Também ferida na catedral, mãe acompanha enterro de filho dentro de ambulância

Garçom de 38 anos foi um dos cinco mortos no ataque do atirador de Campinas

Thiago Amâncio Guilherme Botacini
Campinas

Em um cortejo silencioso, 13 pessoas acompanharam nesta quarta-feira (12) em Campinas (SP) o enterro do garçom Cristofer Gonçalves dos Santos, 38, um dos cinco mortos no ataque do atirador da catedral, um dia antes, na cidade.

Sem condições financeiras para um deslocamento às pressas para o interior paulista, a mãe e a irmã de Cristofer, que vivem no interior de Santa Catarina, não participaram do sepultamento. O rapaz foi velado pelo primo Christian dos Santos, que o levou a Campinas 15 anos atrás.

"A gente entra na igreja para buscar acalento, segurança. Não para buscar morto", disse a professora Fernanda Ribeiro, mulher de Christian.

Ao mesmo tempo, em outro cemitério, ocorreu o enterro de Sidnei Vitor Monteiro, 39. Sua mãe, Jandira Prado Nogueira, 65, foi ferida durante o ataque. Ela recebeu alta nesta quarta-feira e acompanhou o sepultamento do filho de dentro de uma ambulância. "Vai com Deus, meu filho", disse, enquanto o longo cortejo com familiares, amigos e colegas de trabalho passava diante da ambulância.

O pai de Sidnei, Milton Candido Monteiro, após salvas de palmas e orações, disse que não desejava que ninguém passasse, como ele neste momento, pela perda de um filho. O irmão, Silvio Monteiro, emocionado após a descida do caixão, despediu-se de Sidnei e colocou no túmulo a bandeira do Corinthians --o tempo todo em cima do caixão. Ao final, mais uma salva de palmas.

Sidnei morava em Hortolândia (SP), cidade vizinha a Campinas, havia 32 anos. Era auxiliar no setor de manutenção da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, onde era conhecido por animar os colegas.

"Onde ia gostavam dele. Ajudava quem precisava, estava sempre animado", disse Renato Benetti, colega de Sidnei. Fanático pelo Corinthians, entrava nas brincadeiras sobre futebol e fazia pirraça com colegas e familiares.

De família muito religiosa, frequentava a igreja em Hortolândia e foi à catedral de Campinas com a mãe, Jandira, acompanhá-la antes de um tratamento dentário.

Aplausos e choque

Também sob forte choro dos dois filhos, o aposentado José Eudes Gonzaga Ferreira, 68, foi enterrado às 15h15. A mulher, Maria de Fátima Frazão Ferreira, 68, com quem ele estava na missa, acompanhou o cortejo de cadeira de rodas e manteve a calma. Ela foi baleada na perna e teve alta no mesmo dia (ainda carrega o projétil).

Dezenas de familiares e amigos rezaram e aplaudiram quando o corpo foi enterrado. Os filhos, em choque, foram amparados por parentes.

José Eudes nasceu em Tinguá, no interior do Ceará, e morava em Campinas havia mais de três décadas. Agora aposentado, trabalhou como vendedor por toda a vida.

Tinha um ritual com a mulher: quando caía o dinheiro da aposentadoria, iam ao banco no centro da cidade e depois passavam na catedral para agradecer. Neste dia, resolveram ir à igreja antes de irem ao banco. Ele deixa dois filhos --um terceiro, caçula, morreu aos 12 anos.

Além de Cristofer, Sidnei e Eudes morreram Eupidio Alves Coutinho, 67, e Heleno Severo Alves, 84.

Comoção e despedida

O enterro de Elpídio Alves Coutinho, 67, ocorreu por volta das 16h20 no Ceniterio Municipal de Monte Mor (SP). 

Sob um sol forte, amigos e familiares presentes fizeram orações e cantaram. Aos poucos, os que prestavam homenagens foram buscando abrigo sob sombras de árvores e se despedindo da família de Elpídio.

Elpídio nasceu em Montes Claros (MG) e foi a São Paulo aos 16. Trabalhou 37 anos como motorista de ônibus na capital e, ao se aposentar, mudou-se para Monte Mor, na Região Metropolitana de Campinas.

Casado com Zilda Alves Coutinho, que estava na igreja, deixa um filho e um enteado. Bastante conhecido no bairro Jardim São Domingos, Elpídio cantava no coral da igreja do bairro e participava ativamente da comunidade.

Frequentava um clube "da melhor idade" com sua esposa, onde dançavam e faziam ginástica. Preparava-se para uma viagem à terra natal —de onde veio um ônibus de familiares para o velório— e foi a Campinas para comprar as passagens.

Como eram de costume as orações, parou na Catedral de Campinas com a esposa, quando o ataque aconteceu.

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