Uber chega a Heliópolis, mas recusa de motoristas é entrave

App quer expandir presença em favelas onde ainda mantem restrição de embarque

Fabrício Lobel
São Paulo

​​Há cerca de um mês, a Uber começou a espalhar panfletos e painéis por Heliópolis, a maior favela de São Paulo, localizada na zona sul. A propaganda é marca de uma fase de testes da empresa que pretende ampliar sua presença em áreas mais periféricas onde a própria Uber impõe uma restrição virtual ao embarque de passageiros.

Mas ainda que a novidade tenha animado alguns moradores, os receio de motoristas do aplicativo em buscar clientes na região, ainda fragiliza o serviço em Heliópolis. A atendente de loja Sara Moura, 19, diz ter dificuldade em pedir viagens pelo aplicativo no entorno de Heliópolis. "Muitos motoristas cancelam a corrida. A gente pede cinco, seis vezes e eles recusam. Só porque é favela", diz. 

O relato se repete por Heliópolis. "Os motoristas até deixam passageiros por aqui, mas não pegam. Se precisar sair daqui, não consegue", comenta o barbeiro Glayson Silva, 23.

Para começar a funcionar na região de Heliópolis, a Uber estabeleceu quatro pontos de embarque que estão entre 350 a 800 metros de distância, todos eles no entorno da favela.  Três ficam em esquinas ao longo da Estrada das Lágrimas, avenida que margeia Heliópolis, e um deles na entrada do hospital local.

O morador de Heliópolis que quer pegar uma corrida, deve se deslocar a um desses quatro pontos e solicitar um carro. No novo modelo, os carros do aplicativo ainda não buscam passageiros dentro de Heliópolis.

Antes dos novos pontos de embarque da Uber, os usuários do serviço tinham que sair de Heliópolis, atravessar a Estrada das Lágrimas e caminhar por mais dois ou três quarteirões para conseguir o sinal do aplicativo. Alguns moradores relatam ter que andar até 15 ou 20 minutos em busca de um carro. 

"Tem gente que desistia de pegar o Uber, pegava um ônibus ou ia a pé", conta Iago Camargo, 23, que trabalha em Heliópolis. "Ou chamava a 99 mesmo", diz. A 99, diferente de sua concorrente Uber, não tem uma política de restrição de zonas de embarques. A empresa diz mapear áreas de risco, baseada em estatísticas internas e da secretaria de segurança pública. Assim, ela sabe quando o trajeto de uma corrida passa por uma região perigosa. Esses dados são informados ao motorista que pode ou não aceitar a viagem.

A motorista Aretuza  Vieira, 37, há dois meses trabalhando com aplicativo assume que por medo, não busca passageiros em Heliópolis. "É questão de segurança mesmo", diz. Moradora de um bairro vizinho a Heliópolis, Aretuza diz que não é só o sentimento de insegurança que a faz evitar a região da favela. "Muitos lugares têm acesso difícil, são becos muito estreitos, lombadas muito altas, é difícil manobrar. Não vale a pena", explica. 

O receio é em parte justificado pelo alto índice de roubo de veículos no bairro. Em 2018, foram registrados 653 crimes do tipo na delegacia do bairro, o sexto maior número entre as 93 delegacias da capital paulista.

Morador da região, Jhonny Wilker, 28, também é motorista de Uber e diz não recusar corridas por ali. "Eu já conheço a região e alguns dos passageiros. Por isso, já entrei com meu carro em Heliópolis para deixar uma senhora mais perto de casa ou uma família com compras. Mas não é todo motorista que aceita", relata.

Não é só em Heliópolis que a Uber mantem áreas de restrição a embarque. O mesmo ocorre em outras favelas de São Paulo como Paraisópolis, na zona sul, ou no Jardim Damasceno, na zona norte. A empresa não revela o número de áreas com restrições e diz que elas mudam constantemente, conforme receba notificações de seus motoristas de que determinada região tem ruas inacessíveis. 

A ausência da empresa em áreas periféricas incentivou a criação de serviços semelhantes de abrangência local, como o Ubra, na Brasilância, zona norte. 

Oficialmente, a Uber diz criar zonas de restrição em favelas por falta de infraestrutura local, ou seja, por causa dificuldade de fazer com que os veículos acessem vias estreitas e transitem por uma área com mapas imprecisos. "Muitos motoristas relataram informações equivocadas como vias inexistentes ou sem condições de transitar com o veículo", diz a empresa por nota. 

Por hora, os novos pontos em Heliópolis são avaliados pela empresa como um projeto-piloto bem-sucedido. A ideia é levar o mesmo para outras áreas que também têm restrições. 

A Uber diz ainda que, desde o início da operação em Heliópolis, notou uma queda no número de motoristas que têm recusado corridas na região. Afirma ainda estar em constante comunicação com seus motoristas para informar o novo modelo de embarque em Heliópolis. 

Colaborou Daniel Mariani

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