Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Nova fase de buscas na lama tem pente-fino em área afetada

Bombeiros vão esquadrinhar território com auxílio de mais máquinas pesadas

Fabrício Lobel Júlia Barbon
Brumadinho (MG)

Após uma manhã chuvosa em Brumadinho (MG) nesta segunda (4), os bombeiros aproveitaram a melhora do tempo à tarde para avançar em uma nova fase das buscas pelos cerca de 200 desaparecidos do rompimento da barragem da Vale —o número de mortos chegou a 134.

Com uma nova metodologia e mais máquinas pesadas, a nova fase promete ser um verdadeiro pente-fino na área devastada. Em compensação, a descoberta de novos corpos tende a ser mais lenta a cada dia, diante do novo patamar de dificuldade da operação.

Sob a chuva, as ações dos bombeiros foram dificultadas em meio à lama. Parte do efetivo foi deslocada para buscas no leito do rio Paraopeba, para onde a lama seguiu e onde foram encontrados três fragmentos de corpos na quinta (31) e no sábado (2).

Bombeiros fazem busca no rio Paraopeba na manhã chuvosa desta segunda - Eduardo Anizelli/Folhapress

À tarde, com o tempo mais seco, os bombeiros retomaram as buscas sob a nova fase.

Segundo o comando da operação, a primeira fase da busca, de varredura da superfície da lama, pode ter sido esgotada. A exceção é no entorno do vestiário da mineradora, onde foram encontrados três corpos no domingo (3).

O objetivo da mudança, promete a corporação, é "vistoriar cada metro quadrado da área atingida". A região compreende 3,96 quilômetros quadrados (equivalente a mais de dois parques Ibirapuera).

A estratégia agora é dividir a região afetada em 44 quadrantes. Cada um deles, com área equivalente a quatro quarteirões, é ainda subdividido, orientando o trabalho específico de cada uma das equipes.

Como cada grupo carrega equipamentos de geolocalização, é possível acompanhar a evolução dos trabalhos e se certificar de que nenhum trecho deixou de ser vistoriado. Os bombeiros dizem que toda a área já havia sido vasculhada, mas não com este nível de detalhamento.

Parte dos trabalhos segue como anteriormente. Em áreas mais úmidas, bombeiros avançam rastejando sobre a lama, o que evita que afundem. Tapumes servem de plataforma sobre a lama, que em alguns pontos chega a ter 20 metros de profundidade.

Outra técnica usada é fazer perfurações na lama para que o possível odor de corpos soterrados seja identificado por cães farejadores.

As perfurações também podem identificar construções ou veículos soterrados, que podem ter barrado o avanço de corpos levados pela onda e ter sido a tentativa de último refúgio de quem viu a massa de rejeitos se aproximando.

A área atingida tem 281 edificações catalogadas, com a função de cada uma delas (se eram lojas, residências etc.). Ainda assim, muitas construções foram arrancadas de seu local original, tornando mais difícil a localização.

Se algo do tipo for identificado, é iniciada uma escavação. O trabalho é feito em grande parte com as mãos e pás. Quando há a possibilidade de se levar água, pode-se tentar uma mangueira com alta pressão para facilitar e acelerar a escavação.

Bombeiros dizem já ter ficado até um dia inteiro escavando o entorno de um carro que emitia um sinal de GPS. Ao final, descobriram que o veículo estava vazio.

Enquanto escavam, bombeiros têm de fazer o escoramento da lama, para que não haja acidentes. Esse é um dos motivos pelos quais atuar sob chuva é perigoso.

Desde sexta (1º), são feitos também trabalhos com máquinas como escavadeiras nas margens da região atingida, onde os rejeitos são mais secos e rasos. O número de máquinas do tipo tem crescido diariamente e chegou a 12.

A nova fase de buscas utilizará as escavadeiras para recolher grandes porções de lama e espalhá-las em outro local, para analisar se há corpos inteiros ou fragmentados.

Cada corpo encontrado tem sua posição registrada. Depois que a vítima é identificada, os bombeiros buscam entender qual era a posição mais provável da pessoa no momento da ruptura da barragem.

Assim, as equipes descobriram que corpos foram arrastados a distâncias de 200 metros a 1 km. Segundo modelos matemáticos prévios da própria Vale, o fluxo de rejeitos correndo pelo pé da barragem pode ter chegado a 45 milhões de litros por segundo. Outra dificuldade das buscas é o fato de que todos os objetos na lama ficam da mesma cor.

Ansiosa por respostas, a população de Brumadinho pressiona as autoridades para fazerem buscas por conta própria. Um cerco dos militares, porém, impedia a permanência de civis na área quente que não estivessem sob a coordenação dos bombeiros.

"A gente não precisa entrar na lama, só de buscar no entorno a gente já pode ajudar. Mas não deixam", reclama uma moradora. Os militares argumentam a área afetada traz riscos para quem não tem preparo especializado.

Segundo os bombeiros, as buscas não têm prazo para acabar, mas, internamente, alguns militares já cogitam a hipótese de não ser possível encontrar todas as vítimas.

"O Corpo de Bombeiros permanecerá até que o último corpo seja devolvido aos familiares ou então em que a recuperação de corpos se torne inviável do ponto de vista fático, considerando a questão da decomposição", disse no sábado o porta-voz da corporação mineira, Pedro Aihara. 

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.