Descrição de chapéu Alalaô

Inchados e sem verba, blocos no Rio pedem financiamento

Modelo da prefeitura privilegia patrocínio a empresa que organiza evento

Rio de Janeiro

Os recursos destinados ao carnaval de rua no Rio de Janeiro não estão acompanhando o crescimento do evento, afirmam organizadores de blocos pela cidade.

Em 2017, 1,1 milhão de turistas esteve na cidade para os cinco dias de folia. No ano passado, foi 1,5 milhão. Embora estime-se que o número neste ano se mantenha, a prefeitura espera que o total de foliões –incluindo os locais– na cidade chegue a sete milhões, ou 500 mil pessoas a mais do que em 2018.

Foliões durante desfile do bloco Céu na Terra, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro (RJ), na manhã deste sábado (23)
Foliões durante desfile do bloco Céu na Terra, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro (RJ), na manhã deste sábado (23) - Jose Lucena/Futura Press/Folhapress

Inchados, os blocos buscam manter sua estrutura básica, mas não veem os meios de financiamento na cidade, em crise, acompanhar os foliões.

Apesar de haver mais gente festejando nas ruas, a prefeitura do Rio reduziu as autorizações para blocos de 608 no ano passado para 498 e remanejou os maiores blocos para o centro. A medida visa reduzir problemas dispersos, mas tem como efeito engordar os blocos mais conhecidos.

A organização e a captação de fundos para a festa nas ruas, diferentemente do desfile na Sapucaí, é terceirizada.

O modelo criado na gestão de Eduardo Paes (então MDB, hoje DEM) prevê que o município contrate por licitação uma produtora de eventos para coordenar o trânsito, cuidar do lixo e contratar ambulâncias. Em troca, a produtora ganha o direito de negociar verbas de patrocínio. 

Desde que o modelo foi implantado, em 2011, a empresa Dream Factory venceu todas as licitações. Neste ano, o valor do contrato aumentou R$ 1 milhão em relação a 2018, chegando a R$ 26 milhões. Mas não contempla todos os serviços necessários. 

Uma portaria da RioTur (agência municipal responsável pela organização do evento) publicada no fim de 2018 determinou que blocos com mais de 5.000 foliões banquem equipes médicas nos locais de festa –uma UTI móvel e equipes de socorristas.

A exigência levou blocos tradicionais, como o Simpatia É Quase Amor, que sai em Ipanema, a considerar não desfilar.

Depois de quase três meses de debate com a prefeitura, a questão foi pacificada quando o Ministério Público e os Bombeiros intervieram, e a Dream Factory assumiu o ônus.

Para se bancar, os blocos têm usado vaquinhas virtuais, promovido shows e oficinas de percussão ao longo do ano, vendido camisetas, cobrado anuidade dos músicos e buscado patrocínio com ajuda de leis de incentivo fiscal. 

Tudo isso, porém, é limitado pela crise e pelo fato de a maioria dos blocos não ter estrutura de produção cultural.

"São dentistas, advogados, servidores públicos, pessoas comuns que no período de Carnaval viram produtores culturais para colocar seus blocos de pé. Não temos a capacidade de passar o ano todo buscando investimento", observa Rodrigo Rezende, presidente da Liga dos Amigos do Zé Pereira, que reúne Orquestra Voadora, Céu na Terra e Toca Rauuul, entre outros.

Segundo Rezende, a falta de verbas prejudica a experiência do público. A Orquestra Voadora, que reúne até 150 mil foliões, por exemplo, tem apenas um carro de som e 300 ritmistas, o que impede quem não está ao lado do trio elétrico de ouvir a música.

O ideal, para os organizadores do cortejo, seria ter o dobro de ritmistas e três carros de som, ou uma estrutura de caixas de som para amplificar os instrumentos e reduzir a concentração do público.

A obtenção de patrocínio, contudo, fica à mercê do modelo de organização do Carnaval, com a mesma empresa responsável pela logística da festa e por negociar as cotas.

"Se você é uma empresa e quer expor sua marca, dificilmente vai querer patrocinar um bloco diretamente, porque provavelmente seu banner ficará menor do que o das patrocinadoras oficiais". "Isso força as empresas a oferecerem patrocínio à produtora oficial." ​

Devido à importância que o Carnaval de rua alcançou, os organizadores de blocos pleiteiam da prefeitura um fundo de financiamento ou um edital de apoio via lei de incentivo. 

Os cortejos arcariam com equipamento de som e músicos, e as atuais formas de financiamento poderiam se tornar secundárias para melhorar a estrutura. 

O debate, porém, ficou de escanteio sob o governo Marcelo Crivella (PRB), que declaradamente não é fã da festa.

"Hoje o Carnaval de rua é o principal chamariz de turistas para o Rio nesse período. Nada mais justo do que receber alguma verba oficial, como as escolas de samba, para garantir que os blocos grandes continuem a atender bem o público e que os menores não acabem", afirma Rezende.

Foi por falta de recursos que o tradicional Timoneiros da Viola, comandado pelo sambista Paulinho da Viola, deixou de desfilar em 2018. 

O bloco, que sai na zona norte, voltará neste ano, apesar da dificuldade em obter patrocínio para um cortejo fora do circuito centro-zona sul.

Mesmo o Desliga da Justiça, que se apresenta há dez anos no bairro da Gávea e cobra dos cerca de cem músicos anuidade, precisa fazer apresentações ao longo do ano com uma versão reduzida para cobrir gastos com tenda de água, segurança e trio elétrico. "A gente está sempre no limite", diz o vocalista Celso Chagas.

Cristina Cury, presidente da liga de blocos Coreto, diz que as autoridades enxergam os blocos como algo menor. "Mas eles não são. São expressões espontâneas da sociedade. Precisamos de ajuda para manter a qualidade."

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