Covas busca marca própria para sua gestão após ano com crise e tragédia

Em oito meses no cargo, prefeito de SP passou por desabamento de prédio e viaduto que cedeu

Artur Rodrigues Guilherme Seto
São Paulo

O prefeito Bruno Covas (PSDB) não havia completado nem um mês no cargo quando um prédio de 24 andares invadido por sem-teto desabou, deixando sete mortos no feriado de 1º de maio.

O caso envolveu meses de polêmicas relacionadas à população desabrigada, que passou a viver em barracas no largo do Paissandu e afetou a rotina no centro de São Paulo.

Desde que assumiu a prefeitura, após a saída de João Doria (PSDB) para a disputa eleitoral ao governo paulista, Covas passou mais de oito meses tentando gerenciar crises, sem conseguir imprimir uma marca à sua gestão.

Além da tragédia do Paissandu, seu período no cargo foi marcado pela ruptura de um viaduto da marginal Pinheiros, que levou à interdição da via desde novembro, e pelos impactos da greve dos caminhoneiros, que quase sufocou a metrópole no meio do ano.

Ao mesmo tempo, Covas adotou um estilo discreto, parcialmente devido ao acordo com Doria de não mexer nas estruturas deixadas por ele até o fim do período eleitoral, para não gerar desgastes que pudessem afetar o tucano durante a campanha.

Terminado esse período, e com a eleição de Doria ao Governo de São Paulo, Covas tentará nos próximos dois anos dar uma cara própria à gestão —a começar pelas mudanças recentes no secretariado.

Já saíram nomes como Wilson Poit (Desestatização), Paulo Uebel (Gestão) e Caio Megale (Fazenda), que tiveram trajetórias na iniciativa privada como Doria, e entraram Mauro Ricardo (Governo), Philippe Duchateau (Fazenda) e Rogério Ceron (Desestatização), com passagens prévias pela administração pública —e chamados internamente de “cabeças brancas”.

A rotina de Covas é bem menos midiática do que a de Doria, que rejeitava o rótulo de “político” e anunciava programas novos e com slogans diferentes com grande frequência. Por outro lado, o atual prefeito dá mais a cara a bater em situações em que pode sofrer cobranças da imprensa e da opinião pública.

Em 15 de novembro, quando um viaduto de 200 metros cedeu na marginal Pinheiros, Covas apareceu no local, deu entrevista e voltou a prestar contas outras vezes —as obras vão se estender até maio de 2019, complicando o trânsito.

A Promotoria aponta que seguidas gestões municipais ignoraram as cobranças para obras de manutenção de pontes e viadutos —e Covas se tornou alvo de inquérito por ter usado só 5% dos recursos para essa finalidade neste ano.

A partir disso, o prefeito passou a encampar um amplo programa de recuperação dos viadutos e pontes —programa que não costuma ter grande visibilidade eleitoral.

“Muito do que o prefeito tem por fazer não vai aparecer aos olhos do público. Viaduto só aparece quando cai”, diz o cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV (Fundação Getulio Vargas). “O desafio dele é criar uma marca.”

Entre os problemas a serem enfrentados por Covas, aponta Teixeira, está a questão social —área que costuma ser lembrada pelo prefeito como sua prioridade. “Há uma proliferação de moradores de rua vista a olho nu, o que mostra que a política de população de rua fracassou ou inexiste.”

A criação de uma identidade política da gestão desponta como problema no horizonte de Covas, que pretende disputar a reeleição em 2020.

Para o vereador Eduardo Tuma (PSDB), que foi secretário da Casa Civil de Covas e que será presidente da Câmara Municipal a partir de 2019, o prefeito estabelecerá sua marca a partir de dois grandes projetos que tenta implantar na sua administração: a reforma da previdência dos servidores e as mudanças na lei de uso e ocupação do solo.

Os dois exemplos, porém, têm visibilidade política restrita e potencial de desgaste.

“À semelhança do [presidente eleito, Jair] Bolsonaro, ele será conhecido como o prefeito da reforma da previdência. E vai ser o prefeito que vai colocar a cidade de volta nos trilhos do crescimento. Vai permitir o adensamento nos bairros por meio de mudanças na lei de uso e ocupação do solo, que é o que a cidade demanda”, afirma Tuma.

Aprovada em primeira votação na Câmara na semana passada e devendo passar pela segunda votação nesta semana, a reforma da previdência, que prevê aumento de alíquota de 11% para 14% para os servidores municipais, liberaria recursos de R$ 370 milhões por ano para investimentos por parte da prefeitura.

