Sem peça nem mecânico, caveirões blindados estão parados na polícia do RJ

Veículos foram comprados em licitação internacional para a Copa e a Olimpíada

Com pneus vazios e pintura desgastada, caveirões ficam parados por falta de manutenção no Rio
Com pneus vazios e pintura desgastada, caveirões ficam parados por falta de manutenção no Rio - Reprodução
Lucas Vettorazzo
Rio de Janeiro

Cinco dos oito caveirões adquiridos pela Secretaria de Segurança do Rio em 2013 com vistas à Copa e à Olimpíada estão parados.

Os veículos blindados foram contratados após licitação internacional por R$ 6,6 milhões —metade do valor destinada à compra e a outra metade, a um contrato de manutenção durante 60 meses.

Os oito blindados, utilizados em operações em favelas, foram distribuídos da seguinte forma: quatro para o Bope (tropa de elite da PM), dois para o Batalhão de Choque (da PM) e dois para a Core (tropa de elite de Polícia Civil).

Atualmente, segundo a Folha apurou, funcionam somente um do Bope e dois que eram da Core —estes últimos foram reformados pelo Exército como parte das ações da intervenção federal na segurança pública do Rio, iniciativa em fevereiro deste ano.

O motivo da paralisia dos caveirões é a grave crise fiscal. O governo Luiz Fernando Pezão (MDB), que já havia desembolsado a metade do contrato referente à compra, parou de pagar em meados de 2016 pelo contrato de manutenção, que estabelecia parcelas até março deste ano.

O acordo firmado com a vencedora da licitação, a empresa da África do Sul Paramount Logistics, previa que as peças de reposição viriam do país africano, bem como os mecânicos com expertise para lidar com o equipamento.

Colocados para operar quase diariamente, não tardou para os carros irem para a oficina. Coube aos mecânicos das corporações brasileiras retirar peças de carros mais avariados para recompor os com maior chance de volta às ruas.

 

A Paramount Logistics venceu a licitação feita na forma de leilão reverso —as empresas apresentam o valor inicial para o equipamento e dão lances com desconto até chegarem ao menor preço possível.

A proposta original da empresa havia sido de R$ 22 milhões, mas o valor final chegou aos R$ 6,6 milhões. Outras quatro empresas disputaram a concorrência. Considerando somente o gasto com a aquisição dos veículos, cada caveirão custou R$ 415 mil.

Os carros, modelo Maverick, são a terceira geração de caveirões utilizados pelas forças de segurança do Rio.

Menores do que os então utilizados pelas polícias, foram anunciados como mais ágeis e rápidos que os em atividade. Com eixos mais altos e distância menor entre as rodas traseiras e dianteiras, eles vencem com mais facilidade obstáculos e barricadas montadas por traficantes.

Os veículos transportam até dez homens para combate, além do piloto e do copiloto.

Questionados, a Secretaria da Segurança Pública e o Gabinete de Intervenção Federal não se pronunciaram. A Polícia Civil diz que seus blindados ficaram fora de uso por só seis meses, sem detalhar quando isso teria ocorrido.

O presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Rio, Márcio Garcia, diz que o dinheiro gasto com os blindados parados poderia ser utilizado de maneira mais eficiente, como blindar as viaturas do policiamento ostensivo.

“Esses R$ 6 milhões poderiam ser melhor investidos, visto que os policiais estão morrendo dentro de carros frágeis, obsoletos e sem manutenção”, afirma Garcia.

MAIOR PODER DE FOGO

Os caveirões Maverick chegaram com a missão de ajudar na segurança pública do Rio de Janeiro em um período em que abundavam os recursos para os grandes eventos sediados na cidade.

Após cerca de dois anos de uso, sete dos oito chegaram a sair de circulação. Fotografias do último dia 4 na garagem do Choque e do Bope mostram dois blindados com pneus vazios e marcas de bala. A troca de um pneu chega a custar R$ 8.000. A pintura desgastada dá a dimensão do abandono. 

Conhecido como o “táxi do campo de batalha”, os veículos blindados são apontados por policiais como importantes no combate às drogas.

Grande parte das favelas do Rio ficam em morros, o que proporciona aos traficantes vantagem competitiva por terem uma posição de tiro superior, além de melhor visibilidade dos policiais que participam das operações. 

O veículo blindado é capaz de suportar os tiros e colocar os policiais em posições que levariam muito tempo para serem alcançadas a pé ou com viaturas sem blindagem.

Uma desvantagem do modelo Maverick observada por policiais consultados pela Folha é o vidro dianteiro grande —quando atingidos, racham sem serem perfurados, dificultando a visibilidade— e a largura maior da carroceria, que reduz a mobilidade em becos estreitos das favelas.

Outra queixa é o mau funcionamento do sistema de enchimento automático dos pneus quando são atingidos por tiros. A bomba não seguraria tempo o suficiente para o veículo se deslocar para fora da zona de confronto. Alguns caveirões têm uma espécie de gel colocado dentro dos pneus, aumentando sua resistência a tiros de fuzil.

Um terceiro problema relatado é o ar-condicionado que vaza água para dentro da cabine, inundando o veículo.

Os primeiros caveirões no Rio eram construídos sob chassis de caminhão. Parte deles ainda está em uso —são conhecidos como “mamutes”.

Os eixos muito distantes uns dos outros e também muito baixos tornam ruim a mobilidade no terreno acidentado das favelas. A segunda geração foi construída sob chassis de carros-forte, que tiveram blindagem reforçada para suportar tiros de fuzil calibre 7.62.

Apesar de menores, sua blindagem não cobria partes importantes do motor, suspensão e embreagem, tornando os carros vulneráveis a impactos em suas partes inferiores, por exemplo. Não tardou para traficantes descobrirem que granadas jogadas perto dos eixos poderiam inviabilizar a progressão do veículo.

Muitos foram os relatos de policiais que ficaram encurralados sob fogo cerrado depois que os caveirões eram avariados no alto de favelas.

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