Cidade de João de Deus tem queda de turistas, demissões e pousadas fechadas

Prisão de médium tem afugentado visitantes da pequena Abadiânia (GO), onde ele costumava atender

Natália Cancian
Abadiânia (GO)

Onde antes havia uma profusão de fiéis e turistas vestidos de branco, há ruas em grande parte vazias, lojas com anúncios de promoção e pousadas com portas fechadas.

A prisão do médium João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, tem afugentado visitantes da pequena Abadiânia, cidade no interior de Goiás onde o médium costumava realizar atendimentos espirituais.

Até então, o município recebia por mês cerca de 10 mil fiéis em busca de orações e cirurgias do “João curador” — número equivalente a quase metade do total de seus 19.614 habitantes.

Agora, a quantidade de visitantes é incerta. Desde a última semana, quando surgiram as primeiras denúncias de abuso sexual que teriam sido cometidos pelo médium, o número de turistas no local tem registrado forte queda.

Nesta semana, três dias após a prisão de João de Deus, ocorrida no domingo (16), o baixo movimento já levava pousadas a anteciparem recessos de fim de ano ou a fecharem temporariamente as portas.

Segundo o prefeito José Aparecido Diniz, em menos de dois dias, o município contabilizou ao menos 150 demissões, a maioria em comércios e pousadas que ficam “no lado da Casa” da cidade —termo usado comumente por moradores para chamar a parte do município, separado pela BR-060, onde fica a Casa Dom Inácio de Loyola, espécie de hospital espiritual criado pelo médium em 1976.

“Alguns que demitiram já pediram até para encerrar a firma”, relata o prefeito, que afirma ter feito a estimativa com base em um levantamento da prefeitura junto a escritórios de contabilidade.

Sem ter hóspedes nesta semana, o empresário Sérgio Abrantes, proprietário de uma pousada a quatro quadras da Casa Dom Inácio, acabou por antecipar o recesso a todos os funcionários.

“Trabalho sempre com 70% a 80% de ocupação. No fim do ano, o movimento já cai em alguns dias para 30%. Mas agora caiu ainda mais”, diz.

Uma situação que se repete em outros hotéis e pousadas. Em visita à região, a Folha contou ao menos três delas de portas fechadas ou com avisos de recesso.

Quem manteve o atendimento sentiu a queda de visitantes. Em uma pousada na avenida Frontal, rua onde fica o centro espiritual, o atendimento que chegava a 80 pessoas em dias normais ficou restrito nesta semana a apenas oito, que devem ir embora em breve.

“Também já estamos recebendo pedidos de cancelamentos para o próximo ano”, diz a funcionária Fabiana, que pede para não ter seu nome completo divulgado por receio de represálias.

Responsável pela administração da pousada, ela diz que, caso a queda não seja revertida, poderá haver demissões.

“Vamos segurar as pontas até o ano que vem. Se a situação não reagir, vou demitir cinco e ficar só com duas pessoas”, afirma.

Nesta quarta (19), lojas e restaurantes também ficaram vazios.

“Eu mesmo tive que demitir uma pessoa ontem [terça]. O movimento despencou, e não sabemos como vai ser depois”, diz Luiz Augusto Paranhos, dono de uma sorveteria a poucos metros da Casa Dom Inácio.

“Sem o seu João, é difícil recuperar o movimento como antes”, afirma ele, que acabou por desistir temporariamente de uma reforma que faria no local.

FUGA DE FIÉIS

Se nas pousadas a fuga de turistas já é evidente, no centro onde o médium João de Deus costumava atender às quartas, quintas e sextas-feiras, o impacto da crise é ainda maior.

Nesta quarta, primeiro dia de funcionamento após a prisão do líder religioso e de uma operação de busca e apreensão no local, a Folha contou cerca de 150 pessoas à espera para entrar na chamada "sala das entidades" pela manhã —número que diminuiu ainda mais no período da tarde.

Para comparação, em dias normais, funcionários dizem que o atendimento chegava a mil pessoas por dia.

A situação também afugentou brasileiros que costumavam vir em busca de atendimento espiritual. Voluntários e guias estimam que, do total de fiéis que estavam na casa nesta quarta, 90% sejam estrangeiros.

Irritados, alguns funcionários chegaram a bloquear a entrada de jornalistas na instituição pela manhã. Em seguida, o acesso foi liberado, mas fotografias foram vetadas. “Os gringos estão reclamando”, justificou um deles.

Diante do baixo movimento, uma voluntária anunciou ao microfone a distribuição gratuita de frascos com 80 comprimidos à base de passiflora, os quais costumam ser vendidos na casa por R$ 50. Ainda assim, poucas pessoas foram à farmácia do local buscar os produtos.

Um voluntário ouvido pela Folha, e que pede para não ser identificado, diz ter ficado assustado com as denúncias de abuso sexual.

“Quando tudo estourou, fiquei com uma sensação de medo e de culpa”, relata ele, que diz nunca ter suspeitado de possíveis abusos na instituição. 

Apesar das acusações, ele afirma que não deve abandonar as visitas à Casa Dom Inácio e que aguarda uma resposta da Justiça.

“Se você tem um hospital que tem um administrador ruim, você não troca o hospital, mas o administrador”, afirma. “Antes de João de Deus chegar, esse lugar já era um portal de curas.”

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