sofreu corte raso, e talvez outro tanto tenha sido degradado pelo garimpo localizado e pela retirada seletiva de madeira e suas estradas clandestinas.

Prevê-se que o contínuo ressecamento por essas atividades e anos de pouca precipitação com a mudança global do clima possa deflagrar um colapso do ecossistema conhecido como "dieback". Alcançando 25% de devastação, a mata reverteria para algo parecido com uma savana, bem mais inflamável.

Quanto dessa espiral destrutiva da floresta tropical pode e deve ser atribuída à atividade agrícola? Não é tarefa trivial determinar a responsabilidade, como discute alentado artigo de revisão publicado sexta-feira (9) no periódico Science.

Na penca de autores da equipe está Tasso Azevedo, líder no Brasil da iniciativa MapBiomas. O trabalho colaborativo põe em dúvida uma cifra muito citada na literatura científica, além de organismos internacionais e ONGs: 80% do desmatamento de florestas tropicais no mundo resultaria da atividade agrícola.

O artigo conclui que um número mais provável ficaria entre 90% e 99%. Nem toda área derrubada se converte de imediato em campos cultivados com grãos, verdade, mas o agronegócio não está dissociado do desmatamento especulativo, por exemplo, como bem demonstra a grilagem com abertura de pastos no Brasil.

Essa influência indireta do agronegócio na devastação das florestas tropicais decerto complica a tarefa de combatê-la. Muito esforço se dedica, no cenário internacional, a restringir o comércio de commodities ligadas a desmatamento, mas o trabalho na Science questiona a eficácia desse foco exclusivo, ainda que sem negar a importância de tais barreiras.

Boa parte dos grãos, da carne e da madeira oriundos de desmatamento, afinal, se destina a mercados domésticos, não exportação. É fogo: pense nisso na próxima vez que for ao supermercado e, dentro de três semanas, ao votar.

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