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Mônica Bergamo é jornalista e colunista.

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Descrição de chapéu Coronavírus

'Os 60 mil não são mortos, e sim desaparecidos', diz poeta Fabrício Carpinejar

Poeta gaúcho lança livro sobre a pandemia, revela medo e diz que 'ócio não pode ser criativo'

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O poeta Fabrício Carpinejar diz ter fundado a sua personalidade “em duas constatações”. A primeira veio ao saber, já adulto, que foi diagnosticado com “retardo mental” na infância. “Eu tinha uns 35 quando descobri [o laudo médico], mexendo em pastas na casa da minha mãe”, afirma o gaúcho de 47 anos. “Tive que recapitular a minha vida.”

Até então, na sua memória os três meses em que ele ficou fora da escola aos sete anos de idade foram férias com a mãe, a poeta Maria Carpi. “Não notei que ela estava me alfabetizando”, lembra ele sobre aquela época. Seu pai é o também escritor Carlos Nejar.

“Ela [Maria] contrariou o médico, não me deu os remédios, solicitou à professora que lhe desse três meses, pediu licença do trabalho e me ensinou a ler e a escrever a partir de jogos”, conta ele. “Voltei para a escola escrevendo e lendo melhor do que os meus colegas. De onde eu tiro que diagnóstico não é destino.”

O poeta gaúcho Fabrício Carpinejar em sua casa em Belo Horizonte (MG)
O poeta gaúcho Fabrício Carpinejar em sua casa em Belo Horizonte (MG) - Divulgação

“E ela também foi sábia, porque me preveniu de um estigma. Não sei se eu teria a mesma superação se soubesse disso aos sete anos, se teria a mesma criatividade diante do bullying. A inteligência sempre foi a minha arma para desarmá-lo”, conta ele. “Isso marcou a minha personalidade. Devo tudo à minha mãe.”

A segunda constatação “é a feiura”. “Aceitar que sou feio me trouxe uma naturalidade letal”, conta o autor. “Fez com que eu desenvolvesse a minha estranheza e não tivesse medo da aparência. Posso ser irreverente, fazer combinações. É uma soltura. O feio é aquele que experimenta. Pode perceber o quão coloridos são os armários deles [risos].”

Autor de mais de 20 livros de poesias e crônicas, Carpinejar já foi contemplado com os prêmios Jabuti e Olavo Bilac e recentemente lançou a publicação “Colo, Por Favor!”, em que reúne ensaios sobre sentimentos vividos por ele durante o isolamento social pela pandemia da Covid-19. “Foi o livro mais rápido que escrevi, teve a elaboração de um mês”, conta ele.

“É uma obra passional, escrita pra eu tentar domesticar o meu medo”, explica. “Medo do inesperado, de não conseguir sustentar a família, de que o amor se desgaste e as amizades acabem. O medo do distanciamento dos pais, também. Eles estão com 81 anos, todo dia é um lucro agora”, diz. “Tenho medo que eles morram e eu não possa nem me despedir.”

Esses 60 mil mortos [por Covid-19 no Brasil] não foram mortos. Foram desaparecidos. Você não iniciou o luto, não viu ele ser enterrado. Não tem a experiência visual para fechar a dor. Se você não enterra quem você ama, terá a sensação de que ele pode tocar a campainha a qualquer momento. Não tem nem a fase da aceitação pra depois negar.”

Foi o que quase aconteceu com a sua tia de 83 anos, internada após ser diagnosticada com o novo coronavírus. “Nunca tinha dito ‘Eu te amo’ porque eu jurava que ela sabia [risos]”, diz. “Aí ela foi internada em estado grave, prestes a morrer. Pensei: ‘O que que eu fui fazer por não fazer?’”

“A omissão é o teu pior ato, porque é aquele pelo qual você mesmo se julga e se condena —não precisa de júri externo.”

“E eu me senti patético também, porque comecei a dizer ‘Eu te amo!’ a torto e a direito [risos]. Pensei: ‘Que cara oportunista, dizendo isso agora que ela está prestes a morrer? Por que não fiz isso antes?’ Na hora que a gente adia demais também parece falso. Toda demora transforma a emoção em pantomima”.

Carpinejar e a mulher, Beatriz, estão isolados na casa deles, em Belo Horizonte (MG), desde o início da pandemia.

