Mulher diz ter sofrido ameaça após ver abuso sexual de médium João de Deus

Americana Amy Biank frequentou casa que recebe fiéis durante 6 anos; ele é acusado por 13 mulheres

Phillippe Watanabe
São Paulo

A guia turística americana Amy Biank afirma ter presenciado uma tentativa de estupro pelo médium João de Deus, que é acusado de agressão sexual por pelo menos 13 mulheres

O caso foi revelado neste sábado (8) pelo jornal O Globo e pelo programa Conversa com Bial, da TV Globo.

Amy frequentou a Casa de Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia, Goiás, comandada por João de Deus, entre 2002 e 2008. Ela vive em Illinois, nos Estados Unidos, e costuma levar pessoas para fazer turismo esotérico. As visitas ao local duravam cerca de duas semanas, segundo Amy.

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Amy Biank conta que tentou denunciar abusos do médium João de Deu, mas foi ameaçada - Reprodução/TV Globo

Ela conta que em uma das visitas presenciou uma agressão sexual de João de Deus. “É um lugar que nunca foi sagrado e nunca foi de Deus”, diz. “Uma garota que estava comigo estava muito doente. Eu a deixei entrar [no escritório de João]. Quando ela gritou, eu entrei perguntando o que estava acontecendo. Eu o vi com o pênis para fora, com uma toalha sobre o ombro”, diz Amy.

“Ele mandou eu me sentar e fechar meus olhos. É engraçado, porque eu fiz. Você se torna um pouco parte de um culto”, diz. “Mas, porque eu estava lá, ele virou e falou que ela tinha passado no teste, que ela era uma pessoa boa.”

Após o ocorrido, João de Deus teria ido até a pousada onde Amy estava. “Ele olhou para mim e disse: ‘eu sou só um homem. No Brasil, o que acontece entre quatro paredes não é da conta de ninguém’”, afirma a americana.

Amy diz que estava andando pela cidade quando uma das pessoas que dirigia a Casa de Dom Inácio a ameaçou. “Ele falou que eu deveria ir embora imediatamente, que pessoas como eu constantemente desapareciam no Brasil. E que era perigoso eu ficar ali.”

A guia turística começou, então, a conversar com algumas das pessoas que trabalhavam na casa, incentivando que nenhuma mulher ficasse sozinha com o médium. 

Em uma dessas conversas, ela diz que uma mulher que trabalhava no local teria começado a chorar. “Ela disse que uma menina pequena, cinco, seis ou sete, saiu da sala [de João] e ele pediu para limpar a boca da criança porque tinha ectoplasma. E para dar a ela uma refeição especial.”

Não era incomum, ela diz, levarem crianças e ficarem esperando do lado de fora do escritório de João. 

“Eu vi uma vez uma garota muito bonita, talvez com 8, 9 anos, incrivelmente bonita. Um dos trabalhadores da Casa foi até a mãe da garota (a criança estava brincando, se divertindo), e disse: ‘Não deixe ela ficar sozinha com o João’. Eu fiquei me perguntando o que estava acontecendo.”

Amy alertou em 2008 em um blog sobre o comportamento de João de Deus. Em seu comentário, ela diz: “João tem uma grande energia sexual? Sim. Ele tirou vantagem de sua posição de curandeiro para seduzir mulheres e meninas para que permitam que ele tome liberdades sexuais? Sim”.

Internacionalmente conhecido, João de Deus já recebeu, em Abadiânia, pessoas como a apresentadora americana de TV Oprah Winfrey, o ex-jogador Ronaldo Nazário e a artista plástica Marina Abramovic. O presidente Michel Temer (MDB) recebeu um passe do médium na véspera da delação de Joesley Batista. E o ministro do STF Luís Roberto Barroso, também já se disse admirador de João de Deus. 

O programa Conversa com Bial e o jornal carioca O Globo entrevistaram, ao todo, 13 mulheres que afirmam ter sido abusadas pelo médium.

Camila Appel —redatora do programa da TV Globo e autora do blog Morte sem Tabu, na Folha—, e Pedro Bial entrevistaram dez mulheres, mas foram mostrados somente quatro depoimentos. Amy esteve presente e contou sobre o seu caso. O Globo ouviu três outras pessoas.

Os depoimentos a Bial são de três brasileiras que pediram para não serem identificadas e da coreógrafa holandesa Zahira Lieneke Mous, a única que aceitou mostrar o rosto.

Zahira contou que conheceu a casa em Abadiânia em 2014, quando buscava a cura para o trauma de ter sofrido abusos sexuais no passado. 

Na segunda visita à casa, foi informada que teria uma consulta particular com o médium. Nervosa e chorando, a coreógrafa contou que ficou sozinha com João de Deus e que ele perguntou porque ela estava ali. Em seguida, cheirou Zahira e pediu para que ela ficasse de costas, conduzindo-a para um banheiro.

O médium teria colocado as mãos dela no pênis dele e fez com que elas se movimentassem. Após o abuso, abriu um armário com pedras preciosas e pediu para ela escolher uma. Em seguida, foi levada novamente ao banheiro e João de Deus teria a penetrado.

Consultas individuais perpassam as histórias contadas. Outro ponto comum era o oferecimento de presentes —cristais— após os supostos abusos.

A Folha tentou contato por telefone, Whatsapp e email com a assessoria de João de Deus durante todo o sábado, mas não obteve resposta até a conclusão desta edição. 

Em nota enviada ao Conversa com Bial, a assessoria de imprensa do médium afirmou: “Há 44 anos, João de Deus atende milhares de pessoas em Abadiânia, praticando o bem por meio de tratamentos espirituais. Apesar de não ter sido informado dos detalhes da reportagem, ele rechaça veementemente qualquer prática imprópria em seus atendimentos”.

Ao O Globo, a assessoria disse que as acusações são “falsas e fantasiosas” e questiona por que as vítimas não procuraram as autoridades. Ainda diz que a situação é “lamentável, uma vez que o médium é uma pessoa de índole ilibada”.

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