Veja o passo a passo da notícia falsa que acabou em tragédia em Guarujá

Há quatro anos, mulher foi espancada e morta após um boato com origem na internet

Fabiane Maria de Jesus, 33, morta após ser agredida sob acusações de magia negra, em Guarujá (SP)
Fabiane Maria de Jesus, 33, morta após ser agredida sob acusações de magia negra, em Guarujá - Reprodução
Juliana Carpanez
São Paulo

Naquele sábado, 3 de maio, nenhum dos cinco homens depois acusados de homicídio saiu de casa para matar. Moradores de Morrinhos, em Guarujá (SP), eles estavam nesse bairro de periferia quando se depararam com uma confusão e se juntaram a dezenas de pessoas que gritavam por justiça. 

A multidão, revoltada, acompanhava Fabiane Maria de Jesus, 33, arrastada e agredida numa via-crúcis que durou cerca de duas horas. Ela acabou sendo resgatada, mas morreu dois dias depois.

Por trás do encontro improvável e não planejado entre todas essas pessoas estavam as fake news. O ano era 2014, ainda antes de o mundo tomar conhecimento do poder nocivo das notícias fraudulentas, que podem manipular eleições, acabar com reputações e destruir vidas. No caso de Fabiane, literalmente.

Trata-se do primeiro caso de repercussão no Brasil em que boatos pela internet serviram como fio condutor para uma história de final trágico.

O primeiro alerta de que um post enganoso pode matar. Dias antes do linchamento, uma página no Facebook chamada “Guarujá Alerta”, com 56 mil curtidas, publicou informações sobre “uma mulher que está raptando crianças para realizar magia negra”, supostamente na região. Além da frase “se é boato ou não devemos ficar alerta”, o administrador postou imagens: um retrato falado (associado a um crime cometido no Rio, em 2012) e a foto de uma mulher loira, que tampouco tinha a ver com o caso.

As duas eram bem diferentes entre si. E nenhuma delas parecia Fabiane, que morreu ao ser confundida com a tal sequestradora. A história fica ainda pior pelo fato de a criminosa em questão nem sequer existir: à época, depois a polícia elucidou, não havia nenhuma denúncia de sequestro de crianças em Guarujá.

Jaílson, nascido na Bahia, e Fabiane, no Rio, eram primos. Eles se conheceram na infância, no aniversário de 16 anos dela, e se reencontraram em Guarujá, onde então moravam. Três meses depois, começaram a namorar. Tiveram duas filhas, hoje com 17 e 5 anos. A mais velha é calada, parecida com o pai. A mais nova, falante, puxou a mãe. “Tive de colocar sozinho o barco para andar”, diz o viúvo, para quem a maior falta está no convívio entre mãe e filhas.

Ele lembra da mulher como uma pessoa “boa, extrovertida, alegre, que conversava muito e pegava amizade fácil”. Fabiane também gostava de fazer cursos: “hotelaria, tricô, informática, um monte deles”. Ela era dona de casa. Ele, porteiro, trabalhava à noite. Há três meses, Jaílson está desempregado e não sabe o que vai fazer: “O que pintar está bom”. 

Na casa da família, em Morrinhos, Fabiane já não se faz mais presente. Não há fotos dela expostas, apenas em álbuns guardados no quarto. Suas roupas e objetos pessoais foram doados. O viúvo tem uma namorada, que estava no local no dia da entrevista.

A filha mais velha, que chegou a ver na internet fotos da mãe espancada, não fala sobre o assunto. A mais nova, com apenas um ano na ocasião, sabe apenas que sua mãe está no céu —onde já pediu para a avó paterna levá-la.

A lembrança mais à mão é uma bíblia da antiga dona da casa, com seu nome e telefone na contracapa. Naquele sábado, 3 de maio, Fabiane saiu para buscar essa mesma bíblia, deixada em uma igreja que ela frequentava em Morrinhos. Durante a agressão, chegaram a dizer que o livro (com os dizeres Bíblia Sagrada na capa) era uma publicação de magia negra. E os santinhos guardados entre as páginas, fotos das crianças que ela havia sequestrado.

Na noite anterior ao linchamento, Jaílson voltou a trabalhar às 23h, depois de um período de férias. Antes de sair, deu os remédios para Fabiane, que sofria de transtorno bipolar e estava em crise. As filhas foram dormir com a avó paterna, Maria de Jesus, na casa de cima. Fabiane ficou sozinha e, entre a noite de sexta e a manhã de sábado, descoloriu os cabelos.

Uma semana antes, enquanto o boato sobre a sequestradora ganhava força, Fabiane havia cortado os longos fios na altura do ombro e os tingido de ruivo. Não gostou: segundo o marido, a intenção era descolorir para depois voltar à cor preta. Ao concluir apenas a primeira etapa desse plano, seus cabelos ficaram curtos e relativamente loiros —como os da mulher no Facebook, divulgada na página “Guarujá Alerta”. Foi assim que ela saiu de casa no sábado.

Pela janela, a sogra a viu de bicicleta, mas não reparou na mudança do visual. Fabiane buscou sua bíblia e foi até o trabalho do marido, que já havia saído: os dois se desencontraram. Passou no mercado onde a irmã trabalhava e comprou bananas. Seguiu para a casa das primas, também em Morrinhos, quando “teve o acontecido”, como descreve Jaílson.

