Incêndio no Museu Nacional é uma perda irrecuperável para a cultura, diz presidente do Ibram

Especialistas lamentam a tragédia que acarretou na perda de grande parte do acervo da instituição no Rio

Isabella Menon Eduardo Moura
São Paulo

Tragédia anunciada. Sem possibilidade de reparo. Pesquisas e história de mais de 200 anos em cinzas. Essas são algumas das opiniões dos produtores culturais diante o incêndio no Museu Nacional, no Rio, que teve grande parte do seu acervo queimado na noite do domingo (2). 

Emocionado, o presidente do Ibram (Instituto Brasileiro dos Museus), Marcelo Araújo, acredita que o dano causado é irreparável. "Isso mostra que precisamos mudar a cultura sobre a preservação do Brasil. O que vamos falar para as novas gerações? A sociedade precisa repensar o país que quer", disse. Araújo pediu exoneração do cargo na sexta-feira (31), mas continuará até o final de setembro. Segundo o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, ainda não foi definido quem ocupará a vaga.

Mais antigo do país, o Museu Nacional é subordinado à UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e vem passando por dificuldades geradas pelo corte no orçamento para a sua manutenção.

A instituição está instalada em um palacete imperial foi fundada por dom João 6º em 1818. Seu acervo, com mais de 20 milhões de itens, tem perfil acadêmico e científico, com coleções focadas em paleontologia, antropologia e etnologia biológica. Menos de 1%, porém, estava exposto.

No ano em que celebra o bicentenário, a instituição conseguiu um contrato com o BNDES de R$ 21,7 milhões para investir na restauração. A expectativa era de que cinco salas fossem reabertas até 2019. Para Washignton Fajardo, arquiteto e ex-presidente do Rio Patrimônio da Humanidade, o maior problema do museu vai além de repasses.

"Isso demonstra como nós viramos uma sociedade idiotizada. O patrimônio cultural brasileiro não tem orçamento. O problema da UFRJ não era de orçamento, é de gestão. Precisa demitir esse reitor [Roberto Leher]", disse Fajardo que listou as últimas tragédias de prédios sob cuidados da universidade.

"Em 2014, a capela da universidade, localizada na praia Vermelha, pegou fogo. Em 2016, a reitoria foi incendiada. A biblioteca da faculdade de arquitetura está fechada após incêndio em 2016. O Colégio Brasileiro de Altos Estudos funciona precariamente e o Canecão [casa de espetáculos], que seria uma forma de captar dinheiro para a universidade, está fechado há 8 anos". 

Entretanto, o coordenador do plano de gestão e conservação do Instituto Bardi, Renato Anelli, tem uma visão contrária. "Estou vendo muita gente que coloca a culpa na universidade, queria ver se a instituição que eles dirigem, se tivesse um corte de 50% de orçamento, conseguiria fazer uma coisa bem feita".

Grande parte dos estudos da biodiversidade brasileira está sob guarda de instituições internacionais, segundo o diretor do MAC-USP, Carlos Roberto Ferreira Brandão. Ele diz que esse fato já foi motivo de muitas críticas, mas que hoje ele agradece. "É necessário um reposicionamento para que possamos garantir a guarda física desses acervos". 

Diretor do Itaú Cultural, Eduardo Saron, diz que não existe inovação sem conservação. "Se não conseguimos preservar a memória, não conseguimos evoluir. Hoje, se fala tanto em inovação e olhar para o futuro que se perde o sentido da memória. As pessoas querem toda hora virar a página, mas isso é ignorar tudo que se foi construído até hoje pela humanidade." ​

Letícia Julião, coordenadora da rede de museus da UFMG, diz que "essa é uma situação muito comum nos museus universitários, a precariedade em razão de falta de recursos, que se agravou e deixa esses acervos com as coleções muito vulneráveis".

"A gente vai realizar em outubro o 5º Fórum de Museus Universitários. Ironicamente, a palestra de abertura seria em comemoração dos 200 anos do Museu Nacional. Talvez a gente não tenha muito o que comemorar", diz Julião.

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