Covas aposta em república para morador de rua e sopão 'indoor'

Gestão prevê casa com autonomia; pasta quer que ONGs não deem comida na rua

Casal Rodrigo Gomes, 36, e Camila Costa, 30, que vive há cinco anos na praça da Sé
Casal Rodrigo Gomes, 36, e Camila Costa, 30, que vive há cinco anos na praça da Sé - Artur Rodrigues/Folhapress
Artur Rodrigues
São Paulo

Na tentativa de diminuir o número de pessoas vivendo nas ruas de São Paulo, a gestão Bruno Covas (PSDB) apostará em um pacote que envolve oferecimento de moradias com regras mais flexíveis, semelhantes a repúblicas, e o desestímulo a entidades que distribuem comida nas ruas.

Covas costuma citar a área social como sua principal preocupação. Até agora, porém, a gestão não conseguiu melhora significativa na questão dos moradores de rua —a estimativa é que existam hoje 20 mil na cidade. Vitrines de seu antecessor, João Doria (PSDB), para a área foram abandonadas ou passam por problemas que vêm desgastando a imagem do prefeito.

A ideia da gestão é, por um lado, tornar a rua menos atrativa, convencendo as entidades a distribuir alimentos só dentro de equipamentos públicos. Por outro, quer atender à população de rua que resiste a ir para albergues por meio da criação de repúblicas.

A prefeitura tenta ganhar a confiança de pessoas como o casal Rodrigo de Souza, 36, e Camila Costa, 30, que moram há cinco anos na praça da Sé. Faz pouco menos de um ano que a cachorrinha Charlote também se somou à família, que divide cantinho organizado de frente para a catedral. 

Os dois —ele, jardineiro, e ela, atendente de telemarketing— saíram de casa por divergências com familiares. Hoje, recebem café da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar de entidades e voluntários que vão até a praça. 

Como muitos que vivem ali, se sentem muito mais próximos dos voluntários, muitos ligados a igrejas, do que do poder público.

“Para albergue, só fomos uma vez. Mas nunca mais vamos. Não queremos morar separados [a maioria das unidades separa homens e mulheres]”, diz Rodrigo. “Se fosse uma casa, aí sim a gente iria. Só 
precisamos de uma oportunidade para a gente se levantar”. 

O secretário municipal de Assistência Social, Marcelo Del Bosco, afirma que a prefeitura está entrando em contato com as entidades para tentar evitar a doação dos alimentos na rua. “Os voluntários são pessoas que querem fazer o bem para as pessoas em situação de rua e acabam, às vezes, atrapalhando o serviço sem saber”, afirma.

“Queremos trazer essas pessoas que querem dar comida, que é muito importante, mas não na rua, e sim nos nossos serviços. Lá, temos assistentes sociais, psicólogos, podemos fazer um trabalho socioeducativo muito melhor”.

O secretário diz que o convencimento se dará na base da conversa, mas, entre moradores de rua e entidades, há relatos de veículos multados e material apreendido. 

Kaká Ferreira, fundador do grupo Anjos da Noite, um dos mais conhecidos pela doação de alimentos, diz que a entidade ainda não recebeu nenhum contato neste sentido, mas discorda da linha de raciocínio da prefeitura. Para ele, não faz sentido doar comida em locais onde há outras entidades responsáveis por fornecer a alimentação. 

Kaká também rebate o argumento de que os voluntários dificultam o convencimento de levar os moradores de rua para equipamentos municipais. “Por que morador de rua não quer ir para o albergue? Não vai pro albergue porque é maltratado, porque não tem higiene, tem percevejo e rato nas camas.”

O modelo proposto em 2017 por João Doria por meio da criação dos CTAs (Centros Temporários de Acolhimento), de fato, está em xeque. O então prefeito e hoje governador apostava em albergues tradicionais, viabilizados com ajuda da iniciativa privada. 

As unidades criadas por Doria com status de albergues VIPs têm ocupação menor do que a média —86% contra 92%, no último trimestre de 2018. Além disso, reportagens da TV Globo recentes mostraram péssimas condições nestes centros, incluindo larvas em caixas de ovos. 

Nesta terça (16), a cozinha de um CTA, o Prates III, localizado na região central de São Paulo, foi  interditada pela vigilância sanitária

Outro programa de Doria, o Trabalho Novo, foi encerrado sem cumprir a meta de gerar 20 mil vagas de emprego aos moradores de rua.

Agora, a nova aposta é nas chamadas repúblicas, que são moradias coletivas nas quais ex-moradores de rua têm mais responsabilidade e liberdade, semelhante ao que acontece em uma casa comum. 

O modelo já existe na cidade, mas representa apenas 195 das 18.411 vagas oferecidas. A meta estipulada por Covas é converter 2.000 vagas existentes ao formato de repúblicas, ao custo de R$ 16 milhões.

“Nós encontramos um público que tem característica de autonomia, que já está pronto para ser reinserido na sociedade e não aceita esse [modelo] dos CTAs ou o centro de acolhida”, diz o secretário Marcelo Del Bosco.

Hoje, o tempo de permanência nas repúblicas é de seis meses, prorrogáveis por igual período. O objetivo é oferecer capacitação aos que precisam e inseri-los no mercado de trabalho, parte da meta de aumentar em 40% as saídas com autonomia da população de rua da rede assistencial.

A criação de repúblicas também é um antigo pedido dos movimentos ligados a moradores de rua, tradicionalmente contrários ao modelo padronizado demais dos albergues. 

“É uma resposta bem melhor, porque preserva a autonomia. Eles fazem a própria cozinha, limpam a casa, o custo é menor”, afirma o padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo de Rua.

Ele afirma, no entanto, que as unidades deveriam ter espaço para animais e carroças, a exemplo de alguns dos centros de acolhida. Nem as repúblicas, nem os albergues atendem famílias no formato atual, mas apenas em unidades específicas, o que é bastante criticado por quem mora na rua.

O presidente do Movimento Estadual da População em Situação de Rua, Robson Mendonça, diz que a ideia da república só funcionaria se houver fiscalização eficaz sobre as entidades responsáveis pelas unidades, o que não costuma acontecer. “Até agora não vi nada que o Covas tenha feito para a população de rua que merecesse elogio”, diz.

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