Não há testemunhas que relatam o início das agressões —ou como um fósforo foi riscado onde as fake news já haviam espalhado gasolina.

Na versão que se tornou oficial, sem origem certa, a mulher ofereceu banana para uma criança. Os pais viram a cena e a acharam parecida com a tal “bruxa do Guarujá”.

Correram para avisar um rapaz de prontidão na biqueira, que já chegou batendo em Fabiane. Todos os depoimentos começam a partir daí, quando testemunhas e acusados se depararam com o linchamento já em curso.

Cinco homens foram condenados por morte de Fabiane

Cinco homens que participaram do linchamento foram condenados à pena máxima de 30 anos de reclusão cada. Foi também determinada uma indenização à família, de R$ 550 mil, que dificilmente será paga: pela condição financeira dos condenados, a multa foi classificada como “simbólica”.

Nos depoimentos, dois deles, Carlos e Abel, disseram não ter ouvido nada que associasse a mulher linchada aos boatos virtuais. Foi diferente com Lucas: “O povo comentou que era a mulher da internet, que era da página Guarujá Alerta”.

Com Jair: “Disseram que a mulher era a que tinha saído no Facebook, relacionada com magia negra”. E com Valmir: “O povo dizia que a história da moça ser sequestradora estava na internet”.

Cada um à sua maneira, eles se juntaram à horda —de homens, mulheres (grávidas) e até crianças— que atacava Fabiane, incapaz de se defender. O número de participantes certamente soma dezenas: porém se fala em centenas e até milhares, dependendo de quem conta a história. Em depoimento à polícia, uma testemunha calculou “mais de 3.000”. 

Valmir, hoje com 52 anos, deu uma paulada com uma viga na cabeça de Fabiane. Disse que não tinha a intenção de matar e que foi movido pela revolta. “Se eu soubesse que não era a sequestradora, jamais teria agredido”, afirmou em depoimento. 

Lucas, 23, aproximou-se da confusão com sua bicicleta. Quando viu a mulher deitada no chão, ergueu a roda da frente e bateu com o pneu em sua cabeça. Explicou que foi “um ato de emoção” e “não teve a intenção de matar”.

A dona de casa Fabiane Maria de Jesus, 33, sendo agredida após acusações de magia negra, em Guarujá (SP) - Reprodução

Com um fio de eletricidade encontrado na rua, amarrou os punhos da vítima para arrastá-la. Para isso, contou com a ajuda de Abel. Carlos, 28, chegou quando as pessoas gritavam “mata, mata”. Aproximou-se de Fabiane quando ela estava machucada e deitada com a cara no chão. Puxou os cabelos para ver seu rosto, que estava sangrando. Depois, bateu com a cabeça dela no chão.

Abel, 22, disse estar passando quando viu o tumulto e a mulher com os punhos já amarrados. Segurou o fio, segundo ele, esperando a polícia chegar. Negou a participação no crime e também negou ser a pessoa que aparecia em um vídeo, amarrando os braços da vítima. Sua mãe, no entanto, o reconheceu nas imagens.

Jair, 39, contou que ergueu a mulher para tirá-la dali, quando a ponte onde estavam cedeu e Fabiane caiu. Foi uma queda de meio metro, em um mangue. Naquele momento, afirmou, queriam colocar fogo na mulher, já muito machucada. Disse ainda que perguntou o nome de Fabiane e, quando ela respondeu,  tentou alertar as pessoas sobre a confusão. Por isso, disse, ele tomou um chute.

Uma viatura tentou chegar ao local do linchamento, mas foi impedida pela população. Voltou com reforço policial e também com uma equipe de resgate, que só puderam entrar na presença da imprensa, pois os moradores queriam registrar a captura da criminosa —um comentarista de segurança da TV Record foi até o local, onde fez uma gravação.

As câmeras dos celulares daquela multidão funcionaram durante toda a confusão no Morrinhos, permitindo posteriormente a identificação dos envolvidos. Os boatos que se espalharam com ajuda da internet levaram ao espancamento e à morte (reais) de uma mulher. E essas agressões físicas, nas ruas de Guarujá, foram depositadas também na internet, levando depois à prisão dos protagonistas.

Um agravante é que as imagens chegaram inclusive à família. Na volta do trabalho naquele sábado, quando se preparava para dormir, Jaílson recebeu um telefonema da prima, pedindo que fosse até sua casa. Foi lá, no computador dela, que o marido viu as fotos de sua mulher espancada —ele não sabe especificar em qual página. “Estava todo mundo em choque, sem querer acreditar no que via. Na hora eu reconheci”, diz o viúvo.

José Nildo Alvez mostra foto da cunhada, a dona de casa Fabiane Maria de Jesus - Joel Silva - 05.mai.2014/Folhapress

De maneira parecida, a sogra e a filha mais velha da vítima ficaram sabendo da tragédia. Uma vizinha bateu à porta, com celular em punho, perguntando se aquela mulher linchada das imagens era Fabiane. Maria de Jesus achou que não: a cor do cabelo da nora era outra. A garota então informou para a avó que havia produtos químicos na pia do banheiro de sua casa, indicando que sua mãe havia descolorido os fios. 

Fabiane foi levada para o Hospital Santo Amaro, onde ficou internada na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) durante duas noites. Ela morreu na manhã de segunda-feira sem nunca ter dado sua versão sobre aquilo que aconteceu.

UOL
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