Descrição de chapéu Análise

É preciso escutar vítimas de traumas como o da escola de Suzano

Espaços de troca, como a família e a escola, estão cada vez menos propícios para o diálogo

Aluno da escola Raul Brasil, em Suzano, após atiradores matarem alunos e funcionárias no local
Aluno da escola Raul Brasil, em Suzano, após atiradores matarem alunos e funcionárias no local - Amanda Perobelli/Reuters
Vera Iaconelli

Uma das definições de trauma é que se trata de uma vivência cuja intensidade e o caráter inesperado supera nossa capacidade psíquica de elaboração.

Algo nos surpreende, somos tomados pelo choque e as sensações de incredulidade, medo e dor tomam a frente. Se não tivermos a oportunidade e as condições favoráveis à elaboração do acontecido, a cena retorna insistentemente na tentativa de entendermos, afinal, o que nos atravessou.

Dois jovens entram em uma escola, matam oito pessoas, ferem outras tantas e depois se matam —um dos dois atirou no outro antes de se suicidar, segundo a investigação.

Não é o primeiro relato (no Brasil há alguns) e, provavelmente, não será o último, mas devemos fazer tudo que estiver a nosso alcance para aprender algo que possa servir de estratégia para inibir ao máximo suas repetições.

Não sabemos quais foram as verdadeiras motivações desses jovens e nunca saberemos, pois esse segredo será enterrado junto com eles. Talvez nem eles mesmo soubessem o que os levou à tanto, embora pudessem acreditar saber. As causas inconscientes, que costumam estar por trás desse tipo de acontecimento, exigem uma escuta mais apurada.

No entanto, alguns elementos pedem uma reflexão urgente. Jovens tendem a ser mais impulsivos e resolver seu sofrimento em ato. Embora a dor dos pais das vítimas seja incomensurável e quase impossível de imaginar, temos que considerar que o suicídio dos assassinos revela um grau de sofrimento extremo de um sujeito que não reconheceu nenhuma saída possível para sua dor.

O suicídio é a descrença absoluta no laço social e afetivo como forma de superar as dificuldades humanas. Daí nossa insistência nos recursos que apostam na escuta e na possibilidade de recriar laços, que façam o sujeito sentir que ele pode permanecer vivo, pois vale a pena compartilhar sua experiência encontrando alguém que o reconheça.

No entanto, nossa cultura tem fomentado as condições para que esse tipo de saída desesperada exista. Os jovens têm se sentido mais solitários desde que as interações passaram a ser predominantemente virtuais, pois centenas de amigos nas redes valem muito pouco em termos de experiência afetiva íntima e enriquecedora. 

Os espaços de troca, como a família e a escola, estão cada vez menos propícios para o diálogo e a observação das necessidades individuais das crianças e dos profissionais. Não é a toa que a mensagem cifrada que a violência carrega se dirige a esse interlocutor privilegiado que é a escola.

O que não chegou pelas palavras chega em ato tresloucado. A verdadeira idolatria pelas armas de fogo, tão insistente hoje no nosso país, vem incrementar uma combinação já suficientemente perigosa.

As armas costumam ser empunhadas por jovens do sexo masculino e não podemos deixar de pensar na crise pela qual passam homens fragilizados em sua virilidade que acreditam que a violência os faz fortes. As imagens deles portando armas lhes dá um ar de onipotência, que esconde a sensação de fracasso.

Na sequência dos acontecimentos, cabe escutar as vítimas, para que elas possam elaborar essa cena traumática. Enfim, não sabemos o que se passou em Suzano, mas devemos falar sobre isso e, principalmente, escutar.

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