Resgate de animais silvestres dobra na cidade de SP em quatro anos

Tráfico por meio de redes sociais, obras do Rodoanel e febre amarela ajudam a explicar multiplicação

 
 
Tucano do bico verde que habita o centro de manejo de animais silvestres em Perus, zona norte de SP

Tucano do bico verde que habita o centro de manejo de animais silvestres em Perus, zona norte de SP Danilo Verpa/Folhapress

Guilherme Seto
São Paulo

Pitbull é um quinquagenário com panca de mau. Ao perceber qualquer movimentação à frente de sua casa, ele aperta o passo e faz menção de atacar os visitantes indesejados. Uma de suas mordidas, caso seja bem dada, é capaz de arrancar um dedo humano.

O imenso jabuti tem seus motivos para a rabugice: alvo do tráfico de animais silvestres, foi encontrado no baú de um caminhão, onde chacoalhava desastradamente. 

Resgatado, ele mora no Centro de Manejo e Conservação de Animais Silvestres (Cemacas), em Perus, na zona norte de São Paulo, na companhia de mais de 700 animais, entre pássaros, primatas, cobras, felinos e preguiças.

Nos últimos anos, mostra levantamento da Prefeitura de São Paulo ao qual a Folha teve acesso, houve grande crescimento no número de animais silvestres atendidos, abrigados e reabilitados pela gestão municipal. 

Os motivos são, segundo os especialistas, o avanço da mancha urbana por meio de construções e de obras de infraestrutura, especialmente as do Rodoanel; novas modalidades de tráfico de animais pela internet; e a popularização do serviço municipal de resgate de animais silvestres após os episódios de febre amarela em 2017 e 2018.

Pitbull, o quinquagenário e invocado jabuti do Cemacas
Pitbull, o quinquagenário e invocado jabuti do Cemacas - Danilo Verpa/Folhapress

Entre 2014 e 2018, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente atendeu 29.252 animais silvestres de diferentes origens, como tráfico, acidentes e telefonemas de munícipes.

Em quatro anos, o número mais que dobrou: em 2014, foram 4.164; em 2015, 5.079; em 2016, 4.950; em 2017, 6.460; por fim, em 2018, 8.599.

Dentro desse universo de quase 30 mil animais, 5.333 chegaram ao Cemacas após apreensões policiais direcionadas ao tráfico. Em 2014, 554 foram entregues pelas forças policiais. Em 2018, o número chegou a 2.207.

"Relacionamos os resgates ao nível de pressão sobre o meio. Estamos falando de desmatamentos, incêndios, queimadas, ocupações irregulares. Toda ação lesiva ao meio ambiente deixa os animais em situação vulnerável", diz Angela Branco, diretora da Divisão de Vigilância e Defesa Ambiental da secretaria de Segurança Urbana.

"Há uma pressão nas áreas de mananciais, por conta de ocupações irregulares. Obras de infraestrutura também afetam muito. O Rodoanel na região sul causou impacto bastante expressivo", completa.

"Quando começaram as explosões do Rodoanel Norte, os bichos começaram a entrar em casas e lojas", afirma Juliana Summa, diretora da Divisão de Fauna Silvestre da secretaria do Verde.

Trinca-ferro, coleirinho, canário-da-terra, cardeal-do-nordeste e azulão: os passarinhos representam 96% do total de animais resgatados. Psitacídeos (papagaios, araras, periquitos), mamíferos e répteis estão na cota restante.

Animais extintos valem mais no mercado ilegal. O inspetor da GCM Ambiental Jairo Chabaribery Filho diz que já investigou casos em que as pessoas trocavam carros por pássaros de até R$ 150 mil. Uma arara azul chega a valer R$ 80 mil. Uma vermelha, R$ 40 mil. Um tucano- toco, até R$ 20 mil.

Uma das principais representantes dos répteis no centro, a píton-burmesa Camila, que mede mais de dois metros, chegou ao Cemacas em 2017 acompanhada de mais de 200 animais, todos encontrados na casa de um criador clandestino. Representante de uma das cinco maiores espécies de cobras do mundo, estava em um aquário de menos de meio metro.

