Litoral tem recorde de animais achados mortos de São Paulo a Santa Catarina

De julho a setembro foram 15.547 bichos, sendo só 801 resgatados ainda com vida

Klaus Richmond
Santos

Aves com múltiplas fraturas nas asas, vítimas de agressões. Uma tartaruga encontrada já sem o casco. Leões-marinhos com balas alojadas de um revólver calibre 32. Pequenos golfinhos mutilados e encontrados encalhados na praia. Mais de dez mil pinguins recolhidos já sem vida.

Os relatos são reais e dão o tom preocupante de um “boom” de animais achados nas praias no litoral de São Paulo, Paraná e Santa Catarina nos últimos meses. De julho a setembro foram 15.547 bichos, sendo só 801 resgatados ainda com vida. Em apenas três meses, o número já supera, com folga, todo o ano de 2017, com 12.971 animais recolhidos.

Os números são do Projeto de Monitoramento de Praias, criado em 2015 que reúne universidades e ONGs dos três estados. Diariamente, pesquisadores percorrem as praias para recolher, catalogar e tentar salvar bichos que sejam encontrados na faixa de areia. 

A proposta é financiada pela Petrobras como condicionante ambiental para a exploração de petróleo e gás e cobre mais de 822 quilômetros diariamente entre Ubatuba a Laguna-SC.

Desde o início do projeto, esse é um recorde absoluto. Os principais registros foram principalmente em Santa Catarina e Paraná.

Em São Paulo, o maior impacto foi sentido pelo Instituto de Pesquisas de Cananéia (IPeC). “Foram muitas espécies, muitos registros. Parecia um apocalipse com essa junção de ocorrências”, disse Daniela Ferro de Godoy, responsável IPeC, que monitora as cidades paulistas de Iguape, Ilha Comprida e Cananéia.

O período intensificou o aparecimento de animais pouco vistos e de espécies como lobos-marinhos, tartaruga cabeçuda e de couro, esta com risco de extinção, além de focas e aves oceânicas.

Os pinguins puxaram a fila da taxa de mortalidade: 10.401. Cenas com barcos ou carros lotados com até 200 corpos empilhados em um só dia foram recorrentes. 

O trimestre observado ainda reservou casos pitorescos. A Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), por exemplo, encontrou vacas, capivaras e até cavalos mortos devido às chuvas.

“Vimos cenas chocantes e preocupantes. Achamos projéteis de uma arma calibre 32 em alguns lobos [marinhos], que geraram fraturas e lesões. Houve casos com interação de pesca. Muitos animais foram mutilados e agredidos”, disse Pedro Volkmer, professor e coordenador do PMP pela Udesc.  

HIPÓTESES

As hipóteses, por sua vez, ainda são diversas e sem conclusões. “Os indicativos que temos são de fatores oceanográficos que trouxeram os animais para o sul do país, a maior parte deles fracos e debilitados”, afirma André Barreto.

A média do projeto registra, ao menos, 10% de animais vivos encontrados. No período, a margem caiu para aproximadamente 5%.

“Temos ciclos dentro de períodos da natureza, pode ser um ciclo natural, ou não. Ainda temos uma visão fragmentada por três anos de projeto”, disse Barreto, que acredita que a base ideal para entender o fenômeno seja de dez anos de estudos.

O caso, no entanto, já é atípico para as baleias francas. O projeto Baleia Franca, liderado por Karina Groch, do Instituto Australis, em Imbituba-SC, registrou em setembro o maior número da espécie desde o início do projeto, em 1982. Desde 87, há 30 anos, o instituto realiza sobrevoos para registros aéreos, com média de 100 a 120 baleias. O número triplicou para quase 300.

Há suspeitas, também, do aumento da atividade pesqueira o que explicaria, além de muitas mortes de animais que se enroscaram nas redes, a dificuldade das espécies de encontrarem alimentos.

O excesso de bichos aumentou, e muito, a carga de trabalho das dez instituições envolvidas no monitoramento diário das praias. Foi comum estenderem o horário, além de solicitarem apoio de estagiários e funcionários de outros setores que, geralmente, não vão a campo.

“Começávamos às 6h e íamos até 21h30, muitas vezes precisávamos finalizar o monitoramento antes de acabar a praia”, lembrou um dos pesquisadores.

“Vimos muitas mortes de toninhas [espécie pequena de golfinhos] grávidas. Animais e mais animais que chegavam para a necropsia. Houve um desgaste físico e emocional das equipes”, completou a bióloga e pesquisadora Camila Domit, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), executora do projeto no estado.

 

O procedimento para atender tantos animais obedece um protocolo. No caso dos mortos é feita uma classificação, um código que vai de 2 a 5, que ilustra a condição do corpo.

O número 2 é para o animal morto recentemente, considerado o melhor para análise das possíveis causas de morte, enquanto o 5, já decomposto há tempo considerável. Esse sequer é levado para análise.

“Ajustamos alguns procedimentos, era um cenário de guerra. Precisamos optar pela necropsia de animais mais frescos”, disse o biólogo André Barreto, professor da Univali e coordenador do PMP.

Mas nem só de animais mortos foi marcado o período. Em Ilha Comprida, por exemplo, um lobo-marinho foi tratado e recuperado. Os cuidados mobilizaram cinco membros de uma equipe em revezamento constante na vigilância do animal, que não pôde ser retirado da praia, até a sua soltura.

Outro caso que chamou atenção foi de um pescador que atuou como uma espécie de guardião de um pinguim, encontrado muito debilitado na faixa de areia. Ele aguardou por horas ao lado do animal para que não fosse vítima de ataques.

A R3 Animal, de Florianópolis, realizou algumas solturas em grupos de pinguins, reabilitados após longos períodos.

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