Confira ponto a ponto a versão de João de Deus para as acusações de que é alvo

Em depoimento à polícia, médium refutou relatos sobre abuso sexual e patrimônio

Fábio Fabrini
Goiânia

João Teixeira de Farias, conhecido como João de Deus, negou nesta semana em depoimento à Polícia Civil ter abusado sexualmente de mulheres durante seus atendimentos na casa dom Inácio de Loyola, espécie de hospital espiritual que ele fundou em Abadiânia (GO).

O médium foi questionado pela polícia sobre três supostas vítimas. Disse que o relato de uma delas não é verdadeiro e que nem sequer se recorda das outras duas.

João de Deus admitiu que fazia atendimentos individuais numa sala reservada, local que, segundo as denúncias, era usado para molestar as pacientes. Mas afirmou que o ambiente era visível ao público que estava do lado de fora. Ele sustentou que essas sessões ocorriam a pedido das próprias mulheres, e não a seu critério.

O médium está preso em Goiânia desde domingo (16) e vem sendo denunciado por um número crescente de mulheres. Mais de 500 enviaram relatos informais —ao menos 15 já prestaram depoimentos ao Ministério Público ou à Polícia Civil. As investigações estão em curso e, por ora, nenhuma denúncia foi oferecida contra ele.

Veja abaixo a versão dada por João de Deus à polícia sobre atendimentos, denúncias de abuso sexual e ocultação de patrimônio.

 

Casa dom Inácio

João de Deus afirma que a maioria dos atendimentos na casa dom Inácio, local em que faz cirurgias espirituais, ocorrem em ambientes coletivos. Disse que os frequentadores são dispostos numa sala. Ele fica numa segunda, a Sala do Equilíbrio, que comporta cerca de 200 pessoas sentadas. 

Atendimento individualizado

João de Deus afirma que os atendimentos individualizados ocorrem em uma sala, mas são exceção. Ele alega que a porta é transparente e que nunca a trancou, mas, em alguns casos, alguns pacientes já fizeram.

Há também duas janelas e, segundo o médium, uma sempre fica aberta. Por isso, diz ele, é possível ver de fora o que ocorre do lado de dentro. Eventuais abusos, portanto, seriam notados. O suspeito diz que os atendimentos individualizados não são feitos a seu critério, mas dos pacientes. 

Violações 

O médium negou ter molestado pacientes. Ele foi questionado sobre os casos de três supostas vítimas. Um deles, considerado o principal em investigação pela Polícia Civil, é o de uma mulher que sustenta ter sido levada para atendimento individualizado e massageada na região sob o ventre. Ela teria notado, em seguida, que o médium estava com o pênis de fora e deixou o local. 

João de Deus disse se lembrar desse atendimento, que ocorreu em 24 de outubro. Contou que a suposta vítima é administradora de um centro espírita que ele ajudou e, agora, ela pretende "assumir". Disse que a violação denunciada não é verdadeira. Afirmou que a mulher tem nível superior, "sabe o que está alegando" e cobrou um exame que prove o ocorrido. 

Os investigadores relataram as denúncias de outras duas mulheres, sobre supostos abusos mais antigos, mas o médium disse não se recordar delas.

Menores de 18 anos 

Também há denúncias de que o médium molestava mulheres com menos de 18 anos, entre elas a própria filha, Dalva Teixeira, que tinha entre 10 e 14 anos na época em que a violência teria ocorrido. Atualmente, ela tem 49.

João de Deus negou em depoimento que haja em seu centro de cirurgias espirituais abuso sexual de crianças e adolescentes.

Ameaças

O Ministério Público e a Polícia Civil já receberam centenas de relatos de abusos sexuais. João de Deus atribuiu a grande quantidade de denúncias apresentadas por mulheres nas últimas semanas a um suposto esquema para destruí-lo.

Ele diz ter recebido um telefonema em sua casa, não se recordando a data, e que um homem o teria ameaçado na ocasião: "Eu tenho 50 pessoas para acabar com você. Se você colocar 100, eu coloco 200. Se você aumentar isso, eu coloco mil. Eu vou acabar com você!", teria dito o interlocutor. 

O médium afirmou que o telefonema foi feito para o celular de um frequentador da casa dom Inácio de Loyola, do qual não se recorda o nome. Ele também contou, sem dar mais detalhes, que uma mulher do Rio de Janeiro lhe disse ter recebido proposta de uma TV para acabar com ele. 

Conta bancária

A movimentação de R$ 35 milhões em contas atribuídas ao médium, após o escândalo vir à tona, levantaram suspeitas de que João de Deus tentava ocultar patrimônio e preparava uma fuga. Por isso, o Ministério Público acelerou o pedido de prisão do médium.

João de Deus alega desconhecer essa movimentação, pois "apenas pagou alguns funcionários com cheques nominais".  "Não tem esse negócio de milhões", declarou.

Tratamentos

Os pacientes que procuram a casa dom Inácio de Loyola recebem atendimento espiritual, mas, segundo João de Deus contou em seu depoimento, eles são orientados a não interromper os tratamentos convencionais, com médicos. São prescritos "medicamentos" fabricados no próprio centro espírita.

"Os frequentadores não sofrem coação para adquirir os remédios e também existe auxílio a frequentadores sem condições financeiras", disse ele. 

O médium sustenta que quem faz as cirurgias é Deus. Alega que já usou a técnica de incisão, mas não mais. Nunca ninguém morreu, segundo ele, em decorrência dos atendimentos.

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