Descrição de chapéu Alalaô

O Carnaval ficou comercial demais, diz Thobias da Vai-Vai

Rompido com a escola paulistana, cantor celebra festa na rua, mas lamenta sumiço do samba

Ricardo Kotscho
São Paulo

Os 556 desfiles de blocos que tomam São Paulo em 2019 levam Edimar Tobias da Silva, conhecido por tudo mundo como Thobias da Vai-Vai, a festejar o Carnaval de rua de sua cidade como o maior do Brasil —o Rio, com 498 cortejos, ficou para trás.

No Sambódromo é diferente. Rompido com a atual diretoria da escola da qual puxou o samba durante 15 anos, Thobias não saiu na Vai-Vai neste ano. Mas continua a ser o presidente de honra da agremiação que, prestes a fazer 90 anos, vive sua pior crise.

Entregador de contas de água e carteiro até virar cantor, compositor, ator, radialista e dono de casa de shows, este paulistano de 60 anos emigrou do Jardim Peri, na zona norte, para o Bixiga, na região central, para reinar há quase quatro décadas no comando da maior campeã do Carnaval paulistano, dona de 15 títulos e no páreo por um 16º.

Numa mesa da padaria Basilicata, no coração do Bixiga, só bebendo água com gás, ele lembrou à Folha sua trajetória no samba, que se confunde com a do Carnaval paulistano. 

 

Em que momento você sentiu que o Carnaval paulistano poderia fazer páreo com o carioca? Foi de quatro, cinco anos para cá que o nosso Carnaval de rua começou a crescer e não parou mais, depois de ser oficializado, organizado e descentralizado. Hoje tem desfiles em todas as regiões, no centro e nos bairros. 

Acho até que cresceu demais, precisa de uma organização melhor. É uma diversão barata, e o paulista precisa disso numa cidade tão estressante. Você bota uma fantasia qualquer, toma sua cervejinha e, com pouco dinheiro no bolso, se diverte. 

No Rio aconteceu o contrário, o número de blocos diminuiu e até as escolas de samba estão com dificuldades para sair neste ano... É, o prefeito de lá [Marcelo Crivella, do PRB, que é bispo evangélico] meteu um “sai capeta” nos blocos. Está havendo no Rio uma falta de compreensão, de afinidade entre a administração da cidade e o Carnaval. Então fica difícil porque esta festa toda é cultural, é milenar, acho que antes de Jesus Cristo já existia...  

Agora, a cultura da escola de samba é uma coisa que não nos pertence, é uma invenção do carioca, começou ali com o Ismael Silva, na década de 20, e o Brasil todo copiou. 

Por mais que os outros centros cresçam, nunca vamos chegar a competir com a grandiosidade dos desfiles do Rio de Janeiro, no sentido de espetáculo, porque lá é o original. Carnaval é uma coisa, desfile das escolas de samba é outra.

Qual sua lembrança mais antiga do Carnaval paulistano? A dos Carnavais das avenidas São João e Tiradentes, mais pé no chão, artesanal. 

Hoje a coisa é mais comercial, cheia de regras e regulamentos, então o samba propriamente dito, o samba no pé, aquela coisa da passista, da evolução, o malabarismo do pandeiro, você não vê mais em escola nenhuma. Em blocos, menos ainda. É só folia, uma micareta com sotaque paulistano. 

Tem alguma coisa ainda dos tempos antigos nos Carnavais de salão dos clubes tradicionais. Isso é muito bom porque dá emprego para o músico. Eu mesmo vou cantar no Carnaval do Palmeiras nesta terça-feira (5).

Fora do Carnaval, como é que vocês ganham a vida? Eu faço um espetáculo para o Sesc com alguns daquela nata antiga. É o show Memória Negra do Samba Paulista. Tem o Seu Carlão da Peruche, com 90 anos, o Marco Antonio da Nenê, Ideval, Dona Duda Ribeiro, a Dona Cida de São Mateus, que é filha do Blecaute... Tomara que não reduzam muito a verba do sistema S [o governo federal anunciou que pretende cortar grande parte do financiamento]. 

