Só obras não garantem disponibilidade de água, aponta relatório da ONU 

Unesco aponta importância de políticas públicas verdes focadas na restauração da natureza

Fabrício Lobel
São Paulo

Cada vez mais, os países terão que desenvolver novas formas de garantir um abastecimento seguro de água. E para o Relatório Mundial das Nações Unidas sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos 2018, a saída não está só na construção de represas, estações de tratamento de água e esgoto e canais de irrigação de lavouras, mas também na preocupação de restauro e manutenção da natureza.

O documento, produzido pela Unesco (órgão da ONU para a educação e cultura), será divulgado nesta segunda-feira (19), na 8ª edição do Fórum Mundial da Água, que acontece em Brasília até o próximo dia 23.

Segundo o relatório, a ideia é estimular políticas públicas que encarem o cuidado à natureza não como uma barreira, mas como parte estimuladora da segurança hídrica. "Mais do que nunca, devemos trabalhar com a natureza e não contra ela", resume, na abertura do documento, a Diretora-geral da Unesco.

O relatório traz experiências adotadas em diversos países que, segundo a ONU podem preparar melhor o campo e as cidades para eventos extremos causados pelas mudanças climáticas, diminuir a pressão sobre o uso da terra e gerar uma oferta sustentável de água para o futuro.

No caso do campo, por exemplo, estima-se que a adoção de técnicas verdes possam aumentar em 20% a produção agrícola. Um estudo analisou 57 países de baixa renda e constatou o aumento de 79% no rendimento das colheitas após a adoção do uso mais eficiente da água, a redução de pesticidas e melhoria no manejo do solo.

EXEMPLOS

O Brasil é lembrado no relatório da ONU ao lado do Paraguai, devido o trabalho "Cultivando Água Boa", da Itaipu Binacional.

O projeto consiste em recuperar fazendas e áreas no entorno do rio Paraná para diminuir o assoreamento da represa da usina de Itaipu. Entre as técnicas estão a recuperação de nascentes, readequação de estradas, aplicação de cultivos diversificados e revitalização de matas. Com as ações, Itaipu conseguiu aumentar a vida útil de sua operação na geração de energia.

Outro exemplo de gestão da água com foco na natureza é de Nova York. Desde 1997, a municipalidade investiu pesado na conservação da natureza no entorno de suas represas. A estimativa é de que hoje essa proteção já tenha gerado um aumento da qualidade de água captada capaz de reduzir os gastos em estações de tratamento e manutenção de estruturas em U$ 330 milhões (R$ 1,08 bilhão, ou o equivalente a 28% de todo o investimento feito pela Sabesp em 2016).

A experiência de Nova York é um exemplo de como tecnologias verdes podem render resultados também para as cidades. 

Com esse mesmo foco, a China iniciou um projeto arrojado chamado Cidade Esponja. A ideia é aumentar a infiltração de água no solo, construir estruturas capazes de captar água da chuva e purificar 70% desse volume. A política será implantada em 16 cidades por meio de projetos-piloto até 2020. A previsão de investimento é de U$ 1,25 bilhão (R$ 4,1 bilhões).

A expectativa é de que inundações e alagamentos não sejam mais problemas tão graves nesses locais. Além disso, a água de chuva captada e tratada pode ser utilizada dentro da própria cidade para irrigação ou limpeza. E espera-se ainda uma melhora do cenário das cidades.

Entre as técnicas utilizadas estão a adoção de jardins nos terraços de prédios, pavimentação permeável, revitalização de lagos e várzeas.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.