Já as mudanças na lei de uso e ocupação do solo incluem a possibilidade de acabar com limite de altura de prédios em ruas pouco movimentadas — e devem ser votadas pelos vereadores em 2019.

“O Bruno não é só governante, ele é estadista. Ele não se precipitou [nas crises], também não criou falsas expectativas. Ele fez exatamente o que falou. Isso é uma marca dele. Ele é político. Não tem tanto apelo de mídia, mas tem apelo de trabalho, de gestão. É um político nato”, afirma.

Além desses dois projetos, Covas tentará concluir os processos de privatização e concessão, anunciados com pompa por Doria e que até agora ainda não renderam resultado.

As concessões do primeiro pacote de parques (incluindo o Ibirapuera), do estádio do Pacaembu e a venda do Anhembi são os processos mais próximos de conclusão atualmente.

Entre a oposição, a crítica que se faz é sobre uma suposta sensação de ausência do prefeito na capital paulista. “Não sabe para onde a cidade vai. Não tem plano de obras, de manutenção, é uma cidade estagnada”, afirma o vereador Antonio Donato, líder do PT na Câmara Municipal.

Entre as bandeiras frustradas da gestão citadas pelo PT, contrário a este tipo de solução, está o pacote de privatizações. “Era a grande bandeira do Doria. Mas a desestatização não andou, tanto que o Covas acabou com a secretaria de Desestatização. Qual é o sinal que está dando? É prioridade ou não é?”

Oito meses de gestão Bruno Covas (PSDB)

– Posse: Em 9 de abril, Bruno Covas (PSDB) assume a prefeitura no lugar de João Doria (PSDB), que sai para concorrer ao governo estadual. Parte do secretariado sai também

–  Incêndio: Em 1º de maio, prédio Wilton Paes de Almeida, no centro, pega fogo e desaba, matando ao menos sete pessoas. O gerenciamento da situação dos desabrigados, que ocuparam o largo do Paissandu, durou meses

–  Greve dos caminhoneiros: Em 21 de maio tem início a greve dos caminhoneiros, com transtornos para a cidade

–  Campanha: Em 16 de agosto, começa a campanha eleitoral. Covas coordena a campanha presidencial de Geraldo Alckmin (PSDB) no estado, onde o ex-governador sairia derrotado

–  Viaduto: Em 15 de novembro, viaduto na marginal Pinheiros cede. Reforma acabará só em maio de 2019. Covas é alvo de inquérito por falta de investimento na área e encampa bandeira de segurança em pontes e viadutos

–  PPP: Em 11 de dezembro, Tribunal de Justiça anula PPP de R$ 7 bilhões da iluminação, o que obrigará prefeitura a fazer novo processo

METAS PARA 2019


–   Implantar reforma da previdência: Aprovada em primeira votação na Câmara Municipal, a reforma da previdência pode passar em segunda votação nesta semana e terá que ser estruturada pela gestão Covas, que prevê cerca de R$ 370 milhões a mais de recursos por ano devido ao aumento de alíquota de 11% para 14% e à implementação de uma previdência complementar

–   Aprovar mudanças na lei de uso e ocupação do solo: O projeto ainda precisa ser concluído pela prefeitura e enviado para votação na Câmara, o que Covas espera que aconteça ainda em 2019. Entre as principais propostas está a possibilidade de acabar com limite de altura de prédios em ruas pouco movimentadas. Atualmente, o limite é de 28 metros —o que corresponde a cerca de oito andares— em vias no miolo dos bairros e afastadas dos eixos de transporte público. A medida afetaria bairros de perfil mais horizontal, com predominância de casas, como a Vila Mariana e a Aclimação

–   Concluir concessões e privatizações: Nenhum projeto do pacote de concessões e privatizações anunciado por Doria foi concluído. Covas reagiu com tranquilidade a intervenções do governador Márcio França (PSB) e do Tribunal de Contas do Município em 2018 e projeta pelo menos as concessões do primeiro pacote de parques (que inclui o Ibirapuera), do estádio do Pacaembu, do mercado de Santo Amaro e do terminal Princesa Isabel no ano que vem, além das vendas do complexo do Anhembi e do autódromo de Interlagos

–   Criar marca própria da gestão: Tendo em vista a reeleição em 2020, o tucano busca identidade para que o eleitor se lembre dele. Para aliados, o prefeito deve se consolidar como aquele que deu estabilidade econômica à cidade com a reforma da previdência, mudanças na lei de zoneamento e concessões e vendas de equipamentos públicos

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