Na casa do infrator, biólogo de formação, havia armários com minúsculas gavetas, e em cada uma delas estava uma "corn snake", pequena cobra que virou moda no Brasil.

Essas ondas costumam vitimar centenas de animais. Principal destino do tráfico de animais no país, devido à pujança financeira e à posição estratégica em termos de exportação, São Paulo costuma concentrar a maior parte desses exemplares.

As pessoas compram os animais e, passada a empolgação, entregam-nos à prefeitura ou soltam em parques. Atualmente, a moda dos "hedgehogs" --ouriços africanos, como o personagem de videogames Sonic-- tem feito com que alguns animais fixem residência no Cemacas. Longe de seus habitats e pouco exóticos para zoológicos, eles têm futuro incerto.

Muitos dos animais chegam ao centro com necessidade de reabilitação, seja por danos à saúde, seja por problemas de comportamento (dificuldades para caçar, docilidade excessiva com humanos). Eles então passam por um programa sofisticado de reeducação.

Gaviões e outros pássaros, por exemplo, comem ratos brancos mortos, picados, inicialmente. Na sequência, devem caçar esses ratos vivos. Em uma última etapa de processo que se arrasta por meses, devem tentar caçar ratos de pelagem escura. 

Felinos passam por treinamento similar. No centro hoje vive um gato-do-mato que tem mostrado desenvoltura ao caçar presas, mas ainda é muito afável com humanos -- curioso, aproxima-se da grade para pedir carinho. É um problema que ele precisa superar para alcançar a independência. No caso de Pitbull, a agressividade não será problema no retorno à natureza.

Cerca de 50% dos resgatados que passam pelo centro são reintegrados aos seus habitats. No caso dos apreendidos do tráfico pelas forças policiais, a taxa chega a 70%.

O surto de febre amarela ocorrido em São Paulo nos últimos anos contribuiu de maneira importante para o aumento de apreensões de animais silvestres na cidade, analisam Summa e Branco. Ao contraírem o vírus, eles servem de alerta para o surgimento da doença na região.

Apreensivas com a febre amarela, as pessoas passaram a se interessar pelo serviço de resgate --tanto para saberem se o local em que moram tem casos registrados quanto para verem macacos longe, por temor de contraírem a doença dos animais, o que não é possível.

Duas dificuldades atrapalham o trabalho de controle do tráfico de animais por parte do município: as novas tecnologias e as penas brandas para quem comete o crime.

No passado, eram rotineiras ações que flagravam feiras de venda ilegal. Hoje, o comércio é feito em redes sociais.

"Eu tinha uma percepção de que havia diminuído o tráfico, até porque os jovens não ligam para pássaros. Mas o interesse migra, e hoje eles querem serpentes, lagartos, répteis", diz Branco.

Em 2017, por exemplo, a GCM conseguiu interceptar negociações virtuais entre um casal de traficantes e compradores de répteis após uma denúncia. Duas iguanas foram encontradas em posse dos infratores na estação de metrô da Barra Funda. 

Recentemente, uma iguana foi encontrada em um cesto de lixo de estação de metrô após interceptação de negociações entre vendedores e interessados via WhatsApp.

Esses infratores, no entanto, podem muito bem continuar cometendo ações irregulares até hoje, já que as penas são, para os especialistas, leves. 

A Lei de Crimes Ambientais prevê detenção de seis meses a um ano e pagamento de multa para quem matar, apanhar ou utilizar espécies da fauna silvestre sem permissão das autoridades. No entanto, raramente acontecem prisões, afirma Branco.

"São considerados crimes de menor potencial ofensivo, e o tempo de prisão geralmente é convertido em pena alternativa. É muito desgastante."

A frustração é amenizada quando são encontrados animais com anilhas de identificação falsas. As anilhas são utilizadas pelo Ibama e por outros órgãos públicos para monitorarem os animais silvestres. A cópia é considerada adulteração de selo público e pode render de dois a seis anos de reclusão.

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