Maria Hermínia Tavares

Professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap)

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Maria Hermínia Tavares
Descrição de chapéu Eleições 2018

Propostas para educação requerem sólidas evidências

Não é o que se vê com a lei aprovada em SP sobre escolas cívico-militares

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Para cada problema complexo a extrema direita tem a proverbial resposta: simples e errada.

É o caso do Programa Escola Cívico-Militar, que o bolsonarismo, com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, à frente, conseguiu transformar em lei em fins de maio último.

Destinado às escolas públicas do estado que a ele queiram aderir, o tal programa prevê atividades que caibam no figurino, complementares ao currículo escolar.

A gestão da coisa caberá à Secretaria de Segurança; a execução a PMs da reserva, promovidos a monitores. Os colégios que aderirem ao esforço patriótico receberão apoio financeiro para executá-lo. Professores civis e monitores militares embolsarão adicionais à sua paga: afinal, ninguém é de ferro.

Não está claro no que consistirão as tais atividades cívico-militares. Vídeos promocionais mostram crianças em posição de sentido ou com os braços cruzados para trás, cantando o Hino Nacional ou enfileiradas para entrar nas classes.

O Brasil, como é notório, não se distingue pela qualidade da educação pública, responsável por quase 70% das matrículas no ensino básico. São Paulo tampouco. Assim, seria de esperar que quaisquer iniciativas visando a melhoria da educação se arrimassem em sólidas evidências do que dá certo ou não nesse combalido setor.

Na charge de Laerte, com o título “ESCOLA CÍVICO-MILITAR”, uma sala de aula, com crianças sentadas em suas carteiras e um policial uniformizado como professor. Uma das crianças ergue a mão e pede: “Posso ir ao banheiro?” - ao que o professor, com uma vareta, indica uma placa como as de trânsito onde está escrito a palavra “SAIDINHA”, cortada por uma faixa vermelha, indicando proibição.
Laerte/Folhapress


As escolas cívico-militares foram criadas no governo Bolsonaro em escala nacional. Ficaram faltando avaliações abrangentes de seus resultados.


Ainda bem que não faltam excelentes trabalhos sobre o que vem dando certo para melhorar o ensino público, em várias partes do país. É o caso da ONG Todos pela Educação, dedicada ao tema, com seu cuidadoso estudo das políticas bem-sucedidas em estados ou cidades onde é de aplaudir o desempenho de alunos dos ciclos fundamental e médio.

O levantamento indica que não há uma receita milagrosa para o que se busca, mas um conjunto variado de medidas. Um ambiente escolar organizado, vai sem dizer, é parte do caminho percorrido. E nenhum dos casos conferidos pode ser creditado às presumíveis habilidades específicas de policiais militares aposentados. Muito menos à única forma de disciplina que conhecem: a da obediência à rígida hierarquia de comando.

Como em todas as soluções da lavra da extrema direita, a lei aprovada pelo Legislativo paulista mistura arrogante ignorância sobre o problema; exploração do anseio da população por ordem; agrado ao primitivismo da militância bolsonara; e, de quebra, benefícios a sua clientela fardada.


Rigorosamente nem sombra de parecença com a educação de qualidade que deveria preparar para o "exercício consciente da cidadania".

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