'Acabou tudo', diz museólogo após visitar destruído Museu Nacional, no Rio

Incêndio no mais antigo museu do país, que completou 200 anos, durou seis horas

Lucas Vettorazzo
Rio de Janeiro

A direção do Museu Nacional, atingido no domingo (2) por um incêndio, ainda calcula a extensão das perdas do acervo do local, que abrigava peças raras da história brasileira e mundial.

Para a vice-diretora do Museu Nacional, Cristiana Serejo, 90% do acervo em exposição se perdeu. O museu tinha um acervo de 20 milhões de peças, dos quais apenas 1% estava exposta. Isso inclui o fóssil do maior dinossauro montado no Brasil.

Ainda há dúvidas, segundo ela, sobre a situação de Luzia, fóssil humano mais antigo do país que se tem notícia. O fóssil e uma réplica do rosto da mulher estariam soterrados por escombros. Técnicos do museu chegaram a tentar encontrar o artefato, mas não conseguiram acessar o local.

Ainda segundo Serejo, a biblioteca Francesca Keller, com um grande acervo sobre antropologia, também foi toda destruída.

O museólogo Marco Aurélio Caldas esteve no interior do prédio e disse que arqueólogos irão trabalhar para identificar possíveis objetos que desabaram junto com o piso do segundo andar e que podem estar sob escombros no assoalho do piso térreo. 

De acordo com Caldas, o segundo andar, onde ficava a área de exposição, foi todo destruído. "Acabou tudo", disse ele, que era um dos poucos funcionários do museu autorizado a entrar junto com os bombeiros nesta manhã. 

Todas as múmias e a coleção egípcia também foram perdidas, informou outro funcionário da instituição, o geólogo Renato Cabral Ramos, que trabalha no museu. 

Por volta das 16h, bombeiros retiraram do prédio um retrato do Marechal Cândido Rondon coberto de fuligem. A obra data do início do século 20. Vasos e um brasão, aparentemente da família real brasileira, também foram resgatados.

Como o retrato de Rondon, uma parte do acervo teria sido salva. Estão nesta lista o laboratório dos vertebrados e também da área de botânica. Uma coleção de minérios e meteoritos também resistiram ao fogo, além do Bendegó, o maior meteorito já encontrado no país.

Funcionários do museu auxiliam no trabalho dos bombeiros. Todos os itens resgatados estão sendo acondicionados em locais que as chamas não alcançaram. Alguns artefatos estão sendo depositados, por exemplo, na área de um chafariz em um pátio interno do museu.

Para a Defesa Civil, o prédio bicentenário não corre risco de desabar por completo. De acordo com uma primeira vistoria dos técnicos, as fundações da construção estão preservadas. No entanto, pequenos desabamentos na parte interna da construção não estão descartados. 

Mais antigo do país, o Museu Nacional é subordinado à UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e vem passando por dificuldades geradas pelo corte no orçamento para a sua manutenção. Desde 2014, a instituição não vinha recebendo a verba de R$ 520 mil anuais que bancam sua manutenção e apresentava sinais visíveis de má conservação, como pareces descascadas e fios elétricos expostos.

A instituição está instalada em um palacete imperial e completou 200 anos em junho —foi fundada por dom João 6º em 1818. Seu acervo, com mais de 20 milhões de itens, tem perfil acadêmico e científico, com coleções focadas em paleontologia, antropologia e etnologia biológica. Menos de 1%, porém, estava exposto.

Segundo um segurança privado do Museu Nacional que pediu anonimato, o museu não contava com uma brigada de incêndio 24 horas. Um eletricista ficaria de plantão somente no horário de funcionamento das exposições. 

Um servidor federal que trabalha no setor administrativo e de pessoal do museu, que também pediu que seu nome não fosse revelado, afirmou que o prédio não tem uma planta elétrica, com levantamento detalhado sobre onde passa a fiação do prédio histórico. 

A suspeita é que o fogo tenha começado, segundo ele, no segundo andar, na ala direita do prédio que tem o formato de uma letra H. A área seria onde ficam expostos materiais dos indígenas brasileiros. A Polícia Federal fez perícia no prédio e vai investigar o que provocou o incêndio.

A parte da frente do prédio, chamado de palácio imperial, foi a parte mais atingida. Era também a parte aberta a visita do público. A estrutura traseira, onde funcionam as áreas de pesquisa e arquivo, foram menos atingidas, embora a direção não tenha conseguido ainda contabilizar a extensão das perdas.

Estudantes e funcionários do museu fizeram protestos na Quinta da Boa Vista, parque público em São Cristóvão, zona norte, onde o prédio imperial do museu está instalado. Eles são contrários aos cortes no orçamento nas áreas de ciência e educação.

O diretor do museu fez um apelo ao governo federal para a liberação de recursos para restaurar o prédio, já que não é possível reconstruir acervo, diferentemente do sugerido pelo ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão. "Já perdemos parte do acervo. Não podemos mais perder a nossa história", disse o diretor do Museu Nacional, Alexander Kellner.

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