Sem dar detalhe, ministro diz que Marielle pode ter sido morta por milícia

Raul Jungmann não soube dizer por que investigação trabalha com essa hipótese

A vereadora Marielle Franco fala no púlpito da Câmara Municipal do Rio de Janeiro
A vereadora Marielle Franco na Câmara Municipal do Rio de Janeiro - Renan Olaz /AFP
Luiza Franco Thiago Amâncio
Rio de Janeiro

O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, disse nesta segunda-feira (16) que o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) pode ter ligação com milícias.

Esses grupos criminosos são tradicionalmente formados por pessoas ligadas às polícias, mas, nos últimos anos, passaram a recrutar também bandidos ligados ao tráfico.

Na prática, eles vendem proteção, extorquem comerciantes e exploram ilegalmente serviços como transporte coletivo, distribuição de gás, internet e TV a cabo.

“As investigações avançam e têm afunilado possibilidades. Uma delas é que seja crime ligado a milícias”, disse Jungmann, em evento no Rio.

O ministro, no entanto, não soube explicar o que leva os investigadores a essa hipótese. "Quem pode responder isso é o chefe da Polícia Civil", disse, quando foi perguntado que tipo de indícios há da participação de milicianos. 

Em 2008, Marielle trabalhou na CPI das Milícias, que pediu o indiciamento de 225 políticos, policiais, agentes penitenciários, bombeiros e civis. 

Jungmann enfatizou que se trata de uma investigação "rara", pois as provas são materiais, e não testemunhais.

"Não se identificou nenhuma ameaça a ela, o que deixa as investigações apenas no âmbito da materialidade —cápsulas, impressões digitais."

À tarde, o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), criticou a fala de Jungmann.

“Não cabe a nenhum ministro, não cabe a nenhum político, ficar falando sobre linha de investigação. Cabe a quem investiga”, afirmou. “Não quero saber quem é mais ou menos suspeito, quero saber quem mandou matar e quem matou.”

A declaração de Freixo aconteceu após reunião de familiares e investigadores para apresentar o andamento do caso.

O chefe da Polícia Civil do Rio, Rivaldo Barbosa, afirmou que “respeitamos a posição e o comentário de todos, mas a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro só vai comentar a autoria e a motivação no final da investigação.”

Para a viúva de Marielle, a arquiteta Monica Benício, o que interessa é “não qualquer resultado, mas o resultado correto”, disse. “Estamos saindo daqui um pouco mais acalentados.”

​ESCOLTA

Em resolução publicada nesta segunda no Diário Oficial do RJ, o secretário de Segurança do Rio, o general Richard Nunes, determinou que 87 policiais militares cedidos à Assembleia Legislativa fluminense voltassem aos batalhões. Isso incluía dois PMs que fazem escolta pessoal do deputado Marcelo Freixo desde que o parlamentar comandou a CPI das Milícias, investigação estadual em que também trabalhou Marielle. 

“Enquanto nós não soubermos quem fez, essa suspeita [do assassinato da vereadora Marielle] fica sobre muita gente. Há ao que tudo indica uma motivação política para esse homicídio, e evidentemente qualquer pessoa próxima à Marielle nesse sentido tem que tomar mais cuidado”, afirmou Freixo. "Não é possível que nesse momento, nessa situação, se retire qualquer policial da minha escolta.”

No fim do dia, Freixo se reuniu com o secretário Richard Nunes, quando ficou decidido que a Secretaria de Segurança vai ceder outros agentes (que podem ser policiais militares ou civis), no mesmo número (quatro), para fazerem parte da escolta do deputado, segundo informou a pasta à Folha.
 

O CRIME

O assassinato da vereadora completou um mês neste sábado (14) sem que a polícia tenha localizado autores ou mandantes. 

O secretário da Segurança Pública do Rio, general Richard Nunes, chegou a dizer que a principal linha de investigação era a de motivação política.

"Não há dúvidas de que a atuação política dela, não só no momento, mas até a projeção de futuro do que ela poderia representar, indica que a gente tem que ter um olhar mais acurado nesta direção. Isso é inegável", disse o secretário, em entrevista à Globo News. Ele também afirmou que foi descartada a hipótese de crime passional.

Diversos vereadores prestaram depoimento na condição de testemunha, entre eles, um indiciado na CPI das Milícias. 

O assistente de um vereador que deu depoimento à Polícia Civil foi assassinado no último domingo (8). Não está claro se o crime teve relação com a morte da vereadora.

Quando lhe foi perguntado se está descartada a hipótese de participação de vereadores no crime, o ministro Jungmann disse que "não se pode descartar nada". 

Marielle foi morta em 15 de março, quando saia de um encontro de mulheres negras na Casa das Pretas, espaço na Lapa, região central do Rio. O carro em que ela estava foi atingido por nove tiros. 

A vereadora estava no banco de trás de um Chevrolet Agile branco com sua assessora, que sofreu ferimentos leves. Na frente, estava seu motorista, Anderson Pedro Gomes, que também morreu.

O caso teve repercussão internacional e entrou na pauta da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão da OEA (Organização dos Estados Americanos).

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