Novo livro mostra como contribuir para melhorar segurança pública no país

Esse é um dos pontos centrais do recém-lançado "Segurança Pública para Virar o Jogo

Naief Haddad
São Paulo

Mais de 62 mil brasileiros foram assassinados em 2016, uma marca que consolida o país como campeão mundial de homicídios em números absolutos

Ações de governos podem tirar o Brasil desta tragédia cotidiana, como se um avião com 170 passageiros caísse todos os dias, sem sobreviventes. Mas não olhe só para o poder público. Todos podem contribuir para a melhora da segurança no país. 

Esse é um dos pontos centrais do recém-lançado “Segurança Pública para Virar o Jogo”, livro da diretora-executiva do Instituto Igarapé e colunista da Folha, Ilona Szabó, e da coordenadora do movimento Agora! Melina Risso.

De modo didático, sem jargões, a obra apresenta um panorama dos principais problemas da área e mostra como é possível combatê-los. 

No capítulo “E nós, cidadãs e cidadãos, qual o nosso papel?”, as autoras estimulam o engajamento da sociedade. 

Entre outras iniciativas, elas sugerem pequenas regras de convivência, como não parar em fila dupla; incentivam a participação em conselhos de segurança do bairro; e propõem que todos monitorem seus representantes políticos.

“Precisamos nos informar melhor sobre segurança pública. Estamos disseminado muitas mentiras”, afirmou Ilona em debate realizado na última segunda-feira (3) por conta do lançamento do livro no Insper, em São Paulo.

“Precisamos sair dessa polarização política e observar as evidências na área de segurança”, disse ela, cujo livro se baseia em pesquisas recentes no Brasil e no exterior. 

Além de Ilona, participaram do evento Melina, co-autora da obra, Samira Bueno (Fórum Brasileiro de Segurança Pública) e Carolina Ricardo (Instituto Sou da Paz). O mediador foi Eduardo Scolese, editor de Cotidiano.

“Segurança Pública para Virar o Jogo” também trata de temas como prevenção, polícias, drogas e armas.

Prevenção

Segundo as autoras, a atenção aos primeiros anos de vida é fundamental para o trabalho de prevenção de crimes. 

“Quando a criança é exposta à violência, seja como vítima, seja como observadora, ela está mais sujeita a desenvolver comportamentos agressivos, traumas e impactos físicos, emocionais e neurológicos que, em alguns casos, determinam sua entrada no ciclo da violência”, escrevem Ilona e Melina.

A educação aparece como o principal fator de prevenção, mas o novo livro também destaca o efeito dos espaços públicos seguros. 

Ao fim de cada capítulo, há o quadro “Como virar o jogo”, com iniciativas para avançar em cada aspecto da segurança.

No trecho sobre prevenção, as autoras indicam o treinamento de professores e assistentes sociais para mediação de conflitos e a melhoria da iluminação pública, entre outras propostas.

“Segurança pública não é só polícia. No Brasil, tratamos muito pouco a prevenção”, disse Melina no debate.

Polícias

Além de explicar as atribuições das polícias militar, civil e federal e das guardas municipais, as autoras se dedicam a discutir pontos como o conflito de interesses entre a segurança pública e a privada. 

No caso da Polícia Civil, apontam a necessidade de investimento em inteligência. Nesse sentido, elogiam o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), órgão paulista considerado um caso de excelência no esclarecimento de assassinatos. 

“Como sociedade, precisamos, por um lado, acompanhar, controlar e fiscalizar de perto a ação da polícia. (...) Por outro, cabe valorizar e cuidar do policial”, escrevem.

Drogas

As autoras defendem enfaticamente a retirada do consumo das drogas da esfera criminal e lembram que 
descriminalizar não é sinônimo de legalizar. 

“É um contrassenso tratarmos usuários de drogas como criminosos”, escrevem. “Pense em um alcoólatra: faz sentido levá-lo para a delegacia por estar embriagado?”

Além disso, segundo as autoras, os recursos da segurança pública poderiam ser reorientados para ações mais efetivas do que a repressão ao consumo de drogas. “O policial deveria estar mais focado em crimes violentos”, afirmou Ilona durante o debate. 

Armas

As autoras reúnem dados relevantes sobre as armas como fator de risco no Brasil. Um exemplo: mais de 70% dos assassinatos no país acontecem com armas de fogo enquanto a média no resto do mundo é de 35%. Outro: o aumento de 1% de armas de fogo em circulação eleva em até 2% a taxa de homicídios.

“Queremos botar mais fogo na fogueira?”, questionou Ilona durante o debate. Ela é favorável à regulação.
“Ao contrário do que seu nome fantasia sugere, o Estatuto do Desarmamento não desarma o cidadão”, escrevem as autoras. 

“Seu principal objetivo foi estabelecer um sistema efetivo de controle sobre armas de fogo e munições que circulam no país, passo essencial para melhorar e aprimorar o trabalho da polícia e reduzir a impunidade.


Capa do livro Segurança Pública Para Virar o Jogo, de Ilona Szabó de Carvalho e Melina Risso
Capa do livro Segurança Pública Para Virar o Jogo, de Ilona Szabó de Carvalho e Melina Risso - Divulgação

O que você pode fazer para melhorar a segurança pública

Ajude a disseminar estudos que tenham credibilidade 

Faça parte do conselho comunitário de segurança do seu bairro

Participe de programas de voluntariado de algum colégio que tenha como objetivo reduzir a evasão escolar 

Pense no impacto das suas atitudes no entorno e fique atento às regras de convivência, como respeitar os horários de silêncio e não parar o carro em fila dupla

Seja responsável na hora de escolher o seu candidato. Avalie as propostas para a segurança pública 

Monitore os mandatos dos representantes políticos e cobre resultados

Respeite as leis. Caso não concorde com elas, aja para mudá-las, mobilizando as pessoas interessadas e pressionando os parlamentares 

Pense na sociedade como um todo, não apenas na sua casa ou na sua rua

Fonte: livro “Segurança Pública para Virar o Jogo”, de Ilona Szabó e Melina Risso

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