João de Deus reaparece após denúncias, promete cumprir a lei e afirma ser inocente

Médium só ficou por 10 minutos na casa onde faz cirurgias espirituais, em Abadiânia (GO)

Natália Cancian
Abadiânia

O médium João Teixeira de Faria, 76, conhecido internacionalmente como João de Deus e “John of God”, apareceu pela primeira vez nesta quarta-feira (12) após terem vindo à tona, no final de semana, as primeiras denúncias de abuso sexual contra ele. 

Ele chegou por volta das 9h30 à Casa Dom Inácio de Loyola, espécie de hospital espiritual criado por ele em Abadiânia, no interior de Goiás. O médium foi levado para uma sala ampla onde fiéis o esperavam. Lá, sob aplausos, cumprimentou o público e disse que "queria cumprir a lei brasileira".

"Agradeço a Deus por estar aqui. Ainda sou irmão de Deus. Quero cumprir a lei brasileira. Estou nas mãos da lei. João de Deus ainda está vivo", afirmou a fiéis. Na saída, que ocorreu menos de dez minutos após chegar ao local, afirmou a jornalistas que era inocente.

João de Deus aparece pela primeira vez após denúncias de assédio
João de Deus aparece pela primeira vez após denúncias de assédio - Walterson Rosa/Folhapress

A visita do médium ao local foi marcada por grande alvoroço. Ao vê-lo, alguns fiéis começaram a bater palmas. Outros reclamavam da presença da imprensa. "Respeitem meu pai", disse uma voluntária.

João de Deus nega todas as acusações. Em um primeiro momento, 12 mulheres fizeram seus relatos ao programa Conversa com Bial e ao jornal O Globo. Desde então, o número de denúncias cresce a cada dia, situação que levou o Ministério Público de Goiás a anunciar uma força-tarefa para receber relatos e depoimentos em parceria com outros estados. 

Nesta quarta-feira, por volta das 6h50, a fila para entrar na "sala das correntes", onde pacientes vestidos de branco que já frequentam a casa ficam em oração e fazem meditação, já atravessava toda a área principal da casa.

Caixas de som tocavam músicas religiosas, como Ave-Maria, enquanto televisores mostravam imagens de cirurgias espirituais com cortes físicos feitos no passado por João de Deus. Às 8h, todas as cadeiras do espaço já estavam ocupadas. Voluntários do local ouvidos pela Folha, porém, apontam que o número de visitantes nesta quarta estava ao menos 50% a 70% menor. Pacientes também evitavam falar com a imprensa que se acumulava junto à recepção à espera do médium. "Vamos esperar uma orientação para saber se podemos falar", justificou uma delas à Folha.

Outros pedem para não serem identificados. Pela terceira vez em Abadiânia, uma americana disse à reportagem que, apesar de ouvir os relatos de abuso sexual envolvendo o médium, pretende manter as visitas. "Sinto que este lugar é especial", afirma. "O futuro vai nos dizer a verdade."

A técnica de enfermagem Berenice Alves, 60, era uma das fiéis que esperavam pelo médium na manhã desta quarta. Moradora de Barão de Grajaú, no Maranhão, ela veio para Abadiânia pela primeira vez há seis anos em busca de cura espiritual para enxaqueca. "Ele disse para mim: você vai ficar boa. E hoje não sinto nada", diz. Desde então, visita o local ao menos duas vezes ao ano. "Fico na gratidão de vir." 

Para ela, as acusações preocupam. "Tenho muita fé nele. Muita gente dava exemplo de que dava certo. Se a minha dor voltar e ele não estiver aqui, como fica? É muito triste essa situação." 

Dentro da casa, a orientação era que voluntários e guias evitassem comentar os casos. "Isso não favorece sua cura", dizia uma atendente a quem perguntava sobre a situação da Casa diante das denúncias.

Os relatos alteraram a rotina em Abadiânia, cidade cuja economia gira em torno do hospital espiritual. Donos de pousadas relatam cancelamentos, a maioria de brasileiros. Só nesta semana, em uma delas, 40 pessoas desistiram das reservas.

TUMULTO

Inicialmente, voluntários da Casa Dom Inácio anunciaram que o médium falaria com a imprensa e atenderia normalmente nesta quarta. Assim que ele deixou a sala, no entanto, parte da equipe de João de Deus e alguns fiéis passaram a empurrar cinegrafistas e jornalistas que tentavam acompanhá-lo

Alguns desferiram socos e pontapés. Em meio à confusão, o médium deixou o local menos de dez minutos após a chegada. A assessora de imprensa da instituição, Edna Gomes, afirma que o médium teve uma alteração na pressão e se sentiu mal após entrar na casa. Ainda não há previsão de retorno. 

"Apesar disso, ele está sereno e aberto para que a Justiça apure todos os fatos. Ele está pronto para falar e para ir à Justiça. As denúncias são seriíssimas e devem ser apuradas, e não ficar em programas de entretenimento", afirmou. 

Desde que iniciou a força-tarefa para receber os relatos, no entanto, Promotoria afirma ter feito ao menos 206 atendimentos de mulheres que se identificam como vítimas de abuso sexual por João de Deus. 

Em comum, a maioria delas diz que receberam um aviso de “procurar o médium João” em seu escritório ao fim das sessões em que ele atende aos fiéis. No local, relatam as vítimas, João de Deus dizia que elas precisavam de uma “limpeza espiritual” antes de abusar delas sexualmente. Aline Saleh, 29, contou sua história à Folha: "Quem tem de sentir vergonha é ele, e não eu." 

O promotor Luciano Miranda Meireles afirmou que os depoimentos podem ser o único meio de comprovar as acusações, já que crimes como o de estupro não ocorrem à luz do dia nem têm testemunhas.

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