Você não é de família de sambistas, morava na zona norte, longe do Bixiga. Como foi cair no mundo do samba? Eu sempre gostei de cantar. No Jardim Peri não tinha luz, nem televisão tinha em casa. Aí nos bares da periferia tinha aqueles negros velhos que faziam roda de samba, eu ficava ouvindo, aprendi a cantar coisas do Ataulfo [Alves, 1909-69]. 

O artista é aquele que primeiro faz porque gosta, depois é que pensa em ganhar algum.

Quando perdi o emprego na Sabesp [companhia de água e esgoto paulistana], eu não sabia fazer outra coisa, então pensei: agora tenho que cantar. Gravei meu primeiro LP em 1984 junto com a Márcia Inaiá. Virei puxador de samba, primeiro na Gaviões da Fiel, e depois a Vai-Vai me chamou. Uma coisa foi puxando a outra. Trabalhei na Rádio Brasil 2000, participei de dois filmes, gravei nove discos e um DVD, fiz excursões com a Vai-Vai pelo mundo. 

Em qual papel se sente melhor? Cantor, com certeza. 

Você já foi comparado a Jamelão e Neguinho da Beija Flor, chamado de herdeiro de Adoniran Barbosa, Geraldo Filme e Paulo Vanzolini. Com qual mais se identifica? Jamelão [1913-2008], porque ele era tão bom na pista como no palco. Gosto dessa versatilidade. 

Você já se apresentou com a escola em muitos países. Onde o público mais sambou? Em todos o pessoal participa, mas na Nigéria, em Calabar, o povo sambou como aqui, uma alegria muito grande. Outro lugar que o povo adorou foi em Moscou. Tinha mais de um milhão de pessoas na praça, parecia Reveillón na Paulista. Fui com a Vai-Vai participar de um festival de teatro e nós representamos o Brasil. Foi em 2001. Tiveram que chamar segurança, porque o povo queria invadir, queria agarrar, a gente parecia o Michael Jackson dos áureos tempos.

Das homenagens que vocês já fizeram nos sambas-enredo, qual ficou na história? Com certeza “A música venceu”, o enredo do nosso grande maestro João Carlos Martins, em 2011, quando a escola foi campeã. O carnaval dele foi inesquecível, o homem é duro na queda. Quem batizou o enredo foi a mulher dele, a Carmem. O povo todo cantou junto: “Feliz da vida, lá vem o Bixiga, um exemplo de comunidade/A música venceu, o dom é luz que vem de Deus, da emoção, vai resplandecer...”. 

A Vai-Vai, maior campeã do Carnaval paulista, ficou em 10º lugar no ano passado. Houve protestos, você até foi vaiado ao cantar na esquina da São João com a Ipiranga. O que aconteceu? Vaiaram a música que eu cantei, o samba da Globeleza. Era ano de eleição e o povo estava meio puto com a Globo, aí me meti a besta e fui cantar “e lá vou eu, lá vou eu...”, e o pessoal gritava “fora Globo”. Quer dizer, quem foi vaiado foi a música e não eu. Aí vem um jornalista e escreve que fui eu. 

E o que aconteceu com a Vai-Vai, que vive sua maior crise da quando está para completar 90 anos? Tem uma diretoria que quer se perpetuar no poder, que nem o [ditador venezuelano, Nicolás] Maduro. Existe uma oposição forte dentro da escola pedindo eleição, prestação de contas, transparência. Eu estou na oposição e, enquanto eles não saírem, eu não desfilo na escola. A Vai-Vai tem dívidas [a oposição alega que a atual diretoria acumula dívidas de R$ 3 milhões, o que a gestão no poder não comenta]. É lógico que isso repercute no desfile. 

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