Desembargadora que ligou Marielle ao tráfico não se arrepende, mas diz que foi precipitada

Em rede social, magistrada afirmou que vereadora era 'engajada com bandidos'

Rio de Janeiro

A desembargadora Marília de Castro Neves, do Tribunal de Justiça do Rio, admitiu ter se precipitado ao fazer comentários em redes sociais sobre suposta ligação da vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada na última quarta (14), ao tráfico de drogas.

"No afã de defender as instituições policiais, a meu ver injustamente atacadas, repassei de forma precipitada notícias que circulavam nas redes sociais", disse ela, em nota divulgada nesta segunda (19).

Na sexta-feira (15), a magistrada afirmou em uma rede social que Marielle estava "engajada com bandidos" e que havia sido eleita pela facção criminosa Comando Vermelho. A declaração gerou reação de familiares da vereadora e uma representação do PSOL ao CNJ (Conselho Nacional de Justiça).

Foto mostra comentário da desembargadora Marília de Castro Neves que liga a vereadora Marielle, morta na semana passada, ao tráfico de drogas
Comentário da desembargadora Marília de Castro Neves sobre Marielle - Reprodução/Facebook

A desembargadora defende que se manifestou como cidadã e não como magistrada. Os comentários foram feitos na postagem de um amigo. "A conduta mais ponderada seria a de esperar o término das investigações para então, ainda na condição de cidadã, opinar ou não sobre o tema", disse ela, na nota, dizendo esperar que "o crime seja desvendado o mais rápido possível".

Em entrevista ao jornal O Dia, ela havia dito que não se arrependia de ter feito os comentários na internet. "Por que eu deveria me arrepender de ter feito um comentário? É só um comentário reproduzindo um outro. Eu não estou me sentido culpada por nada. Eu não criei o comentário. Se é boato, se alguém criou, o autor da criação que pode estar ou não arrependido", disse ela.

Em nota enviada ao jornal após a entrevista, ela afirmou que o comentário reproduzia "informações disponíveis na mídia e que, até então, não haviam sido contestadas nem pelo PSOL, nem pela família da vereadora, ou por quem quer que seja. 

"No domingo (18), a página oficial da vereadora na internet abriu uma seção para negar as acusações. A página diz que Marielle nunca foi casada nem teve relacionamento com o traficante Marcinho VP —seja Márcio Amaro do Nascimento, do Santa Marta, ou Márcio dos Santos Nepomuceno, do Complexo do Alemão—  e que recebeu apenas 7% de seus votos na região do complexo da Maré, onde nasceu e foi criada.

Em outro comentário em redes sociais, a desembargadora Marília de Castro Neves disse que o deputado Jean Wyllys deveria ir para um paredão (de fuzilamento) "embora não valha a bala que o mata". A O Dia, ela defendeu que foi uma "ironia com o apoio declarado do deputado ao regime cubano".

CRIME

Marielle foi morta por volta das 21h30 da última quarta-feira (14) no bairro do Estácio, no centro do Rio, após deixar um encontro com mulheres negras. O veículo em que ela estava foi alvejado por tiros disparados de outro carro. O motorista da vereadora, Anderson Gomes, 39, também morreu.

Os criminosos fugiram sem roubar nada, indício de que o crime foi premeditado. Segundo o chefe da Polícia Civil, Rivaldo Barbosa, a morte pode ter sido uma "execução", mas a investigação segue sob sigilo.

A apuração já concluiu que a munição utilizada no assassinato da vereadora e do motorista foi comprada pela Polícia Federal em 2006 e pertence ao mesmo lote encontrado na maior chacina da história do estado de São Paulo, em 2015. O ataque deixou 17 mortos nas cidades de Barueri e Osasco.

A morte da vereadora ocorreu dois dias antes de a intervenção federal na segurança pública do Rio completar um mês. A medida, inédita, foi anunciada pelo presidente Michel Temer (MDB) em 16 de fevereiro, com o apoio do governador Luiz Fernando Pezão, também do MDB.

Temer nomeou como interventor o general do Exército Walter Braga Netto. Ele, na prática, é o chefe dos forças de segurança do estado, como se acumulasse a Secretaria da Segurança Pública e a de Administração Penitenciária, com PM, Civil, bombeiros e agentes carcerários sob o seu comando.

O Rio de Janeiro passa por uma grave crise política e econômica, com reflexos diretos na segurança pública. Desde junho de 2016, o estado está em situação de calamidade pública e conta com o auxílio das Forças Armadas desde setembro do ano passado. 

Não há recursos para pagar servidores e para contratar PMs aprovados em concurso. Policiais trabalham com armamento obsoleto e sem combustível para o carro das corporações. Faltam equipamentos como coletes e munição.

A falta de estrutura atinge em cheio o moral da tropa policial e torna os agentes vítimas da criminalidade. Somente no ano passado 134 policiais militares foram assassinados no estado.

Policiais, porém, também estão matando mais. Após uma queda de 2007 a 2013, o número de homicídios decorrentes de oposição à intervenção policial está de volta a patamares anteriores à gestão de José Mariano Beltrame na Secretaria de Segurança (2007-2016). Em 2017, 1.124 pessoas foram mortas pela polícia.

Em meio à crise, a política de Unidades de Polícia Pacificadora ruiu –estudo da PM cita 13 confrontos em áreas com UPP em 2011, contra 1.555 em 2016. Nesse vácuo, o número de confrontos entre grupos criminosos aumentou.

Apesar da escalada de violência no Rio, que atingiu uma taxa de mortes violentas de 40 por 100 mil habitantes no ano passado, há outros estados com patamares ainda piores.

No Atlas da Violência 2017, com dados até 2015, Rio tinha taxa de 30,6 homicídios para cada 100 mil habitantes, contra 58,1 de Sergipe, 52,3 de Alagoas e 46,7 do Ceará, por exemplo.

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