Descrição de chapéu Alalaô

Pagode baiano ultrapassa Ivete e domina Carnaval em Salvador

Léo Santana, La Fúria e Igor Kannário levaram multidão a blocos em Salvador

João Pedro Pitombo
Salvador

Ainda faltavam dois dias para a abertura oficial do Carnaval de Salvador. Mas as ruas da Barra já estavam completamente tomadas para o único desfile da noite.

Léo Santana, 30, desponta no trio elétrico e emenda uma sucessão de hits que vão de "Rebolation", de 2010, até "Crush Blogueirinha", sua aposta no Carnaval deste ano. Seria apenas o primeiro dos 16 shows que faria nos nove dias até a Quarta-Feira de Cinzas.

O sucesso reflete o protagonismo para qual foi alçado o pagode baiano dentro do território do axé. Assim como Léo, nomes como Igor Kannário, La Fúria e Psirico comandaram algumas das maiores pipocas —desfiles de trios elétricos abertos aos foliões— do Carnaval de Salvador.

"Esse é, sem dúvidas, o Carnaval do pagode", resumiu o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), ainda no sábado (2), terceiro dia oficial da festa na capital baiana.

Além dos concorridos desfiles nas ruas de Salvador, os artistas do pagode também foram campeões em exposição televisiva durante o Carnaval.

Segundo levantamento da empresa de pesquisas Midia-Clip, Léo Santana superou Ivete Sangalo e tornou-se o artista com maior tempo de exposição no Carnaval, com 11 horas e 59 minutos de permanência em telejornais e transmissões ao vivo.

Das cinco músicas mais executadas durante a transmissão televisiva do Carnaval de Salvador, quatro eram pagodes: "Abaixa que é Tiro" (Parangolé), "Rei Leão" (Psirico), "Fábio Assunção" (La Fúria) e "Crush Blogueirinha" (Léo Santana).

Mesmo seguindo estilos diferentes, os artistas do pagode têm uma linha troncal em comum: despontaram em bairros da periferia de Salvador, onde ganharam espaço, cresceram e tornaram-se uma referência para os jovens.

A música tem uma base rítmica com características singulares, que bebe na fonte do samba-reggae e do samba-de-roda do Recôncavo. É distinto do que convencionou-se a chamar de axé e também difere do pagode consagrado no Rio de Janeiro e em São Paulo.

A primeira onda veio nos anos 90, com a explosão de bandas como É o Tchan, Terrassamba e Companhia do Pagode, com letras de duplo sentido, coreografias sensuais e dançarinas com pouca roupa.

O segundo impulso aconteceu nos anos 2000 com o Harmonia do Samba. A banda tornou-se um divisor de águas ao trazer linha rítmica própria e uma estrutura cênica na qual o cantor é o dançarino e protagonista.

Desde então, o pagode da Bahia diversificou-se ao ponto em que seus principais expoentes são completamente diferentes entre si.

Seguindo a linha mais tradicional do pagode baiano, Léo Santana é o artista mais popular da atual geração. Na atual temporada pré-carnavalesca, foi o artista da Bahia mais tocado nas principais plataformas digitais.

O clipe de "Crush Blogueirinha", lançado há três meses, já chegou a 17 milhões de visualizações no YouTube, número muito superior às apostas de artistas consagradas como Ivete Sangalo ("Teleguiado", com 2,8 milhões) e de Claudia Leitte ("Balancinho", com 3,8 milhões).

Em geral, suas músicas falam de festas e paquera --temas que ganharam espaço nos últimos anos com artistas de funk e sertanejo. Não à toa, Léo Santana foi além do público tradicional do pagode e fez parceria com Wesley Safadão, Maiara e Maraísa e MC Kevinho.

A mesma trilha segue a banda La Fúria, um dos maiores fenômenos na periferia de Salvador. Depois de firmar uma trajetória com músicas de cunho sexual, a banda amaciou o discurso para ampliar horizontes.

A virada veio com a música "Ôe", sucesso do Carnaval de 2017, cujo refrão se resume a gritinhos ao melhor estilo Sílvio Santos. Desde então, La Fúria tem adotado uma estratégia de retroalimentação com a internet, gravando músicas baseadas em memes populares.

Ao longo de 2018, "Teile e Zaga" foi uma das músicas mais tocadas em Salvador. Para o Carnaval, a banda apostou na polêmica música "Fábio Assunção" [Hoje eu vou beber/ vou ficar loucão/ vou virar o Fábio Assunção].

A música foi criticada por brincar com a dependência química do ator e acabou resultando em um acordo entre as partes --toda a renda dos direitos autorais será revertida para entidades que atuam no tratamento de dependentes químicos. 

Depois da polêmica, a banda virou a página e apostou em uma nova música: a "Dança da Bruna Marquezine".

Fechando a trinca popular do pagode baiano está Igor Kannário, 34, que estourou em 2015 com a música "Tudo Nosso, Nada Deles". A música segue uma nova linha rítmica que o cantor batizou de "groove arrastado" e rendeu elogios até de Caetano Veloso.

Na época, o cantor vinha em um momento de baixa --havia sido detido duas vezes pela polícia por porte de maconha e foi ignorado pelos principais blocos. Mas alcançou a redenção com um dos desfiles sem cordas mais concorridos daquele Carnaval.

Desde então, concilia a música com uma carreira política —foi eleito vereador em 2016 e deputado federal em 2018 pelo PHS.

Seu repertório vai desde músicas românticas a canções com teor de crítica social, como a recente "Disse me Disse", que critica o uso de cassetetes, algemas e spray de pimenta nas abordagens da polícia nos bairros da periferia de Salvador.

O histórico de conflitos com a Polícia Militar é fonte permanente de polêmicas. O Carnaval deste ano não fugiu à regra: Kannário desfilou fantasiado de policial com um uniforme em que havia escrita a expressão "Comando da Paz", mesmo nome de uma facção criminosa da Bahia.

O cantor negou que tenha feito referência à facção: "Se falar de paz, amor, respeito e limite no Carnaval é algo errado, acredito que os valores devem estar invertidos".

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.