Guru Deva Nishok é investigado por abuso sexual

Ex-voluntária de centro tântrico relata agressão; criador de método conhecido nega e exige provas

Marina Estarque
São Paulo

O guru de meditação e sexo tântrico Tadeu Horta, ou Deva Nishok, 61, é investigado por abusar sexualmente de uma voluntária da comunidade terapêutica que ele fundou e funciona em Itapeva, no interior de Minas. 

O Ministério Público de Minas apura o caso, e a Polícia Civil do estado instaurou inquérito. A Folha ouviu a ex-voluntária que originou o inquérito e outra terapeuta que diz ter sido assediada por Horta.

Procurado pela reportagem, Nishok disse desconhecer os episódios e exortou as acusadoras a apresentarem provas. 

Deva Nishok em sessão de massagem tântrica - Reprodução / TripTV

O guru é famoso por ter criado um método de tantra que une meditação, espiritualidade e o que chama de processos energéticos de harmonização e cura. Seu site promete à pessoa acesso a seu lado divino por meio de massagens.

Em redes sociais, ele se apresenta como sannyasin (seguidor) do controverso líder espiritual Bhagwan Shree Rajneesh --o Osho, tema da série "Wild Wild Country" (Netflix). 

Foi do centro de Osho que Tadeu Horta recebeu o nome Deva Nishok. Além da Sadhana Comunna, um centro e pousada com cursos que variam de R$ 1.370 a R$ 8.900, a Rede Metamorfose tem cerca de 190 terapeutas associados e 35 espaços filiados pelo país.

Folha conversou por videochamada com a ex-voluntária que acusa Nishok de abuso. A estudante de psicologia de 24 anos diz ter trabalhado no local em 2018 por dez dias porque queria ser terapeuta. Ela pediu para ter o nome omitido por temer retaliação.

Segundo seu relato, Nishok a convidou para uma massagem. "Havia outras pessoas no lugar, e a expressão de todos foi de que [o convite] era uma honra, ele era o mestre."

Mas Nishok, diz ela, não seguiu as regras da massagem tântrica: há manipulação genitais, não sexo; o terapeuta usa luvas e segue medidas contra contaminação. Não se despe.

A estudante afirma que o guru pediu que ela tirasse a roupa e se deitasse. "Ele usava nomenclaturas que eu não entendia e, após algumas explicações, pôs a boca no meu genital." A técnica, chamada extrusão (sexo oral), só é usada em cursos entre casais, dizem terapeutas do Metamorfose. 

"Fiquei incomodada. Perguntei se não tinha outra forma, pedi para ele parar, mas ele disse que não tinha. Falou que ele era um mestre, que aquilo era uma oportunidade de aprendizado. E continuou."

Ela diz que começou a chorar muito e ficou rígida. "Depois, ele ficou nu e pediu para que eu tocasse nele. Falou que o pênis dele era um condutor de energia e, se eu o tocasse, ele ia poder medir a minha frequência e energia vital."

Diante da estudante nervosa, Nishok teria dito que a reação era traço de abuso sexual, "um trauma a ser desbloqueado". Sozinha na comunidade isolada, sem sinal de celular, ela afirma ter se achado vulnerável para reagir. Diz ter insistido para que Nishok parasse, o que ele teria feito só quando ela chorava muito. 

"Ele disse para eu não contar a ninguém e voltar em 72 horas."

Cinco testemunhas ouvidas pela Folha afirmam que a jovem deixou a sala de atendimento transfigurada. "A gente a ajudou a tomar banho, ela não se sustentava em pé, não conseguia falar, só chorar", disse a psicóloga Roberta Chaves, 32, então voluntária.

Outras duas mulheres afirmam que a estudante indagou se o ocorrido era parte de uma massagem tântrica normal. "Respondi: 'não'. Expliquei que, se há um não [do cliente], deixa de ser terapia", diz uma testemunha e terapeuta.

No site, o Metamorfose sublinha a necessidade de se respeitar o limite de quem recebe massagem para que a pessoa não se sinta invadida.

O educador ambiental Paulo Kroeff, 48, que gerenciou a Comunna por pouco mais de um ano e diz ter sido demitido após uma briga com Nishok, também ouviu a estudante. "Ela estava catatônica", afirma, acrescentando ter sugerido que ela registrasse boletim de ocorrência —ela o fez.

As três mulheres que testemunham nesse boletim foram entrevistadas pela Folha, bem como dez ex-voluntários e funcionários da Comunna e associados. Vários deles consideram Nishok agressivo. 

O caso chegou ao Ministério Público de Minas. "É bastante detalhado, instauramos procedimento para apurar. É uma situação difícil, porque as vítimas têm confiança no guru, acreditam que ele esteja fazendo o bem para elas", diz o promotor de Justiça em Camanducaia (MG), Emmanuel Levenhagen, titular do caso. 

Outras mulheres citadas como vítimas não quiseram falar com a reportagem alegando os tabus que cercam o tantra e a influência de Nishok. 

Uma fotógrafa de 33 anos que diz ter testemunhado o episódio e integra o movimento Coame (Combate ao Abuso no Meio Espiritual), de denúncias de violência sexual por líderes religiosos, alertou a reportagem para o caso.

A reportagem também conversou com uma ex-voluntária de 39 anos que afirma ter recebido convites sexuais de Nishok ao longo de 2016. 

"Tenho problema no joelho, e ele dizia que extrusão era boa para as articulações", afirmou, dizendo que o guru punha o convite como privilégio. Quando ela recusou as investidas, ele a acusou de roubar fundos e a expulsou, afirma.

​Na época das acusações contra o autodeclarado medium João de Deus, o MP-SP criou um email para denúncias, que continua ativo: somosmuitas@mpsp.mp.br. Há também o email da promotoria de Camanducaia: pj1camanducaia@mpmg.mp.br. ​

Outro lado

Deva Nishok diz não ter ciência dos casos citados. "Tenho câmeras de vídeo que mostram o acesso a todas as salas de atendimento. Se o caso for para Justiça, sim, vou apresentar [os vídeos]. Nunca fiz isso, não faço atendimento há anos, só dou curso." 

Ele afirma que muitas pessoas deixaram a comunidade irritadas porque ele expulsou voluntários por uso de drogas e diz que seu trabalho não é sexual. "É trabalho muito sério." 

O advogado do guru, Valmir Moraes, diz que Nishok trabalha há três décadas com tantra e nunca houve denúncia.

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