“Antes a gente fazia academia e dieta juntos. Agora, estamos engordando juntos”, brinca o escritor. “Ninguém discute com doce de leite na boca [risos]. Não tem como ter DR [discussão de relação] com chocolate. Se eu vejo um casal com quilos a mais, tô sabendo: ‘Eles não estão brigando”, afirma, soltando uma gargalhada.

Ele defende a importância de se fazer coisas separados mesmo convivendo quase o dia todo no mesmo ambiente. “Tentar fazer tudo junto é impossível. Um vai anular o outro”, diz. “Se você conseguir preservar a solidão dentro do casamento, ele vai sair fortalecido. Se não conseguir isso, um dos dois está tiranizando.”

“Dentro do casamento, você precisa preservar a solidão. Ter o seu momento de porta fechada. Se você não tem como fabricar saudade, o relacionamento ou se torna uma guerra ou se torna uma amizade. Eu preciso que ela [Beatriz] sinta falta de mim [risos], para aguçar a curiosidade, perguntar. Para eu ter coisas minhas pra poder contar”, diz.

Carpinejar compara a pandemia ao mito de Sísifo. “A flexibilização [da quarentena] é a nossa pedra. A gente levanta a pedra, leva ela até o topo e ela cai de novo, aí volta o lockdown, o comércio fechado”, diz. “A gente está sempre reiniciando a quarentena. E isso é realmente um desestímulo.”

“Tenho cumprido com disciplina o isolamento. A ponto de me sentir um idiota, porque tenho amigos que me convidam pra jantar: ‘Vem, é um jantarzinho só com cinco casais’. Não! Comemorar o quê? Cemitérios e hospitais superlotados? Não tem sentido de celebração. Fora todo o risco de contágio, não tenho nem a espontaneidade. O que eu vou conversar em uma reunião de amigos? Sobre Covid-19!”

Ele critica o descaso de brasileiros que podem se isolar como precaução contra o coronavírus, mas não o fazem. “Está sendo testada a tese da nossa cordialidade. Acho que a gente trocou o complexo de vira-lata pela síndrome do doberman, de arrogância.”

Para ele, “estamos em um tempo onde não há mais diferença entre o realista e o pessimista [risos]”. “Eles estão no mesmo barco”, afirma ele. “E reclamar realmente atrai os chatos. Porque você não tem mais a exclusividade, a individualidade, de reclamação. Todo mundo está numa situação difícil.”

“É evidente que eu estou numa situação cômoda, porque estou protegido. Privado é quem está sem comida, sem trabalho. Essa pessoa está sobrevivendo. Eu, não. Tédio é um luxo! Se você está sentindo tédio é porque está muito confortável. Quem sobrevive não tem esse luxo, vai estar muito ocupado. O tédio é você ficar cansado de não fazer nada. A sobrevivência é ficar cansado de fazer tudo e não ser suficiente.”

Ativo nas redes sociais, Carpinejar tem 835 mil seguidores no Twitter, entre os quais estão políticos como Davi Alcolumbre, Marina Silva e Jean Wyllys e artistas como Marcelo D2. Uma de suas marcas registradas nessas plataformas são as imagens de guardanapos nos quais ele compartilha reflexões. “São aforismos. O Brasil tem tradição de aforistas geniais: [Stanislaw] Ponte Preta, Millôr [Fernandes], Otto Lara Resende, Barão de Itararé.”

“O brasileiro é o pioneiro em lacrar!”, diz, citando a gíria usada para o ato de concluir discussões com impacto.

Carpinejar acha “um erro continuar pensando no tempo de forma funcional”. “Na quarentena parece que a gente tem que se ocupar com curso, aula, aprendendo coisas novas. Não! O ócio tem que ser ócio. Ele não pode ser criativo”, diz.

“O ócio criativo é só uma forma de você se sentir culpado por não trabalhar. É uma imposição fabril no seu descanso”, segue o gaúcho. “Se você a todo momento está respondendo a estímulos, inclusive quando está descansando, vai enguiçar, estragar, arrebentar. Quem não faz nada por alguns momentos do dia tem saúde mental.”

“A gente quer ocupar o tempo, e não morar nele. Não conseguimos ficar uma hora sem fazer nada sem dizer: ‘Não fiz nada nessa uma hora’. Graças a Deus que você não fez nada! Você estava pensando, enfrentando os seus problemas. Estava, de uma certa forma, declamando a si mesmo o que você pode falar, viver.”

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