Pouco mudou após ataques a tiros em escolas como o de Suzano

Houve melhorias em colégios atingidos em SP e no RJ, mas ações de prevenção na rede ainda deixam a desejar

São Paulo e Rio de Janeiro

Massacres em escolas como o de Suzano (Grande SP) se repetiram ao menos oito vezes no país desde o início dos anos 2000, e as respostas do poder público não parecem suficientes. 

Nos três casos com mortos em escolas públicas, em São Paulo e no Rio de Janeiro, as ações ficaram concentradas no colégio alvo dos ataques, e pouco foi investido para garantir a segurança das redes.

O primeiro foi em 2003 e abalou a pequena cidade de Taiúva, a 363 km da capital paulista. Um ex-aluno de 18 anos, armado com um revólver e 105 balas, deixou oito feridos, um aluno paraplégico e se matou na escola estadual Coronel Benedito Ortiz.

Marca de tiro em parede da escola estadual Coronel Benedito Ortiz, em Taiúva - Joel Silva/Folhapress

A Secretaria de Educação de SP diz que o colégio tem circuito de videomonitoramento, sem responder, porém, se foi instalado após o caso. Afirma ainda que há ronda escolar, mas o programa existe desde 1995. Da tragédia, as escolas da rede estadual não viram surgir outras ações.

Também foi tratado como isolado o caso de São Caetano do Sul (no ABC paulista) em 2011, quando um aluno de 10 anos entrou numa sala da escola municipal Professora Alcina Dantas Feijão, atirou em uma professora e depois se matou.

Ele usou o revólver do pai que era guarda-civil e, no momento do disparo, havia 25 alunos na sala. Sem aulas, os dias seguintes foram de reuniões com professores, bênção de pároco, atendimento psicológico e chuva de balões brancos.

Mas as iniciativas pararam por ali, segundo a então diretora, Márcia Gallo. "Não houve nenhuma ação de prevenção nas escolas da rede", diz. Para os alunos traumatizados com a cena, o acompanhamento psicológico durou só três meses.

"Vários pais queriam que fossem instalados detectores de metais na entrada do colégio", conta a educadora. Ela precisou explicar que não era possível a instalação da barreira, seguindo a orientação da prefeitura, que admite a falta de medidas municipais após o incidente.

Já no Rio, o episódio que ficou conhecido como massacre de Realengo em 2011 —quando um ex-aluno que dizia sofrer bullying usou dois revólveres para matar 12 estudantes, ferir 17 e se suicidar— fez o colégio municipal Tasso da Silveira virar modelo. 

Guardas municipais circulam por ali todos os dias, câmeras monitoram até as salas de aula, a secretaria fica do lado de fora para evitar a entrada de desconhecidos e boa parte dos muros foi trocada por grades. Logo ao lado, esculturas de crianças correndo não deixam esquecer o dia da tragédia.

Adriana Silveira, mãe de uma das vítimas, lamenta não poder dizer o mesmo do restante das escolas cariocas. Ela criou a Associação Anjos de Realengo, que reúne 80 membros e luta por ações de prevenção e segurança no ambiente escolar.

"É uma frustração saber que, depois de tudo que aconteceu ali, quase nada foi feito. E nas mudanças de governo muita coisa se perdeu", diz. Sem ajuda do poder público, ela dá palestras sobre bullying e violência até três vezes por semana em unidades que a procuram. Tem mais de cem na lista de espera.

O grupo conseguiu aprovar há seis anos uma lei estadual que institui a semana de combate ao bullying. Apesar de a prefeitura dizer que realizou mais de 500 palestras e 1.000 atividades em 2018, Adriana acha que muitas escolas nem sequer sabem dessa lei.

As vítimas de Realengo tiveram atendimento psicológico e uma indenização da prefeitura. Thayane Monteiro, 21, recebe um salário mínimo mensal e tem um carro com motorista a seu dispor. Ela levou dois tiros na barriga e um na cintura e ficou paraplégica.

Thayane, paraplégica após ataque no Rio - Zô Guimaraes/Folhapress

Ela reclama que muitas vezes, porém, fica presa em casa porque o município não paga o combustível. "Esse carro é as minhas pernas para ir para a faculdade [de direito], para a aula de canoagem, para o supermercado", diz.

A prefeitura do Rio agora promete recontratar porteiros terceirizados para atuar em todas as 1.539 escolas municipais até o fim de abril. O serviço, firmado na época da tragédia, até hoje não foi reposto depois que o último contrato terminou, em 2014.

O governo estadual também planeja admitir 300 funcionários para a mesma função, além de posicionar policiais militares de folga nas escolas estaduais que pedirem.

A medida é parecida com uma das iniciativas discutidas pela gestão João Doria (PSDB) em reação ao ataque de Suzano, no último dia 13 de março. Dois atiradores, de 17 e 25 anos, invadiram o colégio estadual Raul Brasil, deixaram oito mortos e depois se suicidaram.

Além de fazer uma revisão de procedimentos nas 5.300 unidades da rede, a Secretaria de Educação de SP quer alocar policiais da reserva nos colégios —a pasta não disse se eles ficariam armados, mas receberiam um valor ainda não estipulado para voltar a atuar.

As outras ações listadas pela secretaria já existem, inclusive na Raul Brasil, como instalar sistemas eletrônicos de monitoramento e barrar o acesso na entrada. As mudanças tampouco chegariam a todas as outras unidades, só às com indicadores de maior vulnerabilidade, segundo o secretário Rossieli Soares